domingo, 16 de novembro de 2008

Resistir

NÃÃÃOOO!

Não! Alguém grite não! Que ninguém acredite. Que ninguém se vergue. Impõe-se ser revelado. A VERDADE assim o exige.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Direita e esquerda

Pedalava devagar que a estrada agora subia. Na valeta ao lado direito os maravalhos estiolados, arrastados pela enxurrante trovoada de verão de há dois dias atrás, acumulavam-se de onde em onde, formando pequenos açudes. As marcas dos pneus desenhavam-se na terra ainda húmida. Agora levava o olhar ferrado no serrilhado do limiar do alcatrão que se sucedia, meio esboroado, à canhota da cobrejante roda dianteira. A sua sombra projectava-se na estrada, ora alongava ora encorpava, rodava à velocidade da bicicleta da esquerda para a direita ao longo de todas as curvas, depois, trepava pelo talude, como que a agigantar-se, cortava os silvedos bordejantes para finalmente mais à frente adquirir uma forma asténica, alongada, ao longo de mais uma recta. De quando em vez alçava o olhar, computando a distância que faltava para chegar ao topo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Bugiadas - 4

Quando já todos maldiziam o Reimoeiro e já uma espessa nuvem escurentava as suas vidas, quando já oravam de mãos postas há longos dias pedindo perdão dos seus pecados, e não obtendo sinal divino das preces ofertadas, o desânimo começava a alastrar, como uma praga peçonhenta, inacreditável!,... abandonados pelo próprio santo, estavam capazes de o mandarem às favas, mas milagrosamente aconteceu o inesperado, eis que rebenta uma bernarda, duas… três… quatro… uma algazarra imensa atravessa as grossas paredes do roqueiro alcácer. Ouviam tudo: os trons das pedras fortemente lançadas pelas partazanas ao embaterem nas robustas portas de castanho, a assuada que parecia aumentar sempre que um pelouro era disparado e acertava no objectivo. Depois surgiram os batimentos ritmados de aríete a fazer suspeitar que a porta estava preste a ser ultrapassada. O cheiro a pez queimado entrava-lhe pelas narinas dentro. Os gritos de incentivo do Reimoeiro, a denotarem medo, sobrepunham-se ao vozeio. Era o assalto ao Castelo, eram os Bugios, a tribo vizinha que vivia em terras próximas, não sei se mais guerreira se mais agrícola, vinham em sua ajuda. De cara tapada, armados de varapaus, forquilhas, e de uma fantástica serpe, entraram rompantes e sem tardanças, libertaram os “bons”, que nestas lendas o “bem” vence sempre, e agrilhoaram os “maus”.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Bugiadas - 3

Era o solstício de Verão, o dia é longo e a noite curta. Irmãos ofertar-vos-ei grande festança como prova da minha gratidão, grasnava astuciosamente o Reimoeiro enquanto assomava à conoidal janela da sólida torre albarrã. E cumpriu. Cá fora, na almedina, o convidado poviléu cristão sentava-se ruidosamente ao longo dos toscos bancos corridos, talhados a machado, paralelamente ordenados a lembrar formação militar de infantes. Nos entremeios os linguarudos e chocarreiros bufões dançavam desvairadamente, enquanto achincalhavam indiferentemente o santo milagreiro e as gentes. Mesnadas de moscas pousadas à sombra das rudes mesas elevavam-se no ar, para logo de seguida voltarem a banquetear-se no imundo lajedo. Duas cacarejantes galinhas aloucadas ao sentirem-se perseguidas por uma criança, andrajada com longa camisa pespontada e bivaque pontiagudo na cabeça, percorriam a praça pública. Uma ninhada de pestilentos porcos indiferentes ao vozeio, fossavam incessantemente a terra húmida do canto, lá mesmo ao fundo, junto ao adarve. Um Mourisqueiro de alvo turbante a cobrir-lhe a cabeça, afagava as penas de um falcão de olhos vendados, pousado no antebraço esquerdo. A esgalgada plebe, manifestava-se ruidosamente como que a querer acalmar a senhora Fome que lhes enchia os antros estomacais pouco exigentes. Daquelas bocas nada saía de cortês, manifestava-se de forma estercorosa e rancorosa, não era gente de salamaleques: ó infiel duma figa é para hoje ou para amanhã... a tua mãe é uma rameira... ó filho de belzebu. E quando a ânsia famélica se adensava, já prestes a explodir, repentinamente, o Reimoeiro dá ordem para que se sirva a ceia. Abrenúncio!, gritaram alguns. A fartança dos tabuleiros repletos de bastimentos não passava de ossos, restos, imundícies de toda a espécie. Ainda muitos não tinham percebido o que se estava a passar já os lanceiros-reais de elmo na cabeça, pique empunhado e escudo embraçado tapavam as saídas. Os mais destemidos ainda desenharam o gesto de desnudar espada, mas imediatamente foram imobilizados e conduzidos às masmorras.


"..."

In: Fantasmas de uma Revolução