sábado, 20 de dezembro de 2008

As férias.

Nas férias e nos dias de nomeada, e sempre que o trabalho da fábrica o permitia, metiam-se no comboio na Estação de S. Bento e “ia à terra”, como dizia. A filha já espigadota, torcia o nariz, mas ele não lhe permitia que ficasse, e lá ia contrariada. Dizia que se sentia aborrecida, não conhecia ninguém, não tinha amigos. O que era verdade, mas ele, não queria saber disso. Fazia questão de continuar a ajudar os pais no amanho dos “charabascos”. Sentia-se profundamente ligado àquela terra, e, ademais, os pais estavam a ficar velhos, as forças começavam a faltar, e então, era uma ajuda que eles muito apreciavam. No tempo das colheitas apareciam sempre os irmãos, que estavam lá para Lisboa, afora o mais novo, o Manel, que vivia em Paris, por ter fugido á guerra. Ao pai muito lhe custou, para ele, foi como se lhe arrancassem os fígados, mas depois, com o passar do tempo, e vendo bem as coisas até tinha razão, acabava, dessa forma, por apaziguar os seus pensamentos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A entrar na fábrica...

Antemanhã. A geada esbranquiçava as agras plainas do vale. No céu pardacento surgiam os primeiros raios solares, e as neblinas, rasteiras, que pareciam nascer da terra, tornavam-se menos cerradas, evolavam-se à medida que o dia dealbava. O fumo branco, espargido pela álgida brisa marítima, libertado pelas chaminés das casas que se aninhavam aqui e ali ao longo do vale, esgazeava ainda mais a paisagem. Na rua, calcetada de operários, reboava o bater dos butes no empedrado, como se um batalhão marchasse em direcção ao inimigo. Um rumorejar, adicionou-se ao barulhar ritmado da marcha. Não se percebeu muito bem, mas pareceu ser; “ninguém arreda pé”, e, surgiu no preciso instante em que no topo da rua, se desenharam à contra luz, cortando-a transversalmente, uma andaina de silhuetas de soldados de cavalaria.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Na apanha da amêndoa

Depois, o sol ergueu-se, forte, como que a demonstrar possança, e só as almas pensantes mexiam naquele inferno. Os coelhos engolfavam-se nas lorgas, as raposas e lobos refugiavam-se nos altos, onde a ossatura do monte aflorava e se fracturava em lapas estratificadas e, onde as amendoeiras e as oliveiras davam lugar ao moitedo menos exigente. Os burros, atados pela arreata no cimo do amendoal, rabejavam incessantemente e escarvavam no chão como que a pedir socorro do ataque continuado do regimento de moscas, apoiados por uma bataria de moscardos artilheiros que voejavam em seu redor. As almas varonis, essas, ao longo de toda a riba, varejavam para o chão o fruto já bem seco, indo de amendoeira para amendoeira atentos às irregularidades do terreno, sempre a ver onde punham os pés. O mulherio apanhava amêndoa a amêndoa, que despejava às mancheias nas cestas de vime asadas, e haviam de ser mudadas à medida que se avançava encosta acima, com muito cuidado, não fossem esbarrondar-se e obrigar a nova e forçada apanha.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O reino maravilhoso

Sempre ouviu dizer que para lá do Marão mandam os que para lá estão, e isso criara nele imagens de gente distante, remota, rústica, seres isolados num reino distante, quase irreal, a quem alguém chamou maravilhoso, mas que, diga-se em abono da verdade, ele nada encontrou de maravilhoso. Viu apenas serranias desabridas, corcovadas pelo peso dos anos, torradas pelo sol, viu alcantis tremebundos pelas cieirentas noites de inverneira, húmidos penhascos empedernidos pelas enregeladas geadas, viu montes golpeados, sangrados para lhe extrair os miasmas e lhe renovar o sangue. Havia nessas visões algo de enigmático, dessa aspereza brotava uma força qualquer, desconhecida, superior, que germinava da dureza branca dos seixos,
da lisura do xisto,
da dignidade das fragas,
da pureza das fontes,
do silêncio dos homens,
das giestas,
do perfume da arsã,
da viscosa esteva, do tojo, do gelado vento, ou sabe-se lá de onde, energia quase mística que transformava os torrões mais duros em fulgurantes vergéis, montes crespos em varandas escadeadas e floridos jardins. Essa força ele viu, sentiu-a porque também ele a possuía, grande como o mar que aprendeu a amar desde ganapo, uma força que transportava no peito dorido.