segunda-feira, 7 de maio de 2012

Alice Cooper

Descida ao meu inferno

Convivo mal comigo, não com os outros. Este conhecimento infinitamentamente pequeno que se encerra e mim, fecha-me nesta prisão de descrença no que vejo e sinto. Corre-me nas veias, é-me impossível fugir a estas catacumbas desta minha frieza também humana. Esta amargura de mendigo leva-me de sentir em sentir, de sonho em sonho, de pensamento em pensamento, à procura de um abrigo, em busca de manhãs vestidas de memórias de outras vidas que abstratamente vivo.
Já nem falo. Há tédio nas palavras que digo e oiço. Abrem-me janelas para a terrível porta dos sonhos, para o tenebroso mundo das fadas do lar, para o ardente mundo cor-de-rosa cheio de vulgaridades misteriosas que não entendo.
Encerro-me! Tranco-me neste universo de sóis apagados por forças iníquas que existem em mim, não nos outros. Fujo! Fujo de mim e dos outros pelo silêncio da acústica dos sons que me abrem fenestras para clarões de inocência ignota.
Enquanto espero pelo sol esquivo-me para o mundo ardente das emoções.

sábado, 5 de maio de 2012

Oração à morte

Salvé, imaculada e incompreendida inexistência que hoje chegas até mim.
Sei de onde vens mas não sei onde estás. Eu já existi em ti, já me aconcheguei no teu útero, mas não te conheço. Conheço-te de um tempo desconhecido, do tempo em que não fui e ao qual brevemente voltarei.
Tu, aconchegante frialdade, existes serenamente nesta renúncia de mim. Tu és o meu lado obscuro, aquele que não tem luz mas que ilumina. És o desejo profundo, e são, de me olvidar de tudo, a dimensão real que não conhece formas nem emoções desta minha ilusão. Tu, sentinela negra desta minha consciência jamais te negarei.
Sei que te desejo mas não te quero. Não quero essa brandura do não sentir, prefiro ignorar-te, saber que não me olvidas, saber que nada sou a saber que nada sinto.
Prefiro contar a não me lembrar.
Prefiro a finitude do desassossego à eternidade do sossego.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Novamente a insustentável leveza do ser

Fora de mim há vida. A noite envolve-se numa serenidade premonitória e aconchega-se numa atmosfera branda e verdejante. Cobre-se com luxúriosas mantas de giestas e pinheiros, aquece-se à lareira de Morfeu.
Em mim, neste crepúsculo permanente, neste lusco-fusco que me impede de ver com claridade, há morte. Em mim sinto nascerem árvores sem fruto, folhas outoniças, amarelentas, flores sem pétalas. O meu ser aconchega-se nas chamas do sentir doentio, encosta a cabeça ao travesseiro do sonho e espera que os carvalhos predizentes lhe dêem respostas. Aguarda que este sangue frio, este pressentir o envenene definitivamente e o leve deste plano, espera neste palco do absurdo a inatingível compreensão das coisas que nada valem.
Assim, como quem Espera por Godot, este meu “eu” malsão vai envelhecendo em busca do “nada”, acorrentando-se ao manicómio da existência, gastando-se nesta insustentável leveza do ser até à libertação final.