Já cá estamos, pensei quando chegamos.
Tal como na vida, o caminho não se descreve, deve ser descoberto por quem o percorre. Essa era a minha posição no início, guardarei para mim aquilo que viver, pensava, mas as sensações foram tantas, as paisagens, os recantos, as Igrejas, as pedras milenares, os enigmas, o gozo de percorrer o caminho das estrelas, o rasto da via láctea, foi tão grande que não podia deixar de escrever algumas passagens. Aqui ficam.
Correu tudo como o planeado. Saímos do Porto pelas 4 horas da manhã chegamos pelas 15 horas a Saint Jean Pied de Port. Trata-se de uma pequena vila no país-basco francês, uma vila fronteiriça, encaixada nas altas montanhas matizadas de verde que constituem os Pirenéus, e que é preciso vencer no primeiro dia de viajem. Hoje sei que esta foi a mais dura das etapas.
As construções são de um basalto róseo, creio que é basalto, que lhe transmite uma aparência diferente do habitual, nomeadamente à sua Igreja, que fica encaixada no casario da principal rua, que corta o rio Nive através de uma pequena mas bela ponte, e é freneticamente povoada de peregrinos, de mochila às costas e bordão na mão, que a percorrem, de alto a baixo, à procura de um albergue que os possa alojar durante a noite, ou em busca de um último artigo que se torna necessário para a longa viajem que se propõem fazer. A Igreja em si é pequena, possui um abside muito simples, sem talha, nele ressaltam 3 figuras bíblicas, e uns resplandecentes vitrais, lá no alto, que representam santos que não consigo identificar, embora um deles diga tratar-se de S. Pedro. Notei uma outra particularidade, as arquivoltas do portal de entrada parecem não terem sido concluídas, ou seja, não acompanham o arco em todo o seu desenvolvimento.
Não inicie a viagem sem visitar a loja dos “Amigos do Caminho de Santiago”, além da simpatia, deram-nos informação que se revelou importante ao longo do caminho. Não é propriamente o Codex Calixtinius, que os tempos são outros (que teve a sua importância e, graças a ele, ainda hoje se percorre o mesmo caminho que os peregrinos da idade média percorreram), mas foi importante porque os perfis do terreno que nos forneceram antecipavam-nos, um pouco, as dificuldade que tínhamos pela frente, bem como da longa lista de albergues existentes ao longo do caminho acabou por nos facilitar na escolha dos locais onde se poderia pernoitar. Além disso, não se pode esquecer que a “Credencial de Peregrino” permite o acesso à rede de albergues.