domingo, 11 de abril de 2010

Ser cego


Nunca tinha visto a luz do dia. Para ele a geometria das coisas era extasiante. Para ele que não conhecia a geometria da natureza o significado das palavras tinham sempre um encantamento especial, todos os seus referentes eram maravilhosos. Ele que nunca tinha visto as cores da doença, que nunca tinha visto a cara da fome quando lhe restituíram a visão entrou em depressão profunda. Aquele não era o seu mundo, preferia a cegueira.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Nunca olho para trás


Fui-me. Um emaranhado de sentimentos percorreu-me o corpo. Jurei nunca mais voltar. Queria estar longe, longe daquele turbilhão de emoções que afluiam sem perceber a sua origem. Fugi.
Hoje sei que o nascedouro era um desassossego de dúvidas sistemáticas que me perseguiam há muito tempo, mas consegui libertar-me delas. Pode até ser um poema do tamanho do mundo, como dizes, mas não existe: caro amigo, o “se...” não existe, não me convences, não existe!Ponto.

terça-feira, 30 de março de 2010

sábado, 27 de março de 2010

A idade do tempo


O tempo passou a visitar-me mais assiduamente, dizia o velho. Antigamente, que tinha muito pela frente, raramente me aparecia e, se o fazia, era sempre em forma de trovoada, de uma geada, de uma ventania, o tempo era apenas isso, nada mais. Nunca assumia formas imateriais, ou se o fazia era sempre de forma fugaz. Assomava na dobra de uma ideia, na esquina de um dia, mas imediatamente desaparecia: logo se verá; vamos andando e vendo; isso pouco importa...
Era como se nem existisse.
Agora, que praticamente já o gastei, todos os dias me visita. Todos os dias me traz uma gargalhada de criança, todos os dias joga às caricas no adro da igreja, todos os dias oiço o terror da morte, o medo da doença, a ingratidão da solidão.