quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sinais

Ter a intuição do tempo é ser banal e medíocre, esbanjar, viver a fartura, procurar o prazer imediato, evitar trabalho e afastar responsabilidades. Esses, sim!, possuem a intuição do tempo. Esses espertos, gerados neste deserto de valores que alastra diariamente, mais tarde ou mais cedo, hão-de aprisionar o sistema e acabar por alcançar o topo da pirâmide.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Sons do Tempo - 3



Todos me dizem que o negro, Llorona
Negro, mas carinhoso.
Todos me dizem que o negro, Llorona
Negro, mas carinhoso.
Eu sou como o Chile verde, Llorona
Picante mas saboroso.
Eu sou como o Chile verde, Llorona
Picante mas saboroso.

Ai!, de mim, Llorona, Llorona, Llorona,
Leva-me ao rio
Cobre-me como teu cabelo, Llorona
Porque eu morro de frio

Sim!, porque te quero , queres, Llorona
Queres que te queira mais
Se já te tiraram a vida, Llorona
O que mais queres?
Queres mais?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O Grande Circo

As mudanças radicais esperadas são muitas, a crer no mestre-de-cerimónias do Grande Circo Ocidental: entrem senhores, entrem! Pasmem-se com robots mais inteligentes do que os homens. Venham ver o leão teletransportado a partir de África, venham antecipar o futuro, regressem ao passado. E os gentios, já persuadidos pelas cerimoniosas palavras, impacientavam-se ao longo da fila, bebendo-lhe com avidez as palavras. Esqueçam a ficção cinéfila mais ousada – continuava –, esqueçam o dróide C-3PO e o biónico Darth Vader da Guerra das Estrelas, entrem num universo paralelo onde se desenvolveu uma nova espécie, dominadora e dominada. Venham conhecer o verdadeiro homem-máquina, saibam mais dos seus neurodispositivos, implantes cerebrais que lhe potencializam as funções cerebrais. Cavalheiros! Venham adquirir a viagem da vossa vida, venham sentir a imponderabilidade de umas férias na Lua.
E não era banha da cobra que anunciava. Era a mais pura das realidades. Lá dentro, na grande tenda, o primeiro andróide desafiava qualquer humano numa partida de xadrez. Na outra pista, o primeiro cyborg-pintor elaborava, mecanicamente e em poucos segundos, imagens fractais de raríssima beleza. O mestre-de-cerimónias, na exaltação do momento, atrevia-se a chama-lhe “arte”. E os humanos, nas bancadas, passivamente sentados, geneticamente transformados, mecanicamente educados, já esquecidos de Rembrandt e de Picasso, aplaudiam tamanha proeza.

Aqui

domingo, 31 de janeiro de 2010

Searas

Nos montes em redor não havia palmo de terra que escapasse à enxada, não havia fenda de fraga ou carcavão que não desse centeio. Da Canadinha ao Bravio, dos Marmeirais à Penacurva eram searas ondulantes a perder vista. Lá do alto do Malhãozinho, por onde botava o caminho, as vagas de ondas luminosas dos trigos vagueavam pelas encostas. O olhar alienava-se ao vê-las cirandar docemente, ficava-se de olhos arregalados a vislumbrar aquela onda que subia monte acima, devagar, a perder de vista, sem se perceber muito bem quando aquela terminava e se iniciava outra.