quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

No balneário público

O banho semanal era no “Balneário Público” que ficava no outro quarteirão. Aos domingos de manhã, antes da missa, metia toalha ao ombro, chinelos de dedo, e ala, que se faz tarde, e é preciso tirar as cotras da semana. A Dona Hermínia, a vigilante, gorda pela inacção, lá estava, embutida dentro do cubículo onde mal cabia, a espiar quem entrava, enquanto tricotava mais uma camisola para um neto, que já lhe perdeu a conta, sempre prestável, sempre pronta a ajudar. Era como se fosse um cliente habitual, já o conhecia; precisa de alguma coisa senhor José?, inquiria sempre. Não, não preciso. Respondia, já prestes a enfiar-se numa das cabines.

sábado, 20 de dezembro de 2008

As férias.

Nas férias e nos dias de nomeada, e sempre que o trabalho da fábrica o permitia, metiam-se no comboio na Estação de S. Bento e “ia à terra”, como dizia. A filha já espigadota, torcia o nariz, mas ele não lhe permitia que ficasse, e lá ia contrariada. Dizia que se sentia aborrecida, não conhecia ninguém, não tinha amigos. O que era verdade, mas ele, não queria saber disso. Fazia questão de continuar a ajudar os pais no amanho dos “charabascos”. Sentia-se profundamente ligado àquela terra, e, ademais, os pais estavam a ficar velhos, as forças começavam a faltar, e então, era uma ajuda que eles muito apreciavam. No tempo das colheitas apareciam sempre os irmãos, que estavam lá para Lisboa, afora o mais novo, o Manel, que vivia em Paris, por ter fugido á guerra. Ao pai muito lhe custou, para ele, foi como se lhe arrancassem os fígados, mas depois, com o passar do tempo, e vendo bem as coisas até tinha razão, acabava, dessa forma, por apaziguar os seus pensamentos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A entrar na fábrica...

Antemanhã. A geada esbranquiçava as agras plainas do vale. No céu pardacento surgiam os primeiros raios solares, e as neblinas, rasteiras, que pareciam nascer da terra, tornavam-se menos cerradas, evolavam-se à medida que o dia dealbava. O fumo branco, espargido pela álgida brisa marítima, libertado pelas chaminés das casas que se aninhavam aqui e ali ao longo do vale, esgazeava ainda mais a paisagem. Na rua, calcetada de operários, reboava o bater dos butes no empedrado, como se um batalhão marchasse em direcção ao inimigo. Um rumorejar, adicionou-se ao barulhar ritmado da marcha. Não se percebeu muito bem, mas pareceu ser; “ninguém arreda pé”, e, surgiu no preciso instante em que no topo da rua, se desenharam à contra luz, cortando-a transversalmente, uma andaina de silhuetas de soldados de cavalaria.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Na apanha da amêndoa

Depois, o sol ergueu-se, forte, como que a demonstrar possança, e só as almas pensantes mexiam naquele inferno. Os coelhos engolfavam-se nas lorgas, as raposas e lobos refugiavam-se nos altos, onde a ossatura do monte aflorava e se fracturava em lapas estratificadas e, onde as amendoeiras e as oliveiras davam lugar ao moitedo menos exigente. Os burros, atados pela arreata no cimo do amendoal, rabejavam incessantemente e escarvavam no chão como que a pedir socorro do ataque continuado do regimento de moscas, apoiados por uma bataria de moscardos artilheiros que voejavam em seu redor. As almas varonis, essas, ao longo de toda a riba, varejavam para o chão o fruto já bem seco, indo de amendoeira para amendoeira atentos às irregularidades do terreno, sempre a ver onde punham os pés. O mulherio apanhava amêndoa a amêndoa, que despejava às mancheias nas cestas de vime asadas, e haviam de ser mudadas à medida que se avançava encosta acima, com muito cuidado, não fossem esbarrondar-se e obrigar a nova e forçada apanha.