
Agora, o caminho é urbano. Faltam apenas dois quilómetros, se tanto, que percorri liberto das dores musculares e do desconforto geral, tudo desapareceu, tudo parece ter voltado ao princípio, até a imperecível chuva deixou de me fustigar a cara e passou a bailar em frente aos cones de luz que os candeeiros da iluminação urbanos, já acesos, jorravam em direcção aos passeios.
Descemos o monte. Desmontámos para vencer as escadas que descem rente a uma das saídas, onde os carros passam acelerados e deixam para trás uma nuvem de água aspergida pelas rodas. Montámos e, de repente, a terra batida deixa de existir e dá lugar ao cimento, ao asfalto, de repente, as formas irregulares dos bosques, do caminho, transformam-se em simetrias, em ângulos rectos, em perfis perfeitamente planos e verticais. Uma ou outra pessoa passava rente aos beirais, a proteger-se, abstraída de tudo, e nós, ufanos por dentro, enlameados por fora, seguíamos as vieiras de bronze incrustadas no passeio, admirando as alindadas e iluminadas montras de vaidades que convidavam a parar, mas nós, simplesmente desprezávamos.
Entrámos nas ruelas graníticas, as faces abrem-se, uma ou outra pessoa atravessa a rua a correr e obriga a uma manobra mais apertada para evitar o choque. A última esquina, e praça
Obradoiro (que foi estaleiro para construir a Sé), surge, também ela deserta. Desmontámos mesmo no centro. Olhámos em redor, não havia qualquer dúvida, estávamos no mítico
campus stellae, os holofotes iluminavam toda a fachada da Catedral e adquiria, também por isso, verdadeira dimensão de estrela. Por ali vagueava o espírito de S. Tiago, de
Pelayo, de
Almansor, de
Herodes, de S. Bento, dos construtores do caminho. Eu vi-os. Juro! Vi-os no magnífico pórtico da glória. Vi-os no tímpano central, no inigualável mainel da
árvore de Jessé. Vi-os lá no alto das torres laterais da fachada. Vi-os…
Um novo sentimento de satisfação percorre as nossas mentes e, logo, uma nova corrente de companheirismo ata-nos num longo e apertado abraço. Com um sorriso de incredulidade estampado na cara, durante longos minutos por ali ficámos, sem nada fazer, a saborear aquele sentido de realização, abstraídos, vagueando o olhar pela praça. Não direi que fosse inconsciente, mas pelo menos era um pouco irracional, e só depois de o corpo começar arrefecer, e uns arrepios nos percorrerem de alto abaixo, tomámos consciência que era necessário procurar guarida.
Não cumprimos a tradição de colocar a mão direita no mainel interior à entrada na catedral, não demos as devidas turrinhas no
Santo dos Croques, não demos o abraço ao Santo, assim como não vimos a Igreja de S.
Domingos de La Calzada, não subimos ao castelo de
Clavijo, não nos abismámos com a majestosa igreja românica de
Santa Maria A Branca em Vilalcázar de Sirga, não nos pasmámos com a Igreja Fortaleza de S. Nicolau em
Portomarin, não …
ATÉ SEMPRE!