domingo, 1 de março de 2009

Existência!

O negrume da noite envolvia tudo em redor, era como se nada existisse. As pedras dos canteiros, as flores... tudo desapareceu. Mas existem, eu sei que existem, porque ainda ontem à luz do dia, as vi. “Tudo existe através de mim”, foi o pensamento que lhe surgiu como um relâmpago, como se naquele momento se tivesse descoberto a si próprio. Tudo está em mim. É dentro de mim que tudo nasce. Começava a acreditar que o Homem era de facto o centro de tudo, a medida de todas as coisas. Ele tudo encerra, o bem e o mal, o bonito e o feio, o céu e o inferno, é no seu íntimo que se processa esse discernimento, nem sempre correctamente, pensava.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A morte.

E a morte não será isso? Morrer fisicamente é perder a consciência, é deixar de ter a noção do real, do mundo que nos rodeia e, nesse sentido, ele estava morto. Conscientemente morto, talvez, emparedado naquela quadra, nenhum estímulo lhe feria os sentidos, nenhuma luz lhe penetrava na pupila, nenhum som lhe chegava aos ouvidos, nenhum calor lhe aconchegava a alma. Isso também é morte!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Antes!

Na fábrica, os dias sucediam-se ao ritmo dos turnos, levando e trazendo revoadas de operários, silenciosos, disciplinados, sem manifestar dissenções, militarmente dir-se-ia “calados e virados para a frente”. Ou então, se as havia, eram sempre feitas em surdina, a olhar para o lado, não fossem as paredes ter ouvidos. Aos dias amenos, seguiram-se os quentes, estiolantes, também para a paisagem, por fim, quando chegou o inverno, sucederam-se os pardos e chuvosos. As nortadas apenas trouxeram frio, idéias não se atreviam a transportar, quando muito, agitavam-nas em terras de alta latitude, mas desmontavam na raia. Orgulhosamente sós! Fosse qual fosse o remoinho que tentasse crescer e elevar-se no éter pútrido, era imediatamente abafado.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Os sons da lareira...

Ouviu o raspar do badil na laje de cineração para retirar a cinza acumulada. Acudiu-lhe ao nariz o cheiro acre da cera da pinha a arder antecedido pelo charriscar de um fósforo. Depois, foram as atiçadelas de tenaz, secas e firmes, a esburgar o tição do toro de amendoeira que há vários dias ardia devagarinho à lareira. Ouviu “tric”, quando as dependurou no prego negro que ficava ao lado da fogueira e as hastes se fecharam. Ouviu o soltar da caldeira da vianda das lárias, ideou-a a abanar como sempre acontecia ao ser aliviada do peso, escutou os passos pesados a deslocarem-se escada abaixo, apercebeu-se do despejo na pia dos porcos. Ouviu os roncos de sofreguidão e abocanhamento.