segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Antecipar

Antecipo tudo. Hábito, pecha pessoal ou profissional, pouco interessa, o certo que antecipo tudo. Antevejo, planeio, esquadrinho, anteponho, vivo antecipadamente ao mais ínfimo pormenor todos os acontecimentos futuros. Este viver permanentemente para o exterior, que existe em mim, mas simultanemante contranatura cria-me indisposições emocionais, rilha-me os ossos, afadiga-me. Faço todos os esforços para me libertar dele, crio abrigos, escondo-me nas dobras de mim, reduzo o contato com os outros mas torna-se-me inevitável fugir a esta focalização (quase paralisia) cerebral.

domingo, 8 de janeiro de 2012

sábado, 7 de janeiro de 2012

À janela

Recolho-me e escuto o silêncio.
Fecho a porta e escancaro a janela da existência. Fecho os olhos e fico a contemplar tudo. Vou, sozinho, estrada fora, percorro montes e vales, passo vielas e atravesso avenidas. A paisagem passa à frente dos meus olhos como se fosse um filme. Nada é real, nem mesmo eu, tudo não passa de um sonho. Creio que ainda não durmo. Aconchego-me nas memórias de um outro espaço e de um outro tempo, que me parece distante.
Durmo.
Encosto-me ao aiar e aos sussuros das violas silenciosas. Sigo os ritmos que não conheço, caminho por paisagens de sons que me aquecem e me inspiram. Oiço-as repetidamente, sem me cansar, encontro sempre nelas motivos para as ouvir mais uma vez, sempre mais uma vez... sempre mais uma vez.
Redurmo.
Reparo agora que, lá fora, o vento fustiga a janela onde me debruço. Escrevo! Escrevo sem nexo, sem preocupações de qualquer ordem, sigo apenas o ribeiro de ideias que nasce em mim, persigo como cão de caça os paradoxos existênciais, farejo os sentimentos incongruentes e inconsequentes que me enformam.
Restam-me vestígios na consciência das cores que, momentos antes, tanto me arrebaram.
Esqueço-me de tudo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Paisagem irreal

Passamos tantas vezes sem ver que, por vezes, só as cores fortes nos dão a consciência daquilo que nos envolve. Às vezes, é necessário a natureza emitir sinais arrebatadores de presença para a olharmos. Hoje vi o dia abandonar-se nos braços da noite, como nunca. Vi o céu vestir-se de arrebol forte, tão forte que era impossível ficar indiferente. Depois, à medida que o sol se afogava no oceano, este, foi diluindo com água salgada o laranja-forte, a noite foi misturando preto, tudo muito lentamente, sem nunca estagnar, até chegar ao cinzento crepuscular, translúcido e impreciso que se tornava impossível saber onde começava o dia e acabava a noite.
De repente, já entre penumbras e luzes cintilantes da cidade, levantou-ser um brisa arrepiante.
Fui para dentro.