– Aprender é muito mais que isso – continuava a explicar o professor –, aprender é ser capaz de se transformar, aprender é abrir dentro de nós um espaço de reflexão e mantê-lo permanentemente aberto. Nunca permitir que se compare a um mero centro comercial onde tudo se pode comprar, ou então a um mero celeiro de conhecimentos, e muito menos a calabouços do saber.
Ei tu, Aí fora no frio sozinho, envelhecendo És capaz de me sentir?
Ei tu, De pé no corredor Com pés sarnentos e sorriso fraco És capaz de me sentir?
Ei tu, Não os ajudes a enterrar a luz Não te entregues sem lutar
Ei tu, Aí fora na sua Sentado, nu, ao telefone És capaz de me tocar?
Ei tu, Com o ouvido contra o muro Esperando alguém para chamares És capaz de me tocar?
Ei tu, Ajudas-me a carregar a pedra? Abre o teu coração, vou para casa
Mas era apenas fantasia O muro era muito alto, como tu podes ver Não importa o quanto ele tentasse, ele não se poderia libertar E os vermes comeram seu cérebro
Ei tu, Aí fora, na estrada Fazendo o que te mandam És capaz de me sentir?
Ei tu, Aí fora, além do muro Quebrando garrafas no corredor És capaz de me tocar?
Ei tu, Não me digas que não há nenhuma esperança Juntos resistimos, separados caímos
Se eu fosse ribeiro primeiro aprenderia a escutar-me, depois, depois não hesitaria em rasgar montes, a abrir vales, esculpir as mais duras pedras existentes. Não queria ser ribeiro de águas mansas, queria ser torrente de água clara, chegar sem demora ao mar, andar depressa, ir para além do horizonte. Se eu fosse ribeiro não queria navegar em águas paradas, lamacentas, que nada criam, nada produzem, que se limiam a estar, a simplesmente existir, que tudo entopem, incapazes de abrir sulcos nas mais moles consciências. As águas estagnadas não justificam a sua existência.
Dois. Depois, olho em redor, esquadrinho os teus montes, procuro neles esse vislumbre que tu não és capaz de me dar. Procuro nas giestas, nas estevas, na dureza das fragas, nos torrões, nas amendoeiras, nas rugas dos homens de pele curtida, até na toponímica que tanto me impressionou noutros tempos, e que nunca soube explicar, procuro esse sinal, e o resultado... Parece que troças do meu desalento. Ris-te despudoradamente desta minha incapacidade, desta minha veleidade de tudo querer captar, desta minha fantasia de querer entrar nessa tua quinta-essência, que eu sei possuíres, mas tu ignoras-me, estás rendida a outros valores que não são meus, que eu não compreendo, não te consigo entender, estás fechada em ti mesma,fazes-me pena. Não sei qual a origem da tamanha incompreensão.