domingo, 26 de fevereiro de 2012

Acordar


Hoje, como sempre, acordei cedo. Ao abrir a janela recebo a notícia da presença de uma luz baça que esbranquiçava os montes do Suzão. Fito-a durante breves momentos e depressa se esvanece. Depressa entendo que o Sol não tardará a brilhar e que a temperatura se recomendará. Erradamente, elevo o olhar à procura de lhe captar esse sentir metafísico, de encontrar nela, na luz, a explicação desta temperatura interna, dir-se-ia morna, que tomou conta de mim. Procurei fora de mim essa comunhão existêncil com o mundo e não a encontrei, obviamente não a encontrei porque ela existe dentro e não fora de mim.
Fecho a janela e regresso. Navego calmamente, avanço por um mar de sentimentos e encontro-a em uma antecâmara inexistente da minha existência. Encontro-a no silêncio da minha timidez, neste caminhar sozinho a roçar a incompetência social, encontro-a nestas palavras simples onde me exponho e tento compreender-me.

Stacey Kent

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Indiferença

Sinto-me indiferente perante as realidade externa que teima em me integrar. Por forças que não entendo fecho-lhe, cada vez mais, as portas. Não quero vive-la, quero ser verdadeiramente eu, sentir as minhas sensações, só esta minha verdade me interessa, por estranha que seja.
Não quero viajar, nem ver falsas paisagens, quero antes viajar em mim, descobri-las nos meus recantos, por escuros que sejam. Não quero ver através dos olhos, prefiro ver através da alma, como os poetas. Não quero ouvir os sons, quero sentir a sua sublime símbologia, como os músicos. Não quero sentir o vento na face, quero descobrir-lhe os segredos que transporta. Não quero que indiquem o caminho, quero ser eu a desvendá-lo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Dia de Sol

O beco onde hoje vivo encheu-se de luz. Hoje, nenhum dos meus “eus” estagnou perante as sombras, nem perante as nuvens negras que, por vezes, pairam sobre eles. A luz alada que cobria os telhados, que aveludava as pedras da calçada, retiraram das sombras os meus recantos sórdidos. Hoje abri as janelas de par em par. Os reposteiros bafientos, cobertos de pó, foram afastados e deixaram de filtrar a luz. As minhas acanhadas divisões sairam da penumbra acre e refletiram em mim uma consciência que há muito não experimentava. Uma alegria repleta de calma suave desceu em mim. Um vago sopro de uma brisa primaveril trouxe-me outro sentir.
Hoje vi as casas e os bancos de jardim com olhos de criança.