terça-feira, 24 de abril de 2012

Chuva de letras

Esta garatuja de mim, hoje, surge-me como uma chuva de letras. Começa por se desenhar como uma nuvem lá ao fundo, normalmente uma cor negra, difusa, multiforme. O vento sempre de caras para mim empurra-a e ela vai-se adensando, pouco a pouco. Chegam-me cheiros, cores, vestígios de solidão, sentimentos, evocações, memórias e, finalmente, descarrega. Só quando está muito próxima da consciência adquire forma. Só aí se liberta do peso das gotas, já densas, que ao longo do caminho se foram agrupando por afinidade aleatória, pelo menos assim o considero. Quando descarrega acontece tempestuosamente, quase sempre de forma diluviana. Palavra puxa palavra, ideia puxa ideia, tudo se condensa, o silêncio torna-se mais profundo, os tiques, que já conheço, intensificam-se, tudo se atrai pela força gravitacional e, por fim, produzem-se imagens repentinas, como um relâmpago (algumas são férteis, reconheço) e que acabo por captar, com dificuldade, com esta tinta inútil.

domingo, 22 de abril de 2012

O fabuloso destino de Amélie

Caminhos

Outrora os meus domínios literários estendiam-se por montes e vales. Neles via refletido o Sol, voava acima deles, deixava-me enlevar pelo verde intenso, pelo arvoredo, pelas fontes e ribeiros.
Hoje, confesso, que os meus domínios são mais estreitos, não vão além de quatro paredes, mas paradoxalemente mais largos. Hoje, seduzem-me os raciocínios ilógicos e enganosos que consigo ver através da mente. Cada vez mais sinto necessidade de me afastar do real, de viver a minha vida interior intensamente e encontrar nela inspiração para continuar.
Os perigos aumentam, sei bem que sim, há pedregulhos que caiem do céu, portas que se arrombam, descubro sombras que me perseguem diariamente, princípios que se desmoronam, mas é por aí que vou. Não quero mais classificar o mundo, o mundo é o que é, prefiro passear-me no meu caótico e desordenado subconsciente, enterrar-me na lama do inconsciente, sujeitar-me a tempestades existênciais, tropeçar, cair, levantar-me...
Prefiro viver neste meu bairro de lata que construo e desconstruo continuamente;
Prefiro o exílio do sentir à liberdade do ver;
Prefiro o silêncio de mim aos diálogos silenciosos.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Eu e os outros

Confesso que tenho por hábito, quando caminho sózinho, sentir quem passa. Ver para lá da pele bem tratada das figuras femininas, dos olhares sensuais de namorados, ir além da T-shirt preta do jovem que se cruza comigo, compreender as rugas do idoso que vejo no comboio. Confesso que procuro ver outras camadas, outras cores, outros sentires que não o meu, e que sei estar em desuso. Faço jogos com vidas quotidianas, coloco-as em paisagens que só existem em mim, faço dos outros canais de irrigação deste meu inverno árido e rude. Consigo facilmente pressentir amores, ver descrenças, conveniências sociais, felicidades irritantes...
O mundo é aquilo que sou, vejo-o e vejo os outros através de mim, projeto-me neles. Se isto é verdadeiro o inverso também o é. Eu sou uma visão do “outro”. Conhecem-me verdadeiramente? Não! Querem conhecer-me verdadeiramente? Não! Aguentarão com tal imagem? Não! E ainda bem! Só desta forma nos suportamos. Suportamo-nos porque não nos conhecemos, e não sou apenas eu a dizê-lo.Vemos apenas a camada superficial do “outro”, a primeira máscara que nos cobre. Eu sei que não vou além das simpatias ou antipatias que possa despertar. Eu sei que não passo da imagem de um corpo e uma face, elementos básicos desta realidade. Perante os outros, sei que não passo de uma personalidade vaga e irreal, provavelmente incómoda.
Há um paradoxo em tudo isto. Quando procuro conhecer-me a mim mesmo, para querer conhecer os outros, não consigo ver-me. E não falo dessa incapacidade humana de não ver a sua propria cara, falo desta minha inabilidade de não saber quem sou. Ora me vejo, ora me não vejo, ora retiro, ora coloco a máscara, sempre a acreditar que aquela figura que vejo ao espelho é a minha verdade. Vejo-me? A dúvida instala-se-me! Estudo-me. Detecto ironia nos lábios, ilusões no olhar, sou povoado por um mar de sentimentos, vagueio entre deuses e demónios que existem em mim, que existem em nós, mas sei que não passo de uma impressão geral de um rascunho inacabado.