As mudanças radicais esperadas são muitas, a crer no mestre-de-cerimónias do Grande Circo Ocidental: entrem senhores, entrem! Pasmem-se com robots mais inteligentes do que os homens. Venham ver o leão teletransportado a partir de África, venham antecipar o futuro, regressem ao passado. E os gentios, já persuadidos pelas cerimoniosas palavras, impacientavam-se ao longo da fila, bebendo-lhe com avidez as palavras. Esqueçam a ficção cinéfila mais ousada – continuava –, esqueçam o dróide C-3PO e o biónico Darth Vader da Guerra das Estrelas, entrem num universo paralelo onde se desenvolveu uma nova espécie, dominadora e dominada. Venham conhecer o verdadeiro homem-máquina, saibam mais dos seus neurodispositivos, implantes cerebrais que lhe potencializam as funções cerebrais. Cavalheiros! Venham adquirir a viagem da vossa vida, venham sentir a imponderabilidade de umas férias na Lua.
E não era banha da cobra que anunciava. Era a mais pura das realidades. Lá dentro, na grande tenda, o primeiro andróide desafiava qualquer humano numa partida de xadrez. Na outra pista, o primeiro cyborg-pintor elaborava, mecanicamente e em poucos segundos, imagens fractais de raríssima beleza. O mestre-de-cerimónias, na exaltação do momento, atrevia-se a chama-lhe “arte”. E os humanos, nas bancadas, passivamente sentados, geneticamente transformados, mecanicamente educados, já esquecidos de Rembrandt e de Picasso, aplaudiam tamanha proeza.
Aqui
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
domingo, 31 de janeiro de 2010
Searas
Nos montes em redor não havia palmo de terra que escapasse à enxada, não havia fenda de fraga ou carcavão que não desse centeio. Da Canadinha ao Bravio, dos Marmeirais à Penacurva eram searas ondulantes a perder vista. Lá do alto do Malhãozinho, por onde botava o caminho, as vagas de ondas luminosas dos trigos vagueavam pelas encostas. O olhar alienava-se ao vê-las cirandar docemente, ficava-se de olhos arregalados a vislumbrar aquela onda que subia monte acima, devagar, a perder de vista, sem se perceber muito bem quando aquela terminava e se iniciava outra.
domingo, 24 de janeiro de 2010
A ubiquidade
– A ubiquidade existe. – Afirmou, muito convicto, o homem de cabelos brancos.
– A ubiquidade existe? – instou o seu interlocutor muito estupefacto, perante tal afirmação.
– Existe... – continuou ele. – Não me refiro ao "dom da ubiquidade", não me refiro às capacidades extra-sensoriais que não tenho, nem me refiro à ubiquidade das novas tecnologias que transformam o mundo num lugar comum. Refiro-me à ubiquidade muito humana que nos permite rememorar locais que não esquecemos, falo da beleza das pessoas que habitam esse locais e que nunca se esquecem. A ubiquidade existe.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
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