sábado, 2 de maio de 2009

D. Quixote.

Ficou na dele, o pai descarregou a sua ira, mas nem por isso deixou de procurar a companhia do novo amigo, não o achava nada perigoso conforme lhe fez acreditar o pai, pelo contrário, achava apaixonantes as suas ideias de igualdade, o seu conceito de homem, agradava-lhe aquele acreditar em algo que lhe parecia grandioso, até pode ser considerado utópico, mas não deixava de lhe parecer heróico defender as suas verdades com todo o seu querer, como um Che, ou um D. Quixote, alienado e crente, a combater com afinco as atafonas de vento.

domingo, 26 de abril de 2009

O corpo da Aida.

À noite deitado ao lado da Aida, deitava contas à vida. Todos dormiam, o irmão na quartido da frente, de onde por vezes vinham uns sonidos rangentes, e ele na saleta com o corpo quente da Aida, ali à mão de semear,
pudibundo, sem lhe poder tocar,
o sangue nas veias fremia,
mas ele de mãos postas resistia.

domingo, 19 de abril de 2009

25 de Abril

Terminava a epopeia, era tempo de soltar amarras, esbanjar, libertinar, era tempo de acreditar que “O POVO-UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO”, mil vezes gritado de punho erguido descendo e subindo ruas e avenidas.

Regressavam da Taprobana, vinham de velas enfunadas, agora da respublica, exibindo cravos vermelhos em vez da cruz do Infante. Não as via, mas estavam lá todas, adernadas; a Bérrio, S. Gabriel, até S. Rafael lá está... velejavam num mar agitado, dissolvidas num nevoeiro espesso como a noite, vinham de mastaréus quebrados, enxárcias destruídas, olhos tristes, semblantes desanimados. Dir-se-ia que fustigadas pelas fúrias do Áfrico velejavam de velas rasgadas, ao longo de toda a ocidental praia lusitana, onde o mar se acaba e a terra começa, ou então por vingança do Neptuno – obrigado a vergar-se à vontade do Gama –, de tridente em riste, furibundo, se ergue dos abismos abissais do Oceano, as devolve depois de longos lustres agasalhadas nas costas de África. E não traziam
Canela, cravo, ardente especiaria
Ou droga salutífera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,

eram antes destroços de vida.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Inquietação

Como ele inquietava consciências!Escrevia nas paredes... Acusava-os de comerem tudo e não deixarem nada. Enaltecia o dom Malapeira que nunca se deixou levar pelos francos e se manteve agarrado ao terrunho, enobrecia a necessitada rebusqueira da amêndoa, engrandecia o cantar dos pássaros que no seu chilrear matutino davam conselhos de vida: poupa, … poupa, … tem-te-na-raiz,… tem-te-na-raiz. Cantava gente anónima: a Rita, o Casimiro, a Etelvina e o Barnabé. Escrevia palavras que até um cego via. Louvava a formiga que vinha em sentido contrário. Visionava um comboio descendente onde vinham todos à janela, uns calados e outros a dar-lhe trela. Cantava corações inteligentes, cantava a solidariedade dos homens e mandava trazer mais um amigo, cantava o dia em que o pintor morreu, os ribeiros, as fontes, o vento, cantava a utopia.