sábado, 17 de outubro de 2009

O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza

A televisão mostra os cardenhos, os ratos, a insalubridade. Uns vultos humanos saídos das sombras de um outro mundo, que infelizmente todos nós conhecemos, apressam-se a abrir a porta, a mostrar a indignidade em que vivem. Provavelmente amanhã, ou depois, surgirá a notícia de uma alma muito caridosa que ao arrepiar-se com a dureza dessas imagens lhes ofereceu uma casa condigna. Dois dias depois surgirão as mesmas figuras a agradecer a filantropia, a grandeza humana do rosto tal.
E aquele caso aquele que ninguém conhece, que nem quer aparecer na televisão porque se sente culpada dessa indignidade e sente vergonha de ir buscar a sopa que a Câmara, em tempo de eleições, distribui. Sim! Refiro-me àquele caso em que o pai perdeu o emprego e a mãe se esfalfa a limpar escadas dos prédios, mas a magreza do salário não estica até ao fim do mês. Aquele caso, mesmo ao seu lado, a quem o estado não reconhece o direito de lhe atribuir um subsídio para os livros da filha, e cuja mãe agradece muito que na escola lhe dêem de comer sem pagar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

sábado, 10 de outubro de 2009

Monólitos

Chovia. Alheio a tudo, à chuva e ao sol, ao ruído e ao silêncio, ali se manteve, impávido e sereno, sem alma. A água escorria-lhe pelo cabelo empastado, penetrava-lhe no pescoço descarnado, e ele, apático, continuava de olhar sem ver, indiferente. Aquele seu olhar, distante, continha muito mais que a indiferença do mundo, hoje, o aguilhão era outro, brotava-lhe mais fundo, nascia-lhe no lastro do seu ser, transformava-o. Incomodava-o a indiferença – ou medo, matutava – que o mundo nutria pela diferença e a divergência. Incomodavam-no os monólitos padronizados e vicejantes, incomodavam-no as pedras erguidas em pedestal sem saber por quem nem de que forma.

domingo, 4 de outubro de 2009