quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O reino maravilhoso

Sempre ouviu dizer que para lá do Marão mandam os que para lá estão, e isso criara nele imagens de gente distante, remota, rústica, seres isolados num reino distante, quase irreal, a quem alguém chamou maravilhoso, mas que, diga-se em abono da verdade, ele nada encontrou de maravilhoso. Viu apenas serranias desabridas, corcovadas pelo peso dos anos, torradas pelo sol, viu alcantis tremebundos pelas cieirentas noites de inverneira, húmidos penhascos empedernidos pelas enregeladas geadas, viu montes golpeados, sangrados para lhe extrair os miasmas e lhe renovar o sangue. Havia nessas visões algo de enigmático, dessa aspereza brotava uma força qualquer, desconhecida, superior, que germinava da dureza branca dos seixos,
da lisura do xisto,
da dignidade das fragas,
da pureza das fontes,
do silêncio dos homens,
das giestas,
do perfume da arsã,
da viscosa esteva, do tojo, do gelado vento, ou sabe-se lá de onde, energia quase mística que transformava os torrões mais duros em fulgurantes vergéis, montes crespos em varandas escadeadas e floridos jardins. Essa força ele viu, sentiu-a porque também ele a possuía, grande como o mar que aprendeu a amar desde ganapo, uma força que transportava no peito dorido.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Os fojos de Valongo

Entrou nos fojos romanos povoados de incorpóreas figuras, aberrantes, malignas, viventes no submundo da noite, a quem a encantada vida em que se escondiam ia sendo retirada, assassinadas para ser preciso nas palavras, pela iluminação das ruas que tardou em aparecer, eram personagens das verídicas estórias da madrinha-velha, a Tia Espírito-Santo, sim porque ela não mentia, Deus a tenha em descanso, contadas à lareira, à luz da candeia bruxuleante, também ela envolta em enregelantes apagões, arrepiantes assopros, farol de almas perdidas, de sagradas e oportunas benzeduras, por fim foi ver a negritude da lousa, que por estranho que pareça ou não, lhe acalmava o espírito.

Quando a morte espreita...

Agora que pressentia a morte, sentia desprezar a vida. Que significado tem a vida se não a vivemos, que significa viver quando a vida não passa de uma obscura e misteriosa floresta que se atravessa sem nunca se entender. Que interessa a vida quando esta não passa de vereda sinuosa pejada de assaltantes, infestada de misérias. Ah! Que insana monstruosidade me percorre a pele, me arrepia e alegra simultaneamente. Não! Já não resisto. Que ouça quem quiser ouvir. Que veja quem quiser ver. Que sinta quem quiser sentir.
Já saboreio o paladar da ambrósia.
Já vejo a barca. Já nada me lembra, já me afogo no Letes. Como a morte condensa a vida.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O peso das pedras

História não lhe interessava, além disso o tempo disponível era tão pouco que nem tempo tinha para apreciar os soberbos torreões que limitam a longa fachada barroca, nem tão pouco as duas torres sineiras que enquadram o elegante pórtico, povoado de santos e santinhos esculpidos na melhor mármore transtagana, enquadrados por elegantes colunas coríntias e coroado pelo grande frontão triangular. Para ele as pedras o único peso que tinham era o da gravidade, não ficava impressionado nem com os anos passados sobre elas, nem com a harmonia conseguida quando trabalhadas, e muito menos com o esforço dispendido por muita gente para as conseguir equilibrar e erguer. Tudo isso lhe passava ao lado.