quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Insomnia

Tenho vozes de mim na cabeça. Rio-me de mim, desta figura anacrónica à procura da razão, à cata das palavras que exprimam a causa desta insónia. De olhos roídos, vejo nascer e morrer o cursor numa sequência enfadonha, e nada me traz. Nem as palavras nem o sono de que preciso. Parado no tempo, fixo-o de olhos esbugalhados, confiante que acabará por me entorpecer, que me embriagará, e ele, ritmicamente, continua vazio, sem nada me sugerir. Mesmo assim, sigo-lhe o ritmo, vou atrás dele, trauteio-o, sigo-lhe as pisadas esperançado que este metrómono me traga ritmos, ritmos de um outro tempo, de um outro sentir.
Ele nesta itermitência da morte, eu nas intermitências da vida, entre a vigília e o sono, entre o tédio e o enfado continuo a contabilizar doentiamente o número de pestanejos, sempre em ciclos repetitivos.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Placebo



(...)

It takes the pain away
But could not make you stay
it's way too broke to fix
no glue, no bag of tricks

Lay me down, the lie will unfurl
lay me down to crawl.

(...)

O castelo

É, talvez, a insegurança que faz de mim castelo. As dúvidas permantes encarceram-me em mim próprio. Não sinto esse isolamento como castelo inexpugnável, de bojudos baluartes e altaneiras muralhas, a não permitir que entrada a ninguém, não, não me parece! É, provavelmente, antes a minha cota de malha deste sentir rebelde, a armadura de defesa de pensamentos contraditórios, arnês das minhas cépticas e desiluções anímicas, dos meus delírios emocionais descrentes.
Seja com for, vejo-me como um castelo, um castelo onde me refugio nas insónias monumentais, local onde habitam os sonhos sempre sonhados. Por vezes, quando me encontro nesta oca fortificação de frias recordações, já em horas tardias, envolto em silêncios ruidosos, subo à torre de menagem, onde sou rei e senhor, levanto a ponte levadiça e deixo entrar a luz. Sonho! Nesse limbo de inconsciência cônscia, entre sonhos e devaneios, ecoam palavras estranhas e certeiras.
Enreda-se-me o pensamento, fere-me a vista, com tanta nitidez.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Ausências

Tudo me é intenso. Sou feito de sons inatingíveis, de olhares com inocência infantil, de sentimentos abissais que reconheço como sedimentos de um sentir agudo de insatisfação, exteriormente sossegada. Todas as emoções que sinto, sinto-as como paradoxais buracos negros que devoram tudo o que aproxima delas, que me impedem de pensar, e que interpreto como catacumbas de medos nunca resolvidos, prisões de um tempo que já não consigo atingir.
Estes exílios internos, que tento captar e a que me obrigo, não passam de placebos desta doença psicótica que alimento sem querer.