domingo, 24 de junho de 2012

Nada


Velo a noite. Busco razões desta secura. Nenhuma emoção, nenhum sentimento atravessa a rua deserta. Do branco das paredes nada brota, as melodias são de outro espaço/tempo que não o de hoje, a luz do candeeiro não me aquece. Tudo me surge ermo e vácuo.
Sinto o cansaço físico aproximar-se, ardem-me os olhos, mas esta energia continua a sugar-me, a consumir-me, continua a apoderar-
-se-me das palavras, como por maldição. Esta força centrípeta continua a puxar-me para dentro e de mim nada nasce.
É o vazio, o nada, o absoluto nada.

Phil Collins



All of my life, I've been searching
For the words to say how I feel.
I'd spend my time thinking too much
And leave too little to say what I mean
I've tried to understand the best I can
All of my life.

All of my life, I've been saying sorry
For the things I know I should have done
All the things I could have said come back to me
Sometimes I wish that it had just begun
Seems I'm always that little too late
All of my life

(...)

sábado, 23 de junho de 2012

S. João


Escuto foguetes lá fora. Em mim explodem memórias de amanhã. Cultivo-as e alimento-me delas. Revisito-as neste licor que agora bebo e me aveluda o sonho de sentir.
Sinto a alegria de jardins embandeirados, de danças sensuais na televisão, e em mim nasce uma brisa de ar quente que me eleva como um balão de S. João.
Eleva-me neste erro descabido de querer captar tudo, de descrever o indescritível. Nessa insciência de mim percorro, como sempre e através deste método cientificamente meu, os meus corredores labirínticos, o alcatrão destas estradas vicinais que ainda me ligam ao mundo lá fora. Percorro-as sozinho, sei que ninguém me ensina a caminhar, sei que este caminho é solitário, docemente solitário.
Eleva-me na vã tentativa de ser dono deste percurso, senhor de mim mesmo, de encontrar a beleza na escuridão.
Eleva-me na esperança de que neste último trago se revelem sorrisos das idiossincrasias que me revestem.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Narro-me


Explode-me a cabeça.
Narro-me porque me dizem que para aprender basta ouvir-me com atenção. Porque os livros que leio me dizem que para conhecer basta ouvir a ausência de sons. Abstrair-me, evocar o infinito e caminhar, sem medos, no meio das neblinas até chegar ao osso.
Ausências de sons tenho que me bastem, pontos de interrogação não me faltam, “ses” que redemoinham são mais que muitos, por isso narro-me. Narro-me até ficar de mente vazia, até que as palavras se esgotem, até que nada faça sentido.
Narro-me mas não sou quem me descrevo, este não existe. Este não passa de um afluente do outro, mero riacho, sem foz nem margens, que engrossa nas horas de tédio.