terça-feira, 21 de outubro de 2008

A formiga

A Trincadeira era uma obreira abdominosa, de rabo vermelhusco e alçado, que é o mesmo que dizer de nariz empinado, filha de uma das melhores famílias de formigas europeias, os Formicídeos, de cujos pergaminhos muito se orgulha e que remontam ao longínquo Cretáceo. No armorial das formigas, “A verdadeira história da família Formicidae”, página 126, lá estava o brasão de família: o escudo esquartelado e, em cada um dos contraquartéis, uma figura de insecto aformigado a representar as suas três fases metamórficas, e, no quarto, a atestar a ligação longínqua, uma vespa de perfil, virada à sinistra, para mostrar bastardia. Disse boas famílias, mas não faltavam descritos maus-exemplos (dizem os humanos que num rebanho há sempre uma ovelha ranhosa, e no mundo dos formicídeos esse aforismo também era verdadeiro): assassinas, escravistas eram desde sempre conhecidas, mas a variedade da Trincadeira há muito que tinha enveredado por outras formas de vida. Durante o Verão abelhavam incessantemente, atestando até abarrotar o armazém comunitário do formigueiro; depois, durante o Inverno, deitavam-se regaladamente, muito quietinhas, numa das câmaras, autênticas casernas, e, quando a fome apertava, dirigiam-se à adega, que ficava nas traseiras, em local bem arejado, e comiam o que havia, normalmente ervas de diferentes paladares, vermídeos estiolados, embora o lambisco de quase todas elas fossem os fungos que por vezes se formavam nos interstícios das pilhas do comestio.
"..."

domingo, 19 de outubro de 2008

A Serra do Pilar

Chegaram os dias curtos, pardacentos e frios na coroa da Serra do Pilar. Nesses dias, até o convento, sempre aprumado, de bivaque rubicundo de quatro águas, enterrado na cabeça até às orelhas, num ar nitidamente paisano, parecia ficar mais triste. As feridas contusas das suas paredes, galardões de outras guerras fratrícidas, pareciam ficar mais visíveis. Nas traseiras, o zimbório redondo da Igreja, de atalaia sobre a parada, fazia lembrar o solidéu carmim do arcipreste Bento. A ponte bipé, mesmo defronte, descarnada e escanchada sobre o rio, reificava aquilo que amava verdadeiramente, e que ficava na outra banda.

sábado, 18 de outubro de 2008

A taberna

O Augusto entrou na taberna da Tia Maria Augusta. No ar pairava um cheiro inebriante a licor de Baco. A luz escasseava. No balcão de madeira, carunchosa, tingida de círculos húmidos e avermelhados, deixava prever que já muito bicho tinha sido morto àquela hora da manhã. Aos seus pés, uma corda de lixo e beatas esmagadas, alongava-se a todo o cumprimento. A tia Maria Augusta de cara queimada e sulcada pelos muitos invernos já vividos, lenço atado aos queixos, dissimulada de preto no canto interior e escuro do balcão, fazia meia, só pelo tino. Encostados ao balcão dois marchantes de gado discutiam de forma acesa o real valor da uma vitela: eu dou treze notas, dizia o do chapéu desabado. É pegar ou largar.

In: As duas faces da moeda

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O colégio

O leitor não julgue que o Colégio, importante como era, tinha uma grande e donairosa fachada, alegre, de azulejos floreados, de frestões amainelados emoldurados em nobre granito, alindados com varandins de ferro forjado, frontão na grande porta de entrada elevada por um bonito patim em cantaria cinzelada, cornijas frisadas, carrancas nas goteiras, e um grande letreiro de néon com o nome inscrito, a denotar as suas origens: COLÉGIO NOSSA SENHORA DE FÁTIMA. Não! Nada disso! O Colégio era um paralelogramo, de dois andares, cuja frontaria principal era a face mais estreita, e não media mais que vinte curtas canchas. Uma porta de duas folhas, centrada no rés-de-chão, quatro janelas no piso superior dispostas duas a duas, a fazer lembrar olhos rasgados, inteligentes, um par de escadas curvadas subiam ao primeiro piso, como se fossem as hastes de um bigode descaído, encontrando-se no primeiro andar, num pequeno varandim, com acesso a uma porta, também ela bífore, que bem podia ser o nariz daquele estranho ser de cútis esbranquiçada.
Os dizeres COLÉGIO NOSSA SENHORA DE FÁTIMA, de furco e meio de altura, escritos na testa, em letra de imprensa maiúscula a todo o cumprimento, a avisar os passantes da sua importância, semelhante a uma gelha permanentemente encrespada, dava-lhe um ar encanecido, sapiente e prazenteiro. Mas nem todos o sentiam assim. Para muitos, e principalmente para o Toino Silvestre, aquela ruga transmitia antes um ar carrancudo, que se adensava com aquelas janelas rasgadas, envidraçadas, em permanente atalaia, como se olhasse de uma forma penetrante, intimidativa e com uma certa sobranceria para com o maralhal e também para com a sua irmã de casta inferior, que ficava defronte. Não vamos ficar pelas meias palavras. Não! Ele e a Escola rivalizavam, embora se suportassem. O Colégio olhava-a sempre com desdém. Ponto. Não era pela sua grandeza ou volumetria, que por aí não tinha hipótese de competir, mas porque era mais velho, mais erudito, e nos seus pensamentos mais íntimos tinha até pretensões a Liceu. No seu ideário, o ser Liceu era atingir os píncaros da pedagogia, era ser grande como o Liceu Aristotélico do grande filósofo grego. E nela denotava-se uma certa inveja, não digo que fosse uma inveja mesquinha, era, se assim se pode chamar, uma inveja benigna, quer dizer, gostava de ser adulta como o era o Colégio.
In: Contos dos montes ermos