domingo, 11 de março de 2012

Apesar do dia

Apesar do dia lindo nenhuma dessa beleza se reflete em mim. De tudo o que está lá fora nada me interessa. Prefiro, de longe, continuar a tecer mortalhas negras de mim, prefiro continuar a envolver-me nas exéquias de um enterro há muito anunciado. Há neste lado negro de mim uma atração visceral pelo abismo, reconheço-a do ponto de vista antropológico, sei de onde vem, mas desconheço a minha.
Estou em queda livre e gosto de estar, há nela, nessa atração, uma linearidade tão bela, tão transparente, que não consigo esquivar-
-me. Sinto-a simples, sem avessos, sem faces nem perspectivas mas há algo externo que me impede de alcançar essa verdade que me é próxima e paradoxalmente distante. Que mistérios são estes que me limitam? Que sombras são estas que me possuem,que me levam à inação, que me mantêm abatido, sonolento, a fazer contas, a errar entre a vida e a morte?

Gregorians

sábado, 10 de março de 2012

A materialização da alma

Durante muito tempo estive desmaiado, ou até em coma. Foi como se não existisse, como se tivesse perdido a alma. No regresso, ao erguer-me, deparo-me prensado no absurdo de dois mundos. Ambos me surgem definidos com uma indefinição que procuro entrever e descobrir no torpor de mim. Estudo-os na espiritualidade humana, na simbologia das coisas, nas névoas de um devir, na mecânica abismal do universo, e não a encontro. Só a literalidade das palavras me entreabrem a fresta de um sentir que me preenche. Nelas, finalmente, parece que reencontro a alma que procuro. Às vezes, parece-me tudo tão imaterial e tão concreto que quase lhe sinto peso e a massa, quase me atrevo a localizá-la em mim.
Às vezes, e porque tudo me parece tão consistente, dou comigo em busca da fórmula física que materialize esta energia potencial que todos carregamos, que todos sentimos à flor da pele.

terça-feira, 6 de março de 2012

Dissolvo-me

Tudo me parece irreal. Se a realidade vem de mim, se sou eu que a construo, tudo não passa de mera ilusão, de mero sonho. E se assim concebo o mundo questiono-me: que diferença existe entre o mundo a que chamo real e o mundo dos sonhos? Não sei a resposta mas perturba-me tamanha dissolução. Perturbar-me não saber onde existo. Perturba-me não saber em que matriz acordo diariamente e em que matriz sonho. Que oscilar é este que todos os dias vivo, quando, verdadeiramente, não existem dois pratos nem nenhum eixo de apoio, que balancear é este quando tudo parece unificar-se em mim?
Estas considerações, evetualmente excêntricas, levam-me a pensar se realmente existo, se não passo de uma imagem, de substância estéril deste espaço temporal?