quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O sono

Falava da morte. Da morte do pai que tinha acontecido há pouco tempo. Na noite anterior, ao despedir-se dele, prometera-lhe que no dia seguinte lhe faria a barba. E fez, cumpriu a promessa, mas já com ele sem vida. “Fiz-lhe a barba e era como se ainda o sentisse quente”, dizia ela, a filha. Descrevia-a como se ele ainda estivesse a dormir. E, de facto, o que há de mais semelhante se não o sono. Bem sei que é um sono do qual se não volta, bem sei que no sono há atividade cerebral, mas como não tenho consciência dela, ou raramente tenho, por isso considero-me morto. Morro porque não sinto, vivo porque sinto. Ninguém tem experiência da morte e porque esta é a minha verdade vivo e morro diarimente.

Tom Waits

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Remexer as cinzas

Nove horas da manhã. Mexo nas cinzas. Racionalizo-me, mais uma vez. Neste marasmo de mim vejo passar a vida. À procura de mim, mas em vão, subo a rua. Paro no quiosque. A fúria contida aumenta com a leitura das parangonas dos jornais e impele-me a continuar. Desvio-me da prostituta que insiste em me aliciar. Atravesso para o outro lado da rua. Um carro apita-me.
Acordo.
Acorda-me os mistérios de mim. Viajo para o meu parque da infância, regresso à fraga da lage, à carvalheira, aos estalidos do soalho, ao quadro do menino sempre triste, aqueço as mãos à lareira, estanco na cozinha fuliginosa, esfrego os olhos ardentes pelo fumo e pelas noites sem dormir. Observo-os, procuro neles a existência deste abutre de mim mesmo que me devora as entranhas sem razão aparente. Ah!, se eu pudesse libertar-me deste peso que é sentir. Abdicaria de tudo para o conseguir. Felizes aqueles que se deleitam com telenovelas.
Abstraído dou comigo no Bolhão. Regresso ao caminho nunca caminhado.
Enfim... Sossego.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Racionalizar-me

O que há de mais reles em mim é esta incerteza de tudo. Esta hiperactividade sensitiva que me leva a tentar encontrar justificações para tudo. Esta coisa de racionalizar o mundo permanentemente coloca-me em permanentes hesitações. Nesta busca de equilíbrio interior, ou justiça, não sei bem, torna-me inseguro e só a custo ultrapasso. A todas as horas duvido de mim, dos sentidos, das sensações... Interrogo-me do porquê de tudo isto, de onde me vêem estes sentimentos ambíguos, que reminiscências são estas, se é que são reminiscências?! Não são inatos, creio nisto veementemente, não nasceram comigo, construi-os e eles construiram-me, esta é das poucas certezas que tenho. Conheço-lhe todas as peças, são andaimes de mim, neles subo e caio, neles tropeço e ando, neles me detenho e atravesso.