quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O chincalhão

Quando ia à terra – como dizia, quando se referia á terra onde veio ao mundo –, depois de cear, gostava de ir à taberna, jogar a sueca, beber um copo e falar com a gente da sua criação. Em boa verdade já não era na taberna que jogava à bisca, era no café central, mais moderno, com televisão e mobiliário de fórmica, que a taberna da tia Maria Augusta com aquelas duas mesas de pinho toscas onde se jogava forte e feio ao chincalhão e uns bancos corridos encostados às paredes, onde se sentavam os mirones, teimava em manter-se aberta, já não dava guarida a todos. “Quem está fora racha lenha”. Dizia algum jogador que achasse estar a ser espiado.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A Ilha

A casa era uma das doze minúsculas casas, dispostas em “U” invertido, que podiam ser apelidadas de bonecas, constituíam a “VILA ANTONIETA”, uma aldeia em miniatura, de cujo nome elegante e romântico não transparece a vida de contubérnia a que obrigava. A casa de banho comum, um cubículo encolhido com espaço apenas para uma sanita, camuflava-se como que envergonhado, no interior de um caramanchão de heras, postado a um dos quatro cantos do logradouro comum; pátio de entrada para todos os casinhotos, cortado a meio e a todo comprimento por um estendal, onde aventados andrajos drapejavam como bandeiras, quer fosse verão ou inverno, quer chovesse ou fizesse sol. As paredes, revestidas a plástico e a jornais amarelecidos pelo tempo, não passavam de tabiques grosseiros, cuja opacidade resultava apenas para o olhar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

No balneário público

O banho semanal era no “Balneário Público” que ficava no outro quarteirão. Aos domingos de manhã, antes da missa, metia toalha ao ombro, chinelos de dedo, e ala, que se faz tarde, e é preciso tirar as cotras da semana. A Dona Hermínia, a vigilante, gorda pela inacção, lá estava, embutida dentro do cubículo onde mal cabia, a espiar quem entrava, enquanto tricotava mais uma camisola para um neto, que já lhe perdeu a conta, sempre prestável, sempre pronta a ajudar. Era como se fosse um cliente habitual, já o conhecia; precisa de alguma coisa senhor José?, inquiria sempre. Não, não preciso. Respondia, já prestes a enfiar-se numa das cabines.

sábado, 20 de dezembro de 2008

As férias.

Nas férias e nos dias de nomeada, e sempre que o trabalho da fábrica o permitia, metiam-se no comboio na Estação de S. Bento e “ia à terra”, como dizia. A filha já espigadota, torcia o nariz, mas ele não lhe permitia que ficasse, e lá ia contrariada. Dizia que se sentia aborrecida, não conhecia ninguém, não tinha amigos. O que era verdade, mas ele, não queria saber disso. Fazia questão de continuar a ajudar os pais no amanho dos “charabascos”. Sentia-se profundamente ligado àquela terra, e, ademais, os pais estavam a ficar velhos, as forças começavam a faltar, e então, era uma ajuda que eles muito apreciavam. No tempo das colheitas apareciam sempre os irmãos, que estavam lá para Lisboa, afora o mais novo, o Manel, que vivia em Paris, por ter fugido á guerra. Ao pai muito lhe custou, para ele, foi como se lhe arrancassem os fígados, mas depois, com o passar do tempo, e vendo bem as coisas até tinha razão, acabava, dessa forma, por apaziguar os seus pensamentos.