quinta-feira, 7 de junho de 2012

Tempo cinzento


Morre a vida lá fora, crescem-me sentires absurdos na alma. Cresce em mim este descampado, esta forma plaina de existir, sem nada para contar mas com vontade de dizer. Em boa verdade, de dizer nada, de monologar sem razão, de viajar sem destino neste comboio silencioso, sem substância, sacudido violentamente pela incompreensão de universos não revelados, vencido pelo tédio da folha branca em que escrevo, pela busca das palavras que tento poupar, pelo medo da vulgaridade, pelas vésperas do nada.
Adeus! Adeus alma, adeus rio das coisas, adeus saudade indesejada, adeus leve trespasse de luar, adeus varandas, vou partir.
Ouço um apito estridente, um qualquer sussurro longínquo e embarco, embarco sem ânimo mas embarco logo pela manhã, na madrugada de mim, quero chegar antes da inocência. Continuarei fiel a mim mesmo, manter-me-ei estrangeiro a tudo, prometo.
Amanhã estarei longe, vou para o outrora de mim, para a feira das quinquilharias, dos vidrilhos reluzentes, perseguirei a minha sombra como cão raivoso, atravessarei passadeiras sem olhar para o lado, ouvirei pela enésima vez os sons imorredouros até conseguir descobrir a suas tonalidades impressivas que registarei na tela de mim.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Kadish

Oiço sorrisos nas chegadas e silêncios nas partidas. Ainda bem!
Gosto de flores sem cheiro. Ainda bem!
Gosto dos sussurros dos ribeiros! Ainda bem!
Alegram-me as flores de amêndoas cobertas. Ainda bem!
Só o princípio é explicável. Ainda bem!
A eternidade é o fim de todos os caminhos? Ainda bem!
Enlouqueci! As palavras salvam. Ainda bem!
As promessa são fúteis. Prometer é uma blasfémia. Ainda bem!
Agora, caminho sem eu. Ainda bem!
Gero vazios onde me perco. Ainda bem!
Sepulto-me vivo num tempo que não é meu. Ainda bem!
Memento sem memória, eu sou! Ainda bem!
Albufeira ressequida. Ainda bem!
Mar sem marés. Ainda bem!
Futuro sem horizonte. Ainda bem!
Incauto. Ainda bem!
Cisterna escura. Ainda bem!
Rumo ao esgotamento nervoso. Ainda bem!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Só!


Estou só! Aqueles de quem gosto afastam-se, como se sofresse de alguma doença contagiosa, as memórias evaporam-se, volatizam-se como éter, os sentimentos cansam-me, as mágoas avolumam-se, respostas ficam por dar... A minha consciência política desapareceu, reduzo o contacto social ao mínimo, excluo-me do mundo, sou cada vez mais ermo de mim, uma estátua solitária, não vou além de um gemer de portas a encerrarem-se constantemente.
Vivo na periferia do meu subúrbio bafiento mas finjo ser o centro. Finjo espontaneidade, alegria, paciência, amor, finjo “estar” quando em boa verdade navego constante em mim, finjo viver a vida como se ela tivesse sabores, mas perdi o paladar, não passo de um fingimento esmagado por não ser.
Apetece-me mudar de alma, apetece-me dizer tudo, errar pelas palavras, mesmo por aquelas que estou proibido de dizer. Regressar ao futuro, deixar de esconder a cara com as mãos, voltar à escola para novas aprendizagens, sem intervalos dolorosos em mim e muito menos nas estradas que teimo em percorrer em vão.
Estou só!
Resta-me o Céu onde não consigo chegar...

Matallica




(...)

Never opened myself this way
Life is ours, we live it our way
All these words I don't just say
and nothing else matters

(...)