sexta-feira, 4 de março de 2011

Notícia de Jornal

Este ano os deuses reuniram-se, mais uma vez, no Monte Hollympowood. Divinamente vestidos, cintilantes como estrelas posaram para as máquinas fotográficas, passearam-se em passadeiras vermelhas e acenaram aos humanos que acorreram ao local em grande número.
Tanto quanto se pode apurar na agenda havia um único ponto a discutir: o auto-endeusamento.
Tudo leva a crer que ao longo do ano a deificação continuará. Neste momento, as revistas cor-de-rosa rezam em todas as páginas, especialmente em notas de rodapé, para que muitos deles caiam em desgraça porque só assim sobreviverão.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Inimigos

O Daniel, deitado no sofá, de olhos fechados ia desfiando palavras, sem nexo, sem lhe achar qualquer valor terapêutico. Não entendia o significado de tão incómoda terapia. O psicanalista permanecia imóvel no seu velho cadeirão, mal se dava pela sua presença.
- Tem inimigos? – instou o médico, de repente, sem que nada o fizesse esperar.
- Não! - respondeu o Daniel um pouco abismado pela pergunta descabida.
- Abra os olhos – ordenou o médico.
Ele obedeceu. Pode dizer-se que se assustou, talvez um susto de incredulidade, mas era um susto. Abanou a cabeça e fechou e abriu os olhos novamente para ter a certeza que não estava a sonhar. Nunca esperaria ver a sua própria imagem reflectida no espelho que o médico agora segurava.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Calcinatio

Tinha medo de saltar a fogueira. Aquelas labaredas a desafiar a lei da gravidade, a erguerem-se para os céus, aterrorizavam-no e toldavam-lhe a razão. Aquela miríade de lumaréus a subirem misteriosamente fascinavam-no, surgiam-lhe como sendo almas a libertarem-se desta dimensão terrena. Naqueles momentos de arroubo, um qualquer ente libertava-se do seu ser, provavelmente celta, e ele ficava, longamente, a fitar a fogueira que continuava a engrossar a todos os minutos que passavam.
De repente enchia-se de coragem e desatava a correr. A respiração acelerava, as labaredas aproximavam-se, o fumo do futuro era cada vez mais denso, mas, corajosamente saltava, nada o podia fazer parar. Quando aterrava do outro lado todos os medos tinham sido mortos, aquela chama de raiva que minutos antes o consumia, deu lugar à luz da chama sulfurosa e regeneradora. As fúrias evaporaram-se, os desejos foram renovados, as frustrações desapareceram.
No rescaldo interior acabou por se encontrar.