terça-feira, 14 de julho de 2009

ETAPA - 5


Terminamos em Sahagún que, segundo reza história, cresceu à volta do Mosteiro de S. Facundo (daí o seu nome), e dormimos num do albergue espectacular. Trata-se de um edifício antigo, adaptado para aquelas funções, no entanto, porque foi mantida toda a traça, nomeadamente as paredes em adobe e “tijolo burro”, emprestam-lhe um ar especial reforçado pela música ambiente que adocicava a alma e o corpo dorido pelos 104 quilómetros percorridos, cheios de desníveis curtos mas elevados.
Nessa manhã acabámos por sair um pouco mais tarde que o habitual, já que foi necessário recuperar antes da partida um telemóvel, encerrado na área administrativa durante toda a noite, e que nós desconhecíamos o seu fecho.
O caminho segue praticamente em linha recta até Hontanas, recordo as longas linhas de saibro bordejadas por extensas searas onde vermelhavam uma miríade de sedosas papoilas, esvoaçando ao sabor da leve e agradável brisa que se fazia sentir. Depois segue por um longo vale e, antes de surgir Castrojeriz, passa-se pelas enigmáticas ruínas do antigo convento de santo Antão, onde morreram milhares de peregrinos afectados pelo “fogo de Santo Antão”, uma enfermidade causada pela ingestão de um fungo, o ergot, que cresce no centeio e provoca uma espécie de gangrena nas extremidades do corpo. Castrojeriz surpreende pelas ruínas do castelo que continua a olhar lá de cima do cerro, isolado, a famosa Igreja de Nossa Senhora de Manzano, já celebrada por Afonso X nas suas cantigas.
Depois de sair de Castrojeriz torna-se necessário vencer a curta, mas acentuada, arriba até ao “Alto de Mosterales” e, lá no alto do cerro, parar, cerrar os olhos para melhor escutar o vento que nos fala da formação de Portugal, de juramentos, que verseja odes de cavaleiros em denodados combates, que fala de vassalagem e traição, de dor e sofrimento, de moiras encantadas, de casamentos e mistérios, depois, depois abrir os olhos, olhar em redor, e desfrutar, longamente, porque este olhar tem que ser longo, a vista esplendorosa dessa velha e encantadora Castela.
Se se continuar a pedalar durante uma boa hora, já em plena Tierra de Campos, chega-se ermida de S. Nicolau, construída em pedra granítica, creio (material de construção que vai deixar de ver daqui em diante), antigo hospital de peregrinos, erguida mesmo ao lado da ponte medieval sobre o rio Pisuerga, que separa as províncias de Burgos e Palência, mandada construir por Afonso VI, segundo o placard informativo especado ao seu lado, rei de Leão e Castela, pai de D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques.
Lembro-me que o caminho entre Boadilha del Caminho e Frómisté, grande parte dele, percorrido ao lado do canal de irrigação de Castela, mas a riqueza e esplendor histórico que possuem, confesso, que me passaram um pouco ao lado, tal era o cansaço e, simultaneamente, a vontade de chegar ao fim, de fazer quilómetros pelas infinitas planícies que se deparavam à nossa frente.
O caminho depois desta última aldeia é paralelo à estrada nacional, é uma linha recta perfeita e, ao longo das longas horas que passei sentado sobre o incómodo selim, que nem a maravilhosa pomada cicatrizante colocada todas as manhãs conseguia amaciar, distraía-me com os caminhantes que, lá ao longe, no alto da próxima subida, se definiam como formigas e engrandeciam à medida que me aproximava. Distraía-me a olhar a vieira dos quatro marcos brancos da indicação do caminho, gémeos e em forma de quadrado, que definiam as travessias para os grupos populacionais laterais e também, e porque não escrevê-lo, com os tufos de ervas altas que bordejavam a terra batida, e que, delicadamente, roçagavam levemente a minha perna direita.
Dessas longas rectas, e dos núcleos populacionais que ladeiam o caminho, ficou impressa na minha memória, e na minha máquina fotográfica, o exterior da majestosa igreja românica de Santa Maria A Branca em Vilalcázar de Sirga (com origem numa comenda dos templários) que, impressiona pela sua majestosidade, agigantada pelo pequeno núcleo de casas que a circundam e que, sei hoje, é um verdadeiro tesouro histórico.
De Carrión de los Condes, onde já chegámos a entrar pela tarde dentro, onde saboreámos um pollo à sombra de uma velha igreja (que não decorei o nome) em plena hora da siesta, e que, por isso mesmo, nem pudemos visitar.
Depois foi um sem número de quilómetros monotonamente percorridos, debaixo de um sol ardente, monotonia essa quebrantada pelas leves ondulações do terreno, pelas belas igrejas de um tijolo vermelho e a sua bela arcaria em forma de ferradura, pelas casas térreas com paredes de adobe, cor de lama, gravando na minha mente a impressão, mais uma vez, de termos recuado no tempo dezenas de anos, embora agora as razões sejam outras.
Já com Sahagún à vista, a senda prega-nos um pequeno susto, fazendo-nos crer que segue noutra direcção, mas não! não passa de um pequeno desvio que nos obriga a passar na ponte dos peregrinos e na bonita ermida da virgem da Ponte, em tijolo cozido, como todas as construções antigas e, onde à sombra de uns salgueiros fizemos mais um amigo, um idoso, que em quinze de minutos de conversa, e na sua solidão, foi desfiando de forma autêntica, todos os problemas políticos e agrícolas daquela região, e nós, mais mortos que vivos, mais ouvintes que falantes, fomos entremeando com pequenos “sis e “nos” a demonstrar interesse no monólogo.


As forças iam começando a faltar.

BUEN CAMIÑO!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

ETAPA - 4


No início da quarta jornada as extensas planícies riojanas, verdes, muito verdes, continuaram a surgir de ambos os lados do caminho. Dormimos em “Hornilhos del Caminho”, e tal como indica o seu nome, é uma aldeia tipicamente jacobeia: a sua única rua coincide com o caminho. O albergue fica mesmo ao lado da igreja e estava completamente esgotado, valeu o polidesportivo para dormir debaixo de telha. Na previsão de andamento que, invariavelmente, fazíamos à hora do meio-deia, combinámos terminar o dia em “”Rabe de las Calzadas”, a 10 km antes de Hornilhos, mas, também ele estava esgotado, e foi mais um percalço, já que depois de ter percorrido 90 Km, tivemos que, forçosamente, fazer mais 10, o que não foi nada agradável.
Apesar das longas rectas senti que os declives começavam a acentuar-se. Atravessámos ondulantes searas, passamos Grañón e surge Redecilha del Caminho onde nos abismámos com a lindíssima pia baptismal cujo trabalho rendilhado de relevo representa uma cidade, ou melhor, as muralhas de uma cidade, provavelmente Jerusalém. Depois foi sempre a pedalar, durante uma hora, ou mais, até chegar a Belorado, cuja riqueza cultural ficou para outra oportunidade, porque o caminho passa ligeiramente ao lado, e a fome, que era muita, era imperioso saciar no primeiro bar que surgisse que, por sorte, foi o rico albergue de Belorado, que até piscina tinha.
Em San Juan de Ortega, onde almoçámos, quer dizer, onde saciámos a fome com mais um bocadillo de janbon, foi segundo rezam os cânones do caminho, discípulo de San Juan de la Calzada a quem, e aqui fica aqui mais uma curiosidade, se deve a construção da ponte de 24 arcos sobre o rio Oja, mesmo à saída da vila, bem como a calçada, e daí o epíteto de Calzada, que vai de Nájera até Redecilha del Caminho.
San Juan de Ortega, engenheiro, também ele dedicou a sua sabedoria aos peregrinos. O elevado número de assaltos e assassinatos que os romeiros sofriam ao longo dos Montes de Oca, motivou-o a construir uma Igreja e um albergue para os acolher. A abside da igreja é lindíssimo, o seu sepulcro romântico, no interior, a não perder. Mais uma vez se sente o peso pedras, não o da gravidade, claro! o do tempo que as vai encanecendo. Naquele santuário, isolado, fica-se com a sensação de regressar a um outra era, onde as coisas têm outro significado, outra dimensão e que, confesso, gostava de ter vivido. Veja-se o milagre da luz que todos os anos acontece nos equinócios da Primavera e Outono: no interior da igreja, um raio de luz do poente ilumina durante 5 minutos o capitel triplo que representa o ciclo da natividade.
Mas a maior impressão foi a catedral de Burgos, terra de “El Cid”, que se impõe pela imponência e pela harmonia Isabelina de todos os seus outões, janelas, pórticos. Todo aquele rendilhado é filigrana gondomarense. Lá dentro, não deixei de reparar na capela de Santa Ana, onde o escudo das quinas aparece várias vezes, sempre como parte integrante da grande Espanha. E se a construção aconteceu na época filipina, o que presumo, assim era, efectivamente, mas para um português, crente na portugalidade, não deixa de ser estranho.
Despedimo-nos das agulhas da catedral,com a dúvida se não seria melhor terminar por ali a etapa, mas ultrapassada essa indecisão, metemos, mais uma vez, pelos páramos castelhanos. A paisagem é agora mais áspera e mais pobre. Essa aspereza sentia depois de deixar Atapuerca e os seus sagrados menires (levantados há milhões de anos pelo nosso antecessor), ao longo de mais uma pedregosa e barrenta ladeira, que nos havia de aproximar de Hornilhos.

BUEN CAMIÑO!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ETAPA - 3


Esta etapa foi percorrida sempre sobre um sol abrasador refrescado apenas pelas amplas paisagens matizadas de verde. Ora eram longos campos de trigo, ora longos valados alinhados do afamado vinho de “La Rioja” que provámos na fonte vinícola visitada no dia anterior, implantada à sombra do Mosteiro Beneditino de Santa Maria La Real de Irache, antigo hospital de peregrinos. Além dos declives permanentes que nos fizeram suar as estopinhas para os vencer, e que põem à prova de qualquer um a sua capacidade de resistência, a gravilha dos 76 Km percorridos também nada ajudava na tracção das rodas.
Los Arcos é a fronteira entre Navarra e Castela. Impressionou-me a majestosidade e a quantidade de casas brasonadas que definem as longas e apertadas ruas. O caminho passa em frente à magnífica Igreja de Santa Maria, que visitámos no final da tarde do dia anterior, atravessa a estrada nacional, contorna o cemitério e, depois da primeira subida matinal que, de bom humor, considerámos de boas-vindas ao caminho, prolonga-se ao longo dos imensos campos verdes, afunila-se lá ao fundo, desaparece e volta a reaparecer, logo de seguida, na encosta do monte seguinte, para finalmente surgir Sansol, onde chegámos depois de duas boas horas a pedalar. Passa-se depressa que a senda vai descer e é preciso aproveitar, no outro lado da encosta avista-se Torres del Rio, desce-se por um caminho pedregoso, sobe-se por uma rua cimentada, como tantas outras, e sente-se a necessidade de um empedrado português, que enquadraria melhor a vetustez das ruas. Parámos para estabilizara respiração e pagámos um euro, que não choro, para visitar a belíssima Igreja do Santo Sepulcro.
Os períodos de descanso ao longo do dia foram poucos e, quase sempre, aproveitando os locais onde as lendas se misturam com a actualidade. Em Logroño admirámos, ao longe, o famoso Castelo de Clavijo que, lá do alto, continua a dominar toda a região e a simbolizar, também ele, os tempos da reconquista. Visitámos mais uma Igreja, a Igreja de Santiago, creio que ser assim designada e, logo à entrada, reverenciei-me perante uma simples placa que afirmava com todas as letras, em jeito de advertência: “… povo que esquece a sua história sujeita-se a que tudo se repita”. E logo a seguir continuava: En este lugar asesinaro el 3 de Setiembro de 1936 a 27 personnas entre ellas, BIENVENIDO VELASCO MENDICUTE victimas de la represion franquista, su dellito estar afiliado a la izquierda Republicana de Ábalos”
Depois de passar Navarrete, vinhedos, Ventosa, vinhedos, vinhedos, vinhedos, chegámos a Nájera, que afirma a sua hospitalidade escrevendo que em “Nájera el pelegrino es najerino”. Aqui, em Nájera, que significa “entre pedras” antiga capital de Navarra, voltámos a encontrar o intrépido Rolando, agora a derrubar o gigante Ferragut, um malvado muçulmano, horrível, de turbante e tez escura, que mantinha prisioneiros os pobres cristãos no seu castelo, que não vimos.
Depois de carimbar a caderneta subimos a íngreme rua e entrámos mais uma vez num caminho de terra batida, já o sol começava a declinar. Exaustos passámos Azofra, fotografámos a sua picota, em Ciriñuela rezámos para que Santo Domingo da La Calzada estivesse perto, e onde, segunda a lenda, também o galo cantou depois de morto, tal como em Barcelos.
Dormimos num belíssimo albergue, com alguma privacidade, ressonámos à vontade, já que no quarto disponibilizado estava apenas o nosso grupo, e o Mad Max, figura italiana, surreal, saída do tal filme apocalíptico.

BUEN CAMIÑO!

sábado, 27 de junho de 2009

ETAPA - 2


Foi uma etapa longa, quente, e culturalmente muito rica. Pamplona, onde chegamos ao lusco-fusco do dia anterior, é a primeira grande capital que se encontra no caminho. Dormimos num albergue municipal, instalado num antigo seminário, e acabamos por assistir à festa de permanência na primeira divisão do OSASSUNA, clube dessa cidade, e demos asas à nossa aficcion toureira, nas afamadas festas dos encierros de San Fermin, contracenando com as corpulentas estátuas dos exemplares taurinos que correm ao longo das ruas no centro da cidade.

À saída acabamos por nos perder, e só encontramos a direcção devida, nos frescos jardins da zona universitária que se prolongam numa bonita zona pedonal, onde apetece apreciar a paisagem em redor sentado nos muitos e apetecíveis bancos existentes. Todo esse corredor que bordeja a cidade foi atravessado sem pressas, como disse, acabando por desembocar na bela ponte de Azella. Depois o caminho começa a subir e só pára no “Alto del Perdon”, onde a lendária “Fuente de Reniega” continua a ser objecto de interesse das imensas máquinas fotográficas, bem como a paisagem distante, tão distante que faz perder o olhar. Diz a lenda, que o diabo disfarçado de caminhante, apareceu a um sedento peregrino e prometeu levá-lo a uma fonte se renegasse a sua fé. O peregrino rejeitou a oferta e foi então que se deu o milagre. Santiago surgiu-lhe, à frente dos seus olhos, vestido de peregrino e conduziu-o a esta fonte onde lhe matou a sede com a sua vieira.
Depois o caminho desce rapidamente por sendas pedregosas, como a vida, e depressa se chega a Uterga, Muruzával e Obanos, onde paramos para retemperar forças e apreciar a beleza arquitectónica da Igreja de S. Juan Baptista e onde soubemos, um pouco encantados, a lenda da Santa Felícia de Aquitânia: diz-se que depois de percorrer o caminho como peregrina, decidiu renunciar à vida de nobreza e ficar a viver neste lugar para auxiliar os pobres. O Seu irmão, Duque Guilherme, quis obrigá-la a regressar, como não o conseguiu matou-a à punhalada. Cheio de remorsos, peregrinou até Santiago como penitência e no regresso decidiu ficar também ele em Obanos.
Continua-se por entre campos de cultivo e aparece outra lenda do caminho, que cresceu à sombra dele, encruzilhada do caminho Aragonês e Francês: Puente la Reina. Conta a lenda que na ponte dos peregrinos existia uma imagem da virgem de El Puy e sempre que a aldeia se engalanava para qualquer evento, aparecia um passarinho para lavar a imagem, molhando as asas no rio e transportando água no bico.
Ficou-me na memória a estreita e bonita rua que desemboca na dita ponte dos peregrinos, bem como o primeiro percalço da viajem, já que, nas proximidades desta vila se partiu o parafuso que fixa o selim ao espigão e, sem forma de conseguir esta importantíssima peça da bicicleta, que me apetece apelidar de máquina de regresso ao passado, tive que continuar viajem até à próxima vila, meia dúzia de quilómetros depois, pedalando sempre em pé, sem me poder sentar. Continua-se sempre em frente debaixo de um sol impiedoso, só amenizado por se saber que se pedala nas pedras de mais uma estrada romana. Atravessam-se vinhedos, a estrada nacional, várias vezes, e a seguir aparece Lorca e a sua bojuda igreja. Depois, depois lembro-me de subir, descer, subir, descer… atravessar pontes, vilas, aldeias com robustas e preciosas Igrejas, de grande dimensão, como se fossem desproporcionadas para o tamanho dos lugarejos.
A meio da tarde, depois de ver amendoeiras oliveiras que foi para mim uma novidade, surge Estella, e surgem dúvidas se devíamos continuar, ou dormir ali, tal era o cansaço e o calor sentido. É uma vila de grande riqueza cultural, abundantes monumentos, testemunhos de um passado florescente. Nela assisti a uma lição curiosa. Fui assistente de uma aula ao vivo, dada por uma professora de 1º ciclo, com a turma sentada na escadaria de uma das Igrejas, extremamente atenta, onde explicava de uma forma muito concreta a reconquista cristã, as marcas existentes desse longínquo tempo histórico naquela terra, além das curiosidades sobre o Caminho de Santiago. Uma aula de história ao vivo, muito interessante. Os bons exemplos podem ser copiados.
Decidimos continuar até “Los Arcos”, onde dormimos nas águas-furtadas de um albergue sui generis, com um ambiente pluricultural. As lições dessa tarde ainda não tinham terminado, ainda tivemos que beber na famosa fonte de vinho,… sim!, não é lenda, existe mesmo a fonte que brota vinho por cortesia das adegas Irache.

BUEN CAMIÑO!