terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Dentro e fora

Nada me é inóquo. Há em mim um ajustamento permanente a tudo o que me rodeia. Não haverá diferença entre nós? Há, sinto que há! Há quem viva apenas fora e nunca dentro dele. Desconfio deles. Desconfio de quem em auto-avaliação irradia conhecimento. Desconfio dos comodamente adaptados. Desconfio dos pseudo-
-mestres que nunca foram alunos. Desconfio de quem conhece o universo dos outros e desconhece o dele.
Por mim, confesso: por mais leve que seja o movimento, por mais distante que esteja o acontecimento afeta-me. As personagens imaginadas, portanto, desconhecidas e as injustiças por elas criadas permanecem em mim como um estado de revolta. Essa repugnância embebeda-me, anestesia-me, impede-me de raciocinar. Bloqueia-
-me o pensamento mas liberta-me.
Afasto-me.

Tango with Lions

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Interesses

Morri! Não estudo, não vejo televisão, não me interessa futebol. O festim das desgraças políticas dos jornais fazem-me tédio, a relação com os outros é-me indiferente, perdi a fé e a esperança em mim... O que é isto se não estar morto!
Prefiro, e cada vez mais, esta coisa negra de ser cadáver vácuo e inconclusivo que espectro vivo concludente. Já nem as variações da luz solar me impressionam, e que outrora gostava de descrever, agora, prefiro o desassossego interior ao bulício alegre das ruas, já nem o alinhamento dos arruamentos me despertam, agora, prefiro a chama quente (às vezes escura) das emoções à luz inflamada dos néons, já nem as duplas faces das pessoas me tocam, agora, prefiro descobrir as minhas próprias faces.
Quero ficar sentado, imóvel, como um Sadhu, morto por fora, mas vivo por dentro. Prefiro olhar o mundo através da alma que ser enganado pelos sentidos. Prefiro a verdade da arte à verdade social.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

A elasticidade da mente

Ao evocar estes meus demónios aprisionados nesta tulha bafienta de memórias, ao abrir o alçapão deste universo, sinto que vou em espiral descendente em direcção ao “nada”. Só o halo de luz difusa da candeia da minha infância, que descortino (a custo) num futuro já passado me atrai. Evoca-me memórias não fingidas, quebra-me grilhetas, angustia-me e quase me leva às lágrimas. Há nessa luz difusa e tremeluzente um efeito medonhamente belo: o querer regressar. Regressar: ao torpor da impossibilidade de ser, voltar a abraçar o tempo inexistente e, exausto de tanto caminhar e com o coração cheio de ternura, deixar-me ficar em posição fetal, permancer inerte até adormecer profundamente, como quem está no sítio certo, e nunca mais acordar.
Este fim vago e concreto (que me atrai), em consciência, amplia-me a consciência de mim e dos outros. Elastifica-me e, por mais que tente, não retorna ao estado de equilíbrio. Mantém-me esticado, em tensão permanente.