sexta-feira, 13 de maio de 2011

Pensamento

- Dá-lhe música… - disse o Fulano ao Sicrano.
Eu bem sei que o Fulano não lhe queria dizer isso com um outro sentido. Eu, que o conheço bem, sei perfeitamente que, ao dizer “dá-lhe música…”, queria ajudá-lo-ia a retemperar forças, a exaltar-lhe o espírito, a ajudá-lo a crescer. Mas ele, o Sicrano, não entendeu assim. Ele estava a querer ludibriá-lo, estava a esconder-
-lhe a verdade. Ele não era homem de músicas, era demasiado austero para se perder em folguedos musicais. Morreu assim: ignorante. Nunca percebeu que a verdadeira grandeza vem da mente e não da matéria.

domingo, 1 de maio de 2011

Erga-se…


Quem sabe a direcção do caminho? Erga-se quem não tem dúvidas do objectivo a perseguir. Defina-o. Desenhe-o. Pinte-o. Pinte-o com as cores do País, não com as cores que todos gostamos de ouvir. Pinte-o com as cores do trabalho não com as cores do novo-
-riquismo. Pinte-o com as cores do rigor e não com as cores do facilitismo.
Quem sabe onde há terras a descobrir? Erga-se quem sabe marear e quer verdadeiramente navegar. Não a navegar com terra à vista, navegadores desses já todos foram experimentados. Navegar é navegar em mar aberto, navegar sem ver terra mas ter a certeza que ela existe e é possível lá chegar.
Quem acredita naquilo que pensa? Erga-se quem, verdadeiramente, acredita naquilo que diz, e é capaz de assinar com o seu próprio nome. Não se esconda atrás de aconselhadores de imagem, de sondagens, de inverdades repetidas incessantemente que correm o risco de tornar verdades. Já conhecemos esses truques…
Erga-se… Nós segui-lo-emos.

domingo, 17 de abril de 2011

A terra dos sonhos



Ouvi hoje pela primeira vez este som.
Não é deste mundo, é do mundo dos deuses. Talvez seja o verdadeiro som dos silêncios, da poesia sem palavra. É o som da nossa ancestralidade, o som que canta a delicadeza da rosa, que penetra no nosso poço fundo e escuro e, sem sabermos porquê e ainda bem, transporta-nos para terras distantes, verdejantes, envoltas numa neblina mística, uma terra de fadas e castelos, de unicórnios e cavalos alados, uma terra onde a razão dura, e a dura razão, dos dias que hoje vivemos não fazem sentido.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

84, Charing Cross Road


Avaliar o talento é só para alguns, não para mim. O sentido estético é relativo, os valores são subjectivas, as sensibilidades diferentes… Por tudo isso sinto-me incapaz de julgar as aptidões dos outros. E, pelas mesmas razões considero-me inábil para dar conselhos, é-me penoso fazer a apologia desta ou daquela obra, deste ou daquele ponto de vista.
Posto este preâmbulo, e sempre com as devidas ressalvas, atrevo-
-me a dizer que a obra 84 Charing Cross Road, a ser publicado brevemente em português, com a chancela da Lema d´Origem, é o mais belo romance de amor pelos livros que alguma vez li. Não é um livro com discursos psicológicos a apelar à leitura, não é um livro de especialistas a analisar o esteticismo do autor à luz das verdades estilísticas estudados, nem tão pouco um precioso discurso de um exegeta a esquadrinhar o pensamento do artista. Não há ciência nesta obra, há simplesmente sentimentos.
O 84 Charing Cross Road são cartas, cartas simples entre uma escritora americana e um livreiro Inglês que nunca se viram, que amam profundamente os livros e, contido nesse amor casto que ambos nutrem por esse objecto parece querer germinar um outro também misteriosamente platónico.