quarta-feira, 30 de maio de 2012

Às avessas

Sou o avesso do mundo. Ele todos os dias se revela eu sonho com a revelação. Nele há sabedoria em mim ignorância, nele há certezas eu só tenho dúvidas... Ele nada exige, transforma-se, cria, adapta-se, eu desejo o impossível, dele brotam fontes de mim insatisfação insatisfeita. Nele os dias sucedem às noites, em mim sucedem-se as incoerências metafísicas incompreensíveis.
Ele tem forma, eu sou uma estrada poeirenta e informe de memórias;
Ele faz sentido, eu não;
Ele é mensurável, eu insubsistente;
Ele não tem medo da Noite, eu tenho;
Ele tem História, eu sou o esquecimento;
Ele não sente, eu sinto;
Ele amanhã existe, eu sou um epitáfio da inexistência;
Ele nasceu, eu caí na morte.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Há pressa em mim

Há pressa em mim. Os dias brandos e calmos são uma ficção, um engano de mim, um prozac. Em mim o tempo corre depressa, esvai-
-se na metamorfose constante daquilo que nunca fui, na resignação do desassossego que nunca terei, escoa-se vertiginosamente nos incontáveis sentires do ponteiro dos segundos, nos pensamentos não pensados, nas palavras que ficaram por dizer, na consciência daquilo que não sei.
Em mim o tempo embarca constantemente nas lendas do sonho, navega num navio à deriva, sem leme nem âncora. Flutua sózinho, guia-se pelas nuvens e as estrelas, sem terra à vista, com um timoneiro falhado, incapaz de alcançar o horizonte perdido.
Tenho pressa ingénita em mim. Os dias calmos são um fingimento da minha inexistência, a abstração da minha razão, são a mudez do amanhã.
Em mim o tempo adormece logo acima da minha cabeça, vive na prateleira dos livros que sei não conseguir ler, apesar de os ter comprado.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

A mãe do desgosto

Lá fora está frio, vou para dentro. Subo a escada de mim, pressinto um novo ataque. Antecipo-me e adianto as palavras. Preparo o assalto à loucura da incompreensibilidade.
Salto da minha trincheira e corro na terra de ninguém. Desafio a vida, persigo a morte, tropeço no pecado original, caio, reparo que há muito estou na cova por mim escavada, dessubstancio-me, retiro o essêncial de mim e verifico que o sol não brilha.
Fico imóvel, oiço vozes dos mundos lá de fora: gritos de guerras angélicas, choros prepotentes de fome, todos eles uniformemente audíveis como se não houvesse distância nem espaço, como se o vazio da loucura imperasse. A cabeça estala, dou uivos na eternidade, pontapeio o absoluto, abençoo o relativo.
Franqueio as portas do asilo e entro nele. Choro lágrimas de riso que não tenho.
A simplicidade da vida, feita complexa, pesa-me.

Eric Clapton