Esta etapa foi percorrida sempre sobre um sol abrasador refrescado apenas pelas amplas paisagens matizadas de verde. Ora eram longos campos de trigo, ora longos valados alinhados do afamado vinho de “La Rioja” que provámos na fonte vinícola visitada no dia anterior, implantada à sombra do Mosteiro Beneditino de Santa Maria La Real de Irache, antigo hospital de peregrinos. Além dos declives permanentes que nos fizeram suar as estopinhas para os vencer, e que põem à prova de qualquer um a sua capacidade de resistência, a gravilha dos 76 Km percorridos também nada ajudava na tracção das rodas.
Los Arcos é a fronteira entre Navarra e Castela. Impressionou-me a majestosidade e a quantidade de casas brasonadas que definem as longas e apertadas ruas. O caminho passa em frente à magnífica Igreja de Santa Maria, que visitámos no final da tarde do dia anterior, atravessa a estrada nacional, contorna o cemitério e, depois da primeira subida matinal que, de bom humor, considerámos de boas-vindas ao caminho, prolonga-se ao longo dos imensos campos verdes, afunila-se lá ao fundo, desaparece e volta a reaparecer, logo de seguida, na encosta do monte seguinte, para finalmente surgir Sansol, onde chegámos depois de duas boas horas a pedalar. Passa-se depressa que a senda vai descer e é preciso aproveitar, no outro lado da encosta avista-se Torres del Rio, desce-se por um caminho pedregoso, sobe-se por uma rua cimentada, como tantas outras, e sente-se a necessidade de um empedrado português, que enquadraria melhor a vetustez das ruas. Parámos para estabilizara respiração e pagámos um euro, que não choro, para visitar a belíssima Igreja do Santo Sepulcro.
Os períodos de descanso ao longo do dia foram poucos e, quase sempre, aproveitando os locais onde as lendas se misturam com a actualidade. Em Logroño admirámos, ao longe, o famoso Castelo de Clavijo que, lá do alto, continua a dominar toda a região e a simbolizar, também ele, os tempos da reconquista. Visitámos mais uma Igreja, a Igreja de Santiago, creio que ser assim designada e, logo à entrada, reverenciei-me perante uma simples placa que afirmava com todas as letras, em jeito de advertência: “… povo que esquece a sua história sujeita-se a que tudo se repita”. E logo a seguir continuava: En este lugar asesinaro el 3 de Setiembro de 1936 a 27 personnas entre ellas, BIENVENIDO VELASCO MENDICUTE victimas de la represion franquista, su dellito estar afiliado a la izquierda Republicana de Ábalos”
Depois de passar Navarrete, vinhedos, Ventosa, vinhedos, vinhedos, vinhedos, chegámos a Nájera, que afirma a sua hospitalidade escrevendo que em “Nájera el pelegrino es najerino”. Aqui, em Nájera, que significa “entre pedras” antiga capital de Navarra, voltámos a encontrar o intrépido Rolando, agora a derrubar o gigante Ferragut, um malvado muçulmano, horrível, de turbante e tez escura, que mantinha prisioneiros os pobres cristãos no seu castelo, que não vimos.
Depois de carimbar a caderneta subimos a íngreme rua e entrámos mais uma vez num caminho de terra batida, já o sol começava a declinar. Exaustos passámos Azofra, fotografámos a sua picota, em Ciriñuela rezámos para que Santo Domingo da La Calzada estivesse perto, e onde, segunda a lenda, também o galo cantou depois de morto, tal como em Barcelos.
Dormimos num belíssimo albergue, com alguma privacidade, ressonámos à vontade, já que no quarto disponibilizado estava apenas o nosso grupo, e o Mad Max, figura italiana, surreal, saída do tal filme apocalíptico.
BUEN CAMIÑO!