terça-feira, 20 de março de 2012

Embriagado de ilusões

Às vezes é-me tão difícil descrever o que sindo, a maranha da floresta tropical é de tal monta densa, que nem sei se tenho uma verdadeira identidade, uma individualidade própria. Fico com a perceção de que tudo aquilo que senti, ao longo de muito tempo, foi falso, fui uma adulterção de mim, esta é a minha verdade deste instante. Fico com a sensação de que as minhas emoções sempre foram comandadas, subordinadas a um mundo externo coerente que pensava existir. Os meus sentimentos sempre foram uma espécie de capacho, esteira de entrada de uma casa em derrocada, e que, sonolentamente, se deixaram embriagar pela solidez que desejava, pela segurança que verdadeiramente não existe e nunca senti. Hoje, e porque vi a verdade, vêm-me à memória a ubiquidade das palavras em parada e de gabinetes, para não lhe chamar outro nome, inflamadas por gestos e dragonas eloquentes. Hoje, em mim, há um prenúncio de morte e um desejo de vida. Hoje vi as verdadeiras aves do paraíso terráqueo, vi aves fascinadas de plumas deslumbrantes e eu sinto-me porco.
Vou tomar banho.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A minha moura encantada

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Creio que, pela primeira vez, descobri que nunca fui talhado para a realidade. Pela primeira vez na minha vida tive a noção que era no mundo dos sonhos que desejava viver. Queria misturar as coisas concretas e abstratas, queria misturar os sons e as cores, queria viver mais em mim do que fora de mim. Tive a perceção clara que preferiria viver essa duplicidade existencial, repleta de canais de irrigação que me mantêm vivo, que me fazem sentir, do que viver uma vida amorfa, falida, a pintar coloridamente o marasmo, a entardecer lentamente sem sonhar.
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In: Quadros da Transmontaneidade

Apresentação: aqui.

Convite - Quadros da Transmontaneidade

domingo, 18 de março de 2012

Fugas

Esta descoberta de mim, este caminho marítimo em direcção ao oriente que venho cultivando neste blogue, e não só, está-me transformando. Quando iniciei estas sondagens, quando comecei a picar o caminho minado deste meu mundo interior, confessei para mim próprio que este processo terminaria quando estivesse em carne viva, e que, nesse futuro, este espaço terminaria com um livro, se possível.
Não me parece que já esteja nesta fase, penso que há muita escuridão para explorar, muitas contradições por esclarecer. Não creio, portanto, que esteja nessa fase, sinto que há ainda muitas revelações por fazer, muitos tédios para esclarecer mas as diferenças sentidas são cada vez mais acentuadas.
As emoções e os sentimentos são-me cada vez mais fortes e cada vez mais insuportáveis de viver. Já não sou o mesmo, a hipersensibilidade adquirida ao longo deste processo, torna-me interiormente mais rico mas exteriormente mais pobre. Os olhos rasam-se-me de água com memórias, arrepio-me com o meu imaginário, é-me cada vez mais difícil suportar conversas banais, venham elas de onde vierem. Telenovelas sejam elas televisivas ou profissionais incomodam-me. Cada vez mais admiro os ascetas. Estou a ficar insuportável para mim e para os outros.
Apetece-me sair definitivamente do mundo externo. Apetece-me cada vez mais ficar cego surdo e mudo e viver simplesmente a minha realidade.