quinta-feira, 2 de julho de 2009

ETAPA - 3


Esta etapa foi percorrida sempre sobre um sol abrasador refrescado apenas pelas amplas paisagens matizadas de verde. Ora eram longos campos de trigo, ora longos valados alinhados do afamado vinho de “La Rioja” que provámos na fonte vinícola visitada no dia anterior, implantada à sombra do Mosteiro Beneditino de Santa Maria La Real de Irache, antigo hospital de peregrinos. Além dos declives permanentes que nos fizeram suar as estopinhas para os vencer, e que põem à prova de qualquer um a sua capacidade de resistência, a gravilha dos 76 Km percorridos também nada ajudava na tracção das rodas.
Los Arcos é a fronteira entre Navarra e Castela. Impressionou-me a majestosidade e a quantidade de casas brasonadas que definem as longas e apertadas ruas. O caminho passa em frente à magnífica Igreja de Santa Maria, que visitámos no final da tarde do dia anterior, atravessa a estrada nacional, contorna o cemitério e, depois da primeira subida matinal que, de bom humor, considerámos de boas-vindas ao caminho, prolonga-se ao longo dos imensos campos verdes, afunila-se lá ao fundo, desaparece e volta a reaparecer, logo de seguida, na encosta do monte seguinte, para finalmente surgir Sansol, onde chegámos depois de duas boas horas a pedalar. Passa-se depressa que a senda vai descer e é preciso aproveitar, no outro lado da encosta avista-se Torres del Rio, desce-se por um caminho pedregoso, sobe-se por uma rua cimentada, como tantas outras, e sente-se a necessidade de um empedrado português, que enquadraria melhor a vetustez das ruas. Parámos para estabilizara respiração e pagámos um euro, que não choro, para visitar a belíssima Igreja do Santo Sepulcro.
Os períodos de descanso ao longo do dia foram poucos e, quase sempre, aproveitando os locais onde as lendas se misturam com a actualidade. Em Logroño admirámos, ao longe, o famoso Castelo de Clavijo que, lá do alto, continua a dominar toda a região e a simbolizar, também ele, os tempos da reconquista. Visitámos mais uma Igreja, a Igreja de Santiago, creio que ser assim designada e, logo à entrada, reverenciei-me perante uma simples placa que afirmava com todas as letras, em jeito de advertência: “… povo que esquece a sua história sujeita-se a que tudo se repita”. E logo a seguir continuava: En este lugar asesinaro el 3 de Setiembro de 1936 a 27 personnas entre ellas, BIENVENIDO VELASCO MENDICUTE victimas de la represion franquista, su dellito estar afiliado a la izquierda Republicana de Ábalos”
Depois de passar Navarrete, vinhedos, Ventosa, vinhedos, vinhedos, vinhedos, chegámos a Nájera, que afirma a sua hospitalidade escrevendo que em “Nájera el pelegrino es najerino”. Aqui, em Nájera, que significa “entre pedras” antiga capital de Navarra, voltámos a encontrar o intrépido Rolando, agora a derrubar o gigante Ferragut, um malvado muçulmano, horrível, de turbante e tez escura, que mantinha prisioneiros os pobres cristãos no seu castelo, que não vimos.
Depois de carimbar a caderneta subimos a íngreme rua e entrámos mais uma vez num caminho de terra batida, já o sol começava a declinar. Exaustos passámos Azofra, fotografámos a sua picota, em Ciriñuela rezámos para que Santo Domingo da La Calzada estivesse perto, e onde, segunda a lenda, também o galo cantou depois de morto, tal como em Barcelos.
Dormimos num belíssimo albergue, com alguma privacidade, ressonámos à vontade, já que no quarto disponibilizado estava apenas o nosso grupo, e o Mad Max, figura italiana, surreal, saída do tal filme apocalíptico.

BUEN CAMIÑO!

sábado, 27 de junho de 2009

ETAPA - 2


Foi uma etapa longa, quente, e culturalmente muito rica. Pamplona, onde chegamos ao lusco-fusco do dia anterior, é a primeira grande capital que se encontra no caminho. Dormimos num albergue municipal, instalado num antigo seminário, e acabamos por assistir à festa de permanência na primeira divisão do OSASSUNA, clube dessa cidade, e demos asas à nossa aficcion toureira, nas afamadas festas dos encierros de San Fermin, contracenando com as corpulentas estátuas dos exemplares taurinos que correm ao longo das ruas no centro da cidade.

À saída acabamos por nos perder, e só encontramos a direcção devida, nos frescos jardins da zona universitária que se prolongam numa bonita zona pedonal, onde apetece apreciar a paisagem em redor sentado nos muitos e apetecíveis bancos existentes. Todo esse corredor que bordeja a cidade foi atravessado sem pressas, como disse, acabando por desembocar na bela ponte de Azella. Depois o caminho começa a subir e só pára no “Alto del Perdon”, onde a lendária “Fuente de Reniega” continua a ser objecto de interesse das imensas máquinas fotográficas, bem como a paisagem distante, tão distante que faz perder o olhar. Diz a lenda, que o diabo disfarçado de caminhante, apareceu a um sedento peregrino e prometeu levá-lo a uma fonte se renegasse a sua fé. O peregrino rejeitou a oferta e foi então que se deu o milagre. Santiago surgiu-lhe, à frente dos seus olhos, vestido de peregrino e conduziu-o a esta fonte onde lhe matou a sede com a sua vieira.
Depois o caminho desce rapidamente por sendas pedregosas, como a vida, e depressa se chega a Uterga, Muruzával e Obanos, onde paramos para retemperar forças e apreciar a beleza arquitectónica da Igreja de S. Juan Baptista e onde soubemos, um pouco encantados, a lenda da Santa Felícia de Aquitânia: diz-se que depois de percorrer o caminho como peregrina, decidiu renunciar à vida de nobreza e ficar a viver neste lugar para auxiliar os pobres. O Seu irmão, Duque Guilherme, quis obrigá-la a regressar, como não o conseguiu matou-a à punhalada. Cheio de remorsos, peregrinou até Santiago como penitência e no regresso decidiu ficar também ele em Obanos.
Continua-se por entre campos de cultivo e aparece outra lenda do caminho, que cresceu à sombra dele, encruzilhada do caminho Aragonês e Francês: Puente la Reina. Conta a lenda que na ponte dos peregrinos existia uma imagem da virgem de El Puy e sempre que a aldeia se engalanava para qualquer evento, aparecia um passarinho para lavar a imagem, molhando as asas no rio e transportando água no bico.
Ficou-me na memória a estreita e bonita rua que desemboca na dita ponte dos peregrinos, bem como o primeiro percalço da viajem, já que, nas proximidades desta vila se partiu o parafuso que fixa o selim ao espigão e, sem forma de conseguir esta importantíssima peça da bicicleta, que me apetece apelidar de máquina de regresso ao passado, tive que continuar viajem até à próxima vila, meia dúzia de quilómetros depois, pedalando sempre em pé, sem me poder sentar. Continua-se sempre em frente debaixo de um sol impiedoso, só amenizado por se saber que se pedala nas pedras de mais uma estrada romana. Atravessam-se vinhedos, a estrada nacional, várias vezes, e a seguir aparece Lorca e a sua bojuda igreja. Depois, depois lembro-me de subir, descer, subir, descer… atravessar pontes, vilas, aldeias com robustas e preciosas Igrejas, de grande dimensão, como se fossem desproporcionadas para o tamanho dos lugarejos.
A meio da tarde, depois de ver amendoeiras oliveiras que foi para mim uma novidade, surge Estella, e surgem dúvidas se devíamos continuar, ou dormir ali, tal era o cansaço e o calor sentido. É uma vila de grande riqueza cultural, abundantes monumentos, testemunhos de um passado florescente. Nela assisti a uma lição curiosa. Fui assistente de uma aula ao vivo, dada por uma professora de 1º ciclo, com a turma sentada na escadaria de uma das Igrejas, extremamente atenta, onde explicava de uma forma muito concreta a reconquista cristã, as marcas existentes desse longínquo tempo histórico naquela terra, além das curiosidades sobre o Caminho de Santiago. Uma aula de história ao vivo, muito interessante. Os bons exemplos podem ser copiados.
Decidimos continuar até “Los Arcos”, onde dormimos nas águas-furtadas de um albergue sui generis, com um ambiente pluricultural. As lições dessa tarde ainda não tinham terminado, ainda tivemos que beber na famosa fonte de vinho,… sim!, não é lenda, existe mesmo a fonte que brota vinho por cortesia das adegas Irache.

BUEN CAMIÑO!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

ETAPA - 1


Saímos de S. Jean Pied de Port cerca das 8 horas da manhã, depois de termos dormido num dos muitos albergues existentes na vila, e que, por sinal, nesse dia, segundo a loja dos “Amigos do Caminho”, esgotou a capacidade de camas existentes.
O dia anunciava-se nebuloso, o que podia considerar-se uma bênção, atendendo ao facto dos declives que era necessário vencer. Logo após a saída da “Porta de Espanha”, que corresponde ao fim da rua principal da vila, e o início do próprio caminho, este bifurca, e uma placa avisa para não seguir o da esquerda em caso de mau tempo. Optámos pelo da direita, tendo em consideração o tempo e algum dos receios de difíceis declives que toda a gente referia com muito íngremes. Fiquei sem saber como eram os da esquerda, fiquei sem conhecer a "Passagem de Napoleão", mas uma coisa eu sei, aquele por onde optámos era muito difícil. Veredas estreitas, córregos sombrios mas refrescantes, inclinações de tal forma elevada que durante os períodos de curta paragem, nem dava para descansar correctamente. Um pouco perdidos nos vales e na densidade da vegetação só os sons da terra eram audíveis, só o sussurrar dos ribeiros, o cantar da passarada, só o ramalhar das árvores se misturavam com a respiração ofegante de todos nós. Foi um alívio quando cheguei a Ibañeta e avistei o monumento de homenagem ao bravo Rolando. Daí a Roncesvales que, para mim, era um local a não perder, pelo simbolismo histórico, são cinco minutos, ou menos. Confesso que o idealizava mais como um conceito místico do que propriamente geográfico. Imaginei-a sempre como uma vila com muitos habitantes, mas depressa conclui que Roncesvales se tratava apenas de um marco histórico, onde as construções se resumiam à Igreja e edifícios pertença da Real Colegiada de Nossa Senhora de Roncesvales. Administrativamente pertencente a Burguete/Auriz.
Almoçámos, quer dizer, alguns de nós comeram a merenda sobrante do dia anterior, que as mochilas estavam pesadas e era preciso aliviar, outros optaram por um bocadilho bem aviado de jambom e queso, uma coca-cola que, segundo dizem, ajuda no esforço. Devorei com o olhar as igrejas, os edifícios, os recantos, e abalámos depressa, porque o destino ainda estava longe: Pamplona.
Logo à saída, como que a avisar, uma placa dizia: Santiago de Compostela 790 Km. Ninguém quer desistir, perguntou alguém. A resposta foi unânime, envolta numa gargalhada, que todos sabíamos qual era o seu significado. Seguimos, agora por caminhos gravilhosos debaixo de um sol escaldante, sempre à cata das setas, atravessando pequenos riachos bem como a estrada nacional que se ia cruzando com o caminho milenar.
Nesta tarde foi particularmente difícil chegar ao alto de Erro. No registo das centenas de fotos que fiz ficaram as pontes de Zubiri e Larrasoaña . Sobre a primeira, sei agora, ser chamada da raiva porque, segunda a tradição, os animais que passavam sob os seus arcos ficavam curados dessa doença. Na segunda apelidada de “Los Bandidos” por naquele local os peregrinos sofrerem muitos assaltos.

BUEN CAMIÑO!

domingo, 21 de junho de 2009

ETAPA - 0


Já cá estamos, pensei quando chegamos.
Tal como na vida, o caminho não se descreve, deve ser descoberto por quem o percorre. Essa era a minha posição no início, guardarei para mim aquilo que viver, pensava, mas as sensações foram tantas, as paisagens, os recantos, as Igrejas, as pedras milenares, os enigmas, o gozo de percorrer o caminho das estrelas, o rasto da via láctea, foi tão grande que não podia deixar de escrever algumas passagens. Aqui ficam.

Correu tudo como o planeado. Saímos do Porto pelas 4 horas da manhã chegamos pelas 15 horas a Saint Jean Pied de Port. Trata-se de uma pequena vila no país-basco francês, uma vila fronteiriça, encaixada nas altas montanhas matizadas de verde que constituem os Pirenéus, e que é preciso vencer no primeiro dia de viajem. Hoje sei que esta foi a mais dura das etapas.
As construções são de um basalto róseo, creio que é basalto, que lhe transmite uma aparência diferente do habitual, nomeadamente à sua Igreja, que fica encaixada no casario da principal rua, que corta o rio Nive através de uma pequena mas bela ponte, e é freneticamente povoada de peregrinos, de mochila às costas e bordão na mão, que a percorrem, de alto a baixo, à procura de um albergue que os possa alojar durante a noite, ou em busca de um último artigo que se torna necessário para a longa viajem que se propõem fazer. A Igreja em si é pequena, possui um abside muito simples, sem talha, nele ressaltam 3 figuras bíblicas, e uns resplandecentes vitrais, lá no alto, que representam santos que não consigo identificar, embora um deles diga tratar-se de S. Pedro. Notei uma outra particularidade, as arquivoltas do portal de entrada parecem não terem sido concluídas, ou seja, não acompanham o arco em todo o seu desenvolvimento.
Não inicie a viagem sem visitar a loja dos “Amigos do Caminho de Santiago”, além da simpatia, deram-nos informação que se revelou importante ao longo do caminho. Não é propriamente o Codex Calixtinius, que os tempos são outros (que teve a sua importância e, graças a ele, ainda hoje se percorre o mesmo caminho que os peregrinos da idade média percorreram), mas foi importante porque os perfis do terreno que nos forneceram antecipavam-nos, um pouco, as dificuldade que tínhamos pela frente, bem como da longa lista de albergues existentes ao longo do caminho acabou por nos facilitar na escolha dos locais onde se poderia pernoitar. Além disso, não se pode esquecer que a “Credencial de Peregrino” permite o acesso à rede de albergues.