quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ETAPA - 9 (Parte 1)


Para chegar a Santiago de Compostela, nesse dia, seria necessário percorrer cerca de 120 km, o que, à partida, não estava nas nossas contas. O cansaço era muito, e percorrer essa distância depois de 700 Km pedalados, não era fácil. Não havia grandes declives, nos perfis do terreno que nos foram fornecidos em S. Jean-Pied-de-Port, e que íamos visualizando a todo o instante, era um sobe e desce constante, sem haver grandes montanhas a vencer. E foi nessa ânsia de chegar ao topo de mais uma subida, para beneficiar da descida, que se foram percorrendo dezenas de quilómetros debaixo de uma chuva constante. Desde o dia anterior que praticamente não tirava fotografais, fiz uma foto do marco 100, e pouco mais. Quando quis fazer mais uma ao antigo Hospital de Peregrinos de Santo Antão, em Ribadiso de Baixo, e à bonita ponte medieval sobre o rio Iso, no bucólico vale, onde por coincidência fiquei sem alforges da bicicleta, a máquina não funcionou. A chuva foi, sem dúvida, a grande presença neste dia, e ela foi a responsável por decidirmos não pernoitarmos, outra vez, num albergue qualquer do caminho. Estávamos ensopados, no dia seguinte teríamos que vestir roupas molhadas, e isso, foi a causa para que tomássemos a decisão, acertada, de seguir até Santiago, provavelmente reconfortados pelo belo almoço que fizemos em Melide.
Não foi um dia, como foram os primeiros, para refrescarmos a cabeça nas fontes de água fresca, sempre incentivada pelo grupo que se ria com tal comportamento, não foi dia para descansar às sombras das bonitas Igrejas que foram desfilando e que ficaram meias apagadas na minha mente, não foi dia para apreciar os bonitos cruzeiros que se vêem em muitas encruzilhadas, nem tão pouco para fazer montículos de pedras, que nos divertia, e era a forma antiga de marcar o caminho.

BUEN CAMIÑO!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ETAPA - 8 (Parte 2)


O aforismo: depois de uma subida vem sempre uma descida, não é verdadeiro. Descobri isso mesmo depois de deixar “O Cebreiro”. O desconforto da roupa molhada, o frio, fazia-me ansiar pelo fim da etapa, pelo descanso merecido. Estava no topo e, acreditava eu, daí em diante seria sempre a descer. Enganei-me redondamente. O caminho segue pela crista da serra durante 10 km, ou mais, pelo menos eu achei serem muitos, alternando entre descidas e subidas, por caminhos enlameados e estrada escorregadia, e só depois veio a vertiginosa descida até Triacastela ( penso poder traduzir-se por “três castelos”), que percorremos ignorando os perigos da velocidade, travados apenas pelos intensos ventos e rabanadas de chuva que nos feriam a cara. Nesse sobe e desce pela serra, ainda ficaram registados na máquina fotográfica, o Alto de S. Roque e a placa indicativa de 1270 metros de altitude, a aldeia do Hospital de la Condessa, o Alto do Poio, Fonfria e Viduedo. A minha memória absorveu o verde intenso da Galiza, o alcance do olhar, e as aldeias perdidas no meio da serra envoltas numa neblina translúcida, que lhe conferiam um ar surreal e misterioso.
Cá em baixo, no vale, o ar era mais quente, já não chovia, e este foi o primeiro retempero para o corpo, que só ficou completo depois do “café com leche”, bem caliente, deglutido de uma assentada. Triacastela era o fim da sétima etapa, em relação ao inicialmente planeado. Eram três da tarde, pode dizer-se que tínhamos um dia de avanço, e mais uma vez se colocou a questão de seguir ou descansar, venceu o “seguir”, a vontade de chegar ao fim era mais forte. Não visitámos a antiga cadeia de peregrinos, algo estranho ao longo da rota, nem nos deslocámos às pedreiras de calcário para carregar uma pedra e assim ajudar na edificação da catedral, o peso já era muito, os tempos são outros, e a catedral há muito está terminada, outros o fizeram, mas nós seguimos em frente, completamente encharcados.
A beleza do mosteiro beneditino de Samos ficou apenas no olhar. Passámos, olhámos sem ver, fotografámos a fachada e tudo em seu redor. Mas nem por isso fiquei mais pobre. O rio Ouribio, que lhe passa aos pés, e todo vale envolvente transportou-me para o mundo dos sonhos, calmo e sereno, aquele é o meu locus amoenus, habita em mim um arquétipo qualquer que não sei definir, mas que, ao ver paisagens edílicas como aquela, de imediato me transporta para um mundo submerso na escuridão do tempo, o tempo longínquo das sapientes Tágides, as venerandas ninfas das fontes que me apetece evocar. Lá dentro, vi claustros, magnificentes abóbadas, capiteis, esculturas impressionantes, arcos em ogiva, vitrais, pináculos de catedrais e, misteriosamente, ecoaram em mim cânticos gregorianos que me fizeram esquecer o cansaço e me acompanharam até Sarria.
Abrigámo-nos num albergue dos “Oito Maravedis”, que se recomenda, cujo curioso nome tem também a ver com a verdadeira história do caminho.


BUEN CAMIÑO!

sábado, 1 de agosto de 2009

quarta-feira, 29 de julho de 2009

ETAPA - 8 ( Parte 1)


A etapa adivinhava-se maravilhosa, metafísica, mas simultaneamente dura. O dia nascia cinzento, as roupas ainda molhadas da chuva do dia anterior, arrepiava-nos e criava a sensação, nada agradável, de frio, que se misturava com a impaciência de finalmente subir ao “El Cebreiro”. Com a música sibilina de Wagner na cabeça e o misticismo de Parsifal , arrancámos, depois de encontrar a primeira vieira indicativa da direcção: Vilafranca del Bierzo, importante povoação também ela com profundas tradições jacobeias. Hoje, transcorrido um mês, estou com a sensação de que nem gozei a beleza desta vila, nem as primeiras paisagens galegas intensamente verdes do fértil vale do Bierzo, tal era a ânsia de querer subir depressa a 1300 m de altitude. De qualquer forma, afirmo: pela grandeza dos palácios e das casas senhoriais que vi, com estes que a terra há-de comer, terá tido um grande poder económico.
O albergue municipal de Cacabelos é especial. Não por se tratar de um autêntico hotel de cinco estrelas, verdadeiro peregrino aceita o que lhe dão, é especial porque se trata de um renque de pequenos quartos construídos em madeira, como se fossem berlindas de um comboio, dispostas em redor do adro de uma das Igrejas da vila. Cada um dos cubículos dispões de duas camas e apesar de o isolamento auditivo não ser nenhum, dava alguma privacidade. O pequeno-almoço também foi especial. Era domingo, todas as lojas estavam fechadas, tínhamos em nossa posse leite e cereais, que tivemos que comer sem colher, já que o supermercado visitado à chegada, ou seja, na tarde anterior, não tinha tais artefactos.
À saída de Vilafranca del Bierzo, depois de atravessar a ponte sobre o rio, continua-se a direito, segue-se pela antiga estrada Nacional VI, está correcto, também achei estranho, a designação é em numeração romana, e esta é uma importante informação, é que nesse troço o caminho estava mal assinalado, ou então a nossa capacidade de observação e discernimento já estava alterada e levou a que nos perdêssemos. Depois o caminho segue, plano, sobranceiro ao rio Valcarce. Grande parte desse troço é feito sobre alcatrão mas protegido do movimento intenso dos veículos, que cruzam a estrada, por pesados “rails” de cimento. Ao longo desses vinte e tais quilómetros vá saboreando as casas xistosas de Pereje e Trabadelo, a caixilharia das portas e janelas de um azulão que lhe fica bem e fere a vista de Ambasmesa, La Portela e Vega de Valcarce, o delicioso ferro-forjado das varandas onde pingam cuidadas sardinheiras em Ruítelan e Las Herrerias, e esta última aldeia é o sinal de que vai entrar nas fortes subidas de O Cebreiro. Nesse ponto faltam apenas 9 quilómetros, mas a dureza é tanta que mais parecem 29. Descanse um pouco em “La Faba”, espraie o olhar pelas linhas de montes que se sucedem, se as névoas o permitirem, senão, finja estar numa outra época e deixe-se levar pelas asas da imaginação, sinta o silêncio da terra, o ladrar distante de um cão, os irados mas meigos vocábulos bosquímanos de um pastor que se misturam com o chocalhar do gado, acorde, está em altitude elevada, o tempo pode mudar repentinamente, até politicamente,
siga devagar em direcção a Laguna de Castilha, a inclinação do caminho atenua-se, escute o bater do coração e vá gozando a beleza do lendário Monte Salvat.
O Cebreiro, fruto das duras condições climatéricas, foi um dos primeiros locais a acolher peregrinos. É igualmente célebre pelo milagre eucarístico. Diz a lenda que o pão e vinho se transformaram em carne e sangue quando um monge, descrente, repreendeu um camponês que subia até ali, no meio de um temporal medonho, para assistir à Eucaristia. Desde então, em 8 de Setembro, milhares de peregrinos reúnem-se no local par celebrar o milagre.
Tem origem pré-romana, celta, diz a história, o peso do tempo sente-se, de imediato, logo que se vence a última gelha do terreno. É uma povoação de pedra escura, xisto, cabanas redondas, colmadas, ruelas estreitas, de calçadas de largas lajes: um maravilhoso e misterioso lugarejo perdido no meio da serra. Não fora o frio, bem como a chuva que vinha em rabanadas intensas, além da pouca roupa que tinha, ficava ali durante toda a tarde a percorrer os múltiplos recantos das ruelas.

BUEN CAMIÑO!