sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sons do Tempo - 6




Deixa-me trazer-te as canções da floresta:
para te sentires muito melhor, mais do que podes saber
Cheio de Poeira, dos pés à cabeça.
Mostro-te como o jardim cresce.
Segure firme, vê como vai.
Junta-te ao coro, se puderes:
Ele vai fazer de ti um homem honesto.
Deixa-me trazer-te o amor do campo:
Papoilas vermelhas e rosas cheias de chuva de verão.
Para curar a ferida e a dor
que te ameaça novamente
Enquanto se arrasta a travessa em todos os amantes
A Celebração longo da vida é aqui.
Eu vou brindar a todos num elogio fraco.
Deixa-me trazer-te todas as coisas refinadas:
Canções de luto servidas em cerveja resfrescante.
Cumprimentos por encontrares o colega granizo!
Eu sou o vento para encher a tua vela.
Eu sou a cruz para fixar o seu prego:
Um cantor desses tempos imutáveis.
Com prosa de cozinha e rimas de sarjeta.
Canções da floresta fazem sentir-te muito melhor.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O que me dizem as coisas

Desço a rua silenciosa, húmida, as casas comprimidas vão-se sucedendo, as varandas opostas quase se tocam. Imediatamente brota em mim uma corrente de impressões, leves, tão leves que só tomo consciência delas mais tarde, depois de sair do aperto da rua e entrar na largueza da praça. Entretanto, e sem dar por ela, vivi. Embevecido pelas formas, pelos ângulos, pelas gentes que nela circulam, pelos rostos antigos que me falam, que me respondem e me questionam, pelas plantas, e não só, que apenas vegetam, por tudo isso sonhei vidas através de um diálogo mudo e contínuo que não me cansa.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A crise

- Nada convém que se repita,
Dizia o velho jarreta.
Da crise?
Nem me atrevo!
Deixo o silêncio entrar.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Rostos

Foto: Paulo Patoleia

O rosto, a expressão do rosto, melhor dizendo, é a janela da alma, como dizem os poetas. Pode ser, e normalmente é, a expressão momentânea do ribeiro que, permanentemente, corre no interior de cada um de nós: às vezes calmo e sereno, outras vezes intempestivo e ludro. A expressão de um rosto pode também ter origem externa e ser a transcendência de um estado de alma alcançado, também momentâneo, quer pelas coisas simples e impressivas que os sentidos conseguem captar, quer porque já todos nós fomos freudeanamente desnudados, e a psicologia das vendas não se cansa de nos saciar. Mas, e não tenho dúvidas de qualquer espécie que a expressão de um rosto contém também a marca indelével de como se pensa o mundo. Um rosto possui também a acumulação de um sentir, de uma forma de estar e de pensar. Há rostos que integram a solidão, as crenças, as alegrias, as tristezas, as certezas, as dúvidas, as angústias, as esperanças... encerram as feridas permanentes de toda uma vida, encarnam a humanidade mais profunda que se pode conhecer.