Aquele erro anacrónico, aquele acrisolamento que se cria nas nossas consciências quando não se vê alguém durante muito tempo e a imagem permanece intacta, como se fosse imune ao tempo, senti-o ontem, talvez no seu grau superlativo. Foi um choque. Ao longo do tempo, sempre os ouvi, sempre que fui à “net” pesquisar os seus vídeos surgiam aquelas imagens antigas, como se nada tivesse mudado. Enganei-me. Passaram 30 anos, eu mudei e eles também. Mas passado o choque não foi mau. Posso até admitir que talvez tivesse sido preferível ficar com essas imagens, as imagens de um outro tempo na minha consciência, mas afora isso, não me arrependi. Com eles vieram à tona da minha memória outras recordações, de um outro tempo que não volta. - Não volta John Lees! Foi essa certeza que percebi no teu olhar marejado.
O homem não anda bem. Não é necessário ser médico para lhe reconhecer a doença, está estampada na face. Durante a semana senta-se em frente à televisão à procura dos canais desportivos. Durante os fins-de-semana vê-se pelas ruas salivando abundantemente, perdido, à procura de televisões que transmitem jogos. Quem o quiser encontrar é ir aos centros comerciais e procurá-lo em frente às montras de electrodomésticos. Encontrá-lo-á encostado à parede fronteira, de rádio encostado ao ouvido, a escutar os relatos, à medida que as imagens da bola se vão multiplicando nas televisões de última tecnologia.
O mundo visto daqui, destas encostas penhascosas, é diferente, completamente diferente. Este mundo é o das origens, das raízes, daqui fica-se com a visão clara de que a conurbação nos despersonaliza, nos destempera.