Nos altifalantes continuavam a nascer incentivos à resistência cantados nos ritmos compassados e lentos das terras alentejanas, também apelidadas de celeiro do país (planície de larga semeadura onde a revolução, em gestação avançada, já exigia a terra a quem a trabalha, morras aos latifundiários e vivas às UCP [Unidades Cooperativas de Produção]): em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade, Grândola... Viva o 25 de Abril... Abaixo a reacção... terra da fraternidade... Viva a Revolução Socialista... O povo é quem mais ordena... abaixo o capitalismo!... dentro de ti, ó cidade... basta de repressão... o povo é quem mais ordena...
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
O beijo
Não foi um beijo na boca como agora se faz, que esses sinais de maior intimidade amorosa ou até sexualidade, para ele, já na casa dos entas, educado na mentalidade de outra época, eram coisas para se fazer a coberto da noite, submerso pelos cobertores e sempre nos ditames da moral. Aquele sinal de afecto não passava de um beijo de família, um beijo de boa educação, mas nunca poderá ser um rito de conotação sexual, porque ele, homem temente a Deus, todas as manifestações libidinosas e públicas que incluíssem contacto de mucosas, troca de bafos, e muito menos vasculhar de línguas, como se compreende, era já considerado pecado, um beijo de paz talvez seja esse o significado que melhor lhe cai. É que o beijo é um comportamento humano tão polissémico, a paleta de significados são tantos, desde sinal de traição, sopro de vida, paixão, amor, beija-mão, passando pelo ósculo de homenagem vassalática que convém esclarecer as coisas, só para evitar confusões.
sábado, 25 de outubro de 2008
O silêncio das pedras
Calcorreou as pedras negras da íngreme calçada, que lhe falaram do tempo de meninice, sim porque as pedras dizem coisas, ninguém me convence do contrário, não há silêncio nas pedras, as pedras falam – não com o sentido de coscuvilhar, bem entendido, a sua alta honradez não é digna de tal estreitura – de e para a gente, basta saber escutar, basta esperar pelos momentos mágicos do amanhecer ou entardecer, pela quietude do travesseiro, ou então simplesmente, esperar que os anos nos endureçam, que o camartelo do tempo nos enforme e nos aparentem a elas. Eu ouço murmúrios, queixumes de injustas pisadelas, por vezes ouço gritos de revolta pelo peso que carregam, ouço vitupérios de desprezo pelo cimento, ouço hinos beneditinos de louvor ao trabalho, ouço interrogações de espanto perante subidas catedrais, ouço os muros de Tebas na lira de Anfião, ouço ventilantes penedos a versejar,
ouço odes no cascalhar,
ouço limas polidoras nos calhaus a rolar, ouço gemebundos calceteiros de cócoras a martelar, vejo ascese em quem constrói.
ouço odes no cascalhar,
ouço limas polidoras nos calhaus a rolar, ouço gemebundos calceteiros de cócoras a martelar, vejo ascese em quem constrói.
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
O eucalipto
E o homem, pacientemente, explicou o contrato de vinte anos, a plantação de eucalipto, que é uma planta “nobre” de rápido crescimento, dizia ele, a renda anual, a comparticipação nos lucros da fábrica de pasta de papel. O senhor Fernandinho não hesitou. Vendeu-se mais uma vez. Antes ver floresta que ver as amendoeiras e oliveiras ao deus-dará, abandonadas, sem lhes poder valer. Nem mandou dizer aos filhos, meteu-se-lhe aquela na cabeça e ao fim de oito dias já ele assinava o contrato.
Mas não se pense que foi pêra-doce para o senhor Fernandinho, a quem dava dó ver os possantes catrapilas desenraizar as centenários oliveiras e carregá-las para serem vendidas por essa Europa fora, a alindarem algum jardim de alguém endinheirado. Até os muros de pedra solta foram veniaga. Como é possível?..., perguntam-se alguns. Não estou a falar de pedra, não, estou a falar de muros, muros de pedra solta,
muros que contam história,
peças de património,
molduras da paisagem,
Não! O dinheiro tem mais peso… Qual património, qual memória de povo!… As máquinas precisam de entrar à vontade.
Morreu de pasmo, quando os charruões, capazes de arrancar fraguedos, esventraram sem dó nem piedade o olival da Ferraria.
Mas não se pense que foi pêra-doce para o senhor Fernandinho, a quem dava dó ver os possantes catrapilas desenraizar as centenários oliveiras e carregá-las para serem vendidas por essa Europa fora, a alindarem algum jardim de alguém endinheirado. Até os muros de pedra solta foram veniaga. Como é possível?..., perguntam-se alguns. Não estou a falar de pedra, não, estou a falar de muros, muros de pedra solta,
muros que contam história,
peças de património,
molduras da paisagem,
Não! O dinheiro tem mais peso… Qual património, qual memória de povo!… As máquinas precisam de entrar à vontade.
Morreu de pasmo, quando os charruões, capazes de arrancar fraguedos, esventraram sem dó nem piedade o olival da Ferraria.
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