terça-feira, 22 de maio de 2012

Ser-se...

Ser-se é estar só. Abdicar. Abdicar do mundo exterior, repousar no remanso patoril do silêncio e viajar pela serenidade incompreensível que um fim de tarde nos trasmite. Existir é sentir! Repousar à sombra de nós, madrugar, sonhar, arrancar os jardins botânicos, sempre alinhados, que cresceram pelas palavras ocas, pela voz, pelo olhar, pela vaidade mundana, e deixarmo-nos levar pela frescura dos riachos selvagens ou morrer no calor abrasador de um deserto inexplorado.
Ser-se é deixar passar horas do dia a escutar o barulho da incompreensão do inexplicável, permitindo que o latejar desenfreado das emoções tome asas sem peias. Depois, já pela noite dentro, é pernoitar na moita das sistematizações, a construir e reconstruir o universo continuamente, ou, então, deixar-se embalar nos claustros da inutilidade dos pensamentos e adormecer acordado.

Iron Maiden

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Deixem-me...

As piores horas são as da noite, estimula-me a alma. A noite carrega com ela um certo fluido de contradições e certezas que me angustiam, me magoam e me levam ao desespero. A noite obriga-me sempre a olhar para mim como se apenas eu existisse. Na noite há apenas esperança na inquietude e na descrença que, habitualmente, perdura até madrugada. É um lobo faminto que me devora, devora-
-me o conhecido e deixa-me apenas o esqueleto de mim, deixa-me entregue ao desconhecido, à finitude do tempo, aos males que me apertam as goelas, aos tumores que crescem em mim sem dor. Leve o diabo a noite e a vida, dispenso ambas.
Dispenso tudo. Quero desistir, não quero mais sentir, amputem-me os nervos, anestesiem-me, quero partir sózinho, caminhar, seguir o cabo das tormentas, quero alhear-me, quero ser ignorado, não quero escutar ninguém... Não peço compaixão, apenas que compreendam este sentir amargo que não me larga e me corrói. Deixem-me! Deixem de me cochichar, de me olhar como louco.
Já não sou eu, eu sei, sou reles, desprezível, repugnante, torpe... tal como vós, mas não me perguntem nada, não me perguntem o que tenho. Não tenho nada, não sei explicar-me.
Quero apenas respirar!
Deixem-me...
Por favor, deixem-me...

domingo, 20 de maio de 2012

Cenotáfio

Às vezes, nos papéis amarelentos que guardo religiosamento, descubro coisas escritas num outro tempo. Poemas, pensamentos, cartas que nunca enviei a ninguém e que guardo na mísera bagagem da minha materialidade.
Relei-os sempre, não sei porquê, acho que procuro neles reencontros de mim, códigos postais de outras existências, direções há muito tempo apartadas desta minha busca, que já sinto em carne viva. Neles descubro indícios de levantamentos populares dos meus sentires autistas, manifestações proíbidas que não me atrevo o contar, motins de mim próprio que sempre foram reprimidos. Nunca ninguém os lerá, morrerão comigo, sepultá-los-ei. Enterrá-los-ei com as devidas exéquias ritualísticas, que não deixarei de cumprir.
Guardá-los-ei não sei até quando, talvez até sentir que já não são meus, até achar que já não são os meus alicerces, até achar que já não são os fios que me guiaram, ou me manobraram, não sei bem, durante muito tempo. Guardá-los-ei até achar que já não são a minha genealogia.
Nada valem! Não passam de constatações óbvias, são bárbaros, roupagens pré-históricas de mim, mas, mesmo assim, não deixam de ser pestanejares sobre e minha existência, não deixam de existir palavras, apesar de ocas, sem miolo, deste reino ao qual gosto de pertencer.
Não deixam de ser nevoeiros sombrios de uma existência que, apesar de tudo, foi feliz.