sábado, 12 de março de 2011

É carnaval ninguém leva a mal

Os folguedos saturninos continuam.
Este ano as máscaras de renda foram postas de lado. Ninguém se esconde, todos se conhecem. Não vale a pena disfarçar os trejeitos nem adelgaçar a voz.
O enterro, em folias desmedidas, sobe a rua empedrada. De onde em onde, nos ajuntouros, param, riem, pregam-se partidas uns aos outros, lançam-se farinha, esguicham água, enfurretam quem passa. O padre sacrílego, na frente do cortejo, vai revelando as fraquezas e os pecados ocultos durante todo o ano. Na praça voltam a parar, fingem um parto difícil, a criança finalmente nasce, ninguém é poupado. As folias continuam na Rua de Trás. A inversão das coisas atinge o clímax. O morto, num estertor de morte, levanta-se e grita…

quarta-feira, 9 de março de 2011

Phil Collins



Em jeito de homenagem a um homem criativo que agora se retira dos palcos.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Notícia de Jornal

Este ano os deuses reuniram-se, mais uma vez, no Monte Hollympowood. Divinamente vestidos, cintilantes como estrelas posaram para as máquinas fotográficas, passearam-se em passadeiras vermelhas e acenaram aos humanos que acorreram ao local em grande número.
Tanto quanto se pode apurar na agenda havia um único ponto a discutir: o auto-endeusamento.
Tudo leva a crer que ao longo do ano a deificação continuará. Neste momento, as revistas cor-de-rosa rezam em todas as páginas, especialmente em notas de rodapé, para que muitos deles caiam em desgraça porque só assim sobreviverão.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Inimigos

O Daniel, deitado no sofá, de olhos fechados ia desfiando palavras, sem nexo, sem lhe achar qualquer valor terapêutico. Não entendia o significado de tão incómoda terapia. O psicanalista permanecia imóvel no seu velho cadeirão, mal se dava pela sua presença.
- Tem inimigos? – instou o médico, de repente, sem que nada o fizesse esperar.
- Não! - respondeu o Daniel um pouco abismado pela pergunta descabida.
- Abra os olhos – ordenou o médico.
Ele obedeceu. Pode dizer-se que se assustou, talvez um susto de incredulidade, mas era um susto. Abanou a cabeça e fechou e abriu os olhos novamente para ter a certeza que não estava a sonhar. Nunca esperaria ver a sua própria imagem reflectida no espelho que o médico agora segurava.