quarta-feira, 28 de março de 2012

Noite

Gosto da noite! Não da noite das cidades, dos néons, dos locais apinhados de gente. Gosto de entrar pela noite dentro, sozinho, de me escutar nos pianos de mim, nos solos de guitarra violentamente eletrizante, mil vezes repetidos, e conseguir detetar a força das palavras apenas pela melodia. Encontro nesta trindade tricéfala ilusória, e eu incluído, uma carruagem de viagens viciante, um sistema integrado de coerência e analogias no qual me integro e desintegro com facilidade. Tudo se me unifica nesta minha ciência de sonhos abstrativa e volátil. Nela, nesta Unidade de sentimentos, por momentos compreendo-me, por instantes reconheço a minha inexistência e nela trato esta vesânia que me afeta e me molda disformemente.
É nesta fluidez rítmica que consigo pensar, é nesta ilusão, sempre fingida, das palavras que consigo dizer, é neste sangue espiritual que consigo existir e encontrar razão para a arte, sinónimo de sensibilidade humana.

terça-feira, 27 de março de 2012

segunda-feira, 26 de março de 2012

Renuncio-me!

Quantas coisas as palavras nos sugerem? Quantos sentimentos nos confidenciam? Ah! se eu conseguisse captar todas essas essências em mim. Se conseguisse materializar tudo isso num só instante. Suplico um breve instante, basta-me um breve relâmpago, nada mais peço que um segundo de lucidez.
Ah!, que incapacidade nefasta que me agarra a esta corporalidade obscura que só me ofusca. Que coisa horrível e visceral é esta que me impede de ascender ao sublime, que me impede de ver beleza das rosas de não dos espinhos.
Que grosseria é esta que me impede de agarrar aquilo que perdi, aquilo que fui e deixei de ser.
Proclamo-me inepto, não me quero, renuncio-me!

domingo, 25 de março de 2012

Varro-me

Varro-me a mim próprio. Sentado sobre mim mesmo, varro-me em silêncio, mondo-me, arranco todo o musgo que, ao longo dos anos, me cobriu. São simples, muito simples, singelos líquens que que nascem e morrem ao sabor das estações anuais, mas terrivelmente complexos. Tudo devoram, nada os impede de serem eles, oprimem, criam raízes e depois ganham vida própria. Não passam de antropófagos da exteriorização de sentimentos.
Já desnudo, olho-me ao espelho. Fito-me, olho-me nos olhos e num esgar de repulsa, afasto-os. Afasto esta minha futilidade, que outros reconhecem, arranco este sentir implantado pelo ADN, odeio sem ódio tudo e todos, odeio-me por me ter construído assim. Não me viro as costas, mantenho-me firme e não afasto o olhar. Continuo a busca. Busco em detalhe, vou aos ínfimos pormenores de mim e procuro coerência na minha razão e nas emoções. Não encontro contradições, só a minha interioridade e exterioridade conflituam.
Alegro-me sem alegria.