quinta-feira, 12 de abril de 2012

Alquimia do sono

Hoje desci da montanha e venho encontrar-me num vale ameno, verdejante, inexistente. Sem querer deixo-me escorregar em mim, bato à porta deste hóspede austero, passo pelas dobras do coração e deixo fluir o sangue numa torrente calma, de sentires primaveris. As pupilas dilatam-se-me e as cores capto-as em formas de sons, os sons transformam-se em pétalas musicais aveludadas. Pressiono as teclas e emergem palavras de paladares embaladores e suaves que tacteio ao delével. Nas melodiosas ondas musicais, que agora ouço, evolam-se licorosos vapores que as narinas não captam e as palavras não exprimem, por mais que tente e as repise.
Hoje desci à alquimia do sono, estalajadeiro de sonhos, ao lugar dos luares trigueiros, das cordas de cravos beliscadas, ondas vibratórias de pianos, deléveis cócegas cerebrais, arrepiantes, de penas de ave, devaneio de sensações e emoções que só o sonho admite. Neste almofariz anárquico de mim mesmo, tudo misturo. Nele, nada se perde, tudo se transforma.
Hoje desci ao vale dos sonhos, força humana capaz de iludir os sentidos.

Gustavo Santaolalla

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O enigma da esfinge

- Desvendas-me ou devoro-te?
E não se desvendou. Foi devorado. Incapaz de se desconstruir, incapaz de peregrinar no seu interior, de desvendar as suas quimeras, foi devoradao pela esfinge. Agora, jaz aos seus pés, sem nunca conseguir misturar a infância, o tempo, sem nunca ter sido sobressaltado consigo mesmo, pelos seus tédios, sem nunca se ter devorado a ele próprio.
Morreu numa contemplação permanente das vidas alheias, na monotonia de si mesmo, na constância das horas sem insistências metafísicas, morreu sem nunca se ver ao espelho em esgares de libertação. Viveu numa felicidade indefinida, uma felicidade de abstenção, viveu na vã glória de se deixar arrastar pelo destino.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Movimento perpétuo da vida

Finco as mãos nas têmporas, aperto, esmago este sentir que me mantém morto. Procuro-me, vou-me mas não me deixo ir nesta roda zodíacal onde me agacho. Não sei quem sou, mas sei que nada se repete. Não sei quem sou, mas sei que já não sou aquilo que fui ontem, sei que amanhã não serei quem sou hoje e isso basta-me. Basta-me para continuar esta busca perpétua, basta-me para me decidir, para me deixar fluir nesta ilusão de sentimentos e emoções que se enredam num círculo de muitos tempos, de muitas dimensões, que me envolvem e onde conscientemente me envolvo.
Não me decidem, decido-me. Não espero nada da vida, mas agarro-
-a, agarro-me a este quinhão de sentires que me deram, e nada mais quero.
Não me abstenho de agir, é-me contranatura, eu sei, mas entro nela com outras formas que também brotam de mim, entro nela com outras ilusões, às vezes bizarras, absurdas, às vezes medíocres, mas organicamente exteriorizo-me, influencio e influecio-me, impeço o suicídio.