segunda-feira, 28 de maio de 2012

A mãe do desgosto

Lá fora está frio, vou para dentro. Subo a escada de mim, pressinto um novo ataque. Antecipo-me e adianto as palavras. Preparo o assalto à loucura da incompreensibilidade.
Salto da minha trincheira e corro na terra de ninguém. Desafio a vida, persigo a morte, tropeço no pecado original, caio, reparo que há muito estou na cova por mim escavada, dessubstancio-me, retiro o essêncial de mim e verifico que o sol não brilha.
Fico imóvel, oiço vozes dos mundos lá de fora: gritos de guerras angélicas, choros prepotentes de fome, todos eles uniformemente audíveis como se não houvesse distância nem espaço, como se o vazio da loucura imperasse. A cabeça estala, dou uivos na eternidade, pontapeio o absoluto, abençoo o relativo.
Franqueio as portas do asilo e entro nele. Choro lágrimas de riso que não tenho.
A simplicidade da vida, feita complexa, pesa-me.

Eric Clapton

domingo, 27 de maio de 2012

Novamente o barqueiro do Hades

- Conseguiste chegar à outra margem, excelso Caronte?
- Eu não! Continuo atado a esta massa corporal. Mantenho este ofício de talhante, continuo a esquartejar-me em pedaços, sentado, estático. Continuo a arrepiar-me com os frios que nascem nas palavras que procuro, nos posters fora de moda que perduram nas paredes e me recordam um outro eu, continuo a minha busca nos livros que leio, ilustre barqueiro.
Leva-me! Não possuo óbulo para pagamento, eu sei, pagarte-ei na mesma. Serei o teu homem do leme, o meu último sopro de vida será o vento que guiará a tua magnífica carga à outra margem, a minha pele será a vela latina que suportará os ventos mais fortes, dos meus nervos construirás enxárcias, com o meu esqueleto repararás o cavername da tua velha barcaça.
Leva-me...

sábado, 26 de maio de 2012

Hoje quero sensações

Embrulhados no meu silêncio chegam-me sons regulares de vida lá fora que, por momentos, me diluem o som do mantra musical que agora oiço. Pesa-me este frenesim exterior que por indução parassimpática me leva igualmente em movimentos abstratos de mim. Dói-me esta interioridade, este mundo falso que em mim vegeta.
Fujo do silêncio e vou a correr à janela para regressar quase de imediato.
O silêncio rítmico, entorpecedor, dos sons mantém-se e induzem-me por canais de abandono de outro tempo, levam-me por sentires de desolação por aquilo que não sou, encaminham-me para os sons místicos de Shiva viventes em mim.
Evaporo-me, metamorfoseio-me, afundo-me no oceano das palavras à procura daquilo que sinto e o fracasso é óbvio. Torna-se-me evidente que é impossível traduzir em palavras a imaterialidade das sensações da alma humana.