sábado, 7 de julho de 2012

Fingimentos

Às vezes, ao reler os textos anteriores, fico com a sensação que digo sem nada dizer. Reinvento-me a mim próprio nestas confidências, é como se fossem tentativas, repetidas, de descrever esta geografia interna e abstracta que em mim paira, a semelhar nevoeiro inverniço assente nos vales. É, sem dúvida, transformar a realidade a partir deste “eu” inexistente e, perante isto, hoje coloca-se-me a questão: que marcas ficam em mim? Que marcas ficam em quem as lê?
As marcas nos outros não me interessam, a pergunta é meramente retórica. As minhas sei quais são, mas também pouco importam. Transformam-me, viciam-me, elevam-se em mim e talham-me nos passos que dou. Aprendo, todos os dias, a caminhar com elas. Esculpem-me no isolamento.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Coisas


Voltaram as angústias do nada. A vagabundagem das Fúrias Tristes enveredaram novamente para este recanto. Sem pedirem autorização, regressaram às ruas e encostaram-se às esquinas desta casa rude e bafienta. Andam de quarto em quarto, atravessam os corredores, sentam-se e levantam-se... numa sequência de movimentos que a mim próprio me incomodam. Não sei o que procuram, provavelmente não encontram razões para se explicarem e, por isso mesmo, a mente, sempre irrequieta, continua, sem parar, numa sequência de pensamentos náufragos, de interrogações e interjeições indigestas. Dir-se-ia que navegam nas asas de um pensamento em movimento curvilíneo uniformemente acelerado. Acelera com a gravidade monótona de nada, desacelera, felizmente, na busca das palavras para se explicar a si próprio.
Monitorizo-o, controlo-o desta forma, ainda não encontrei outro mecanismo capaz de o agrilhoar no sótão, ou então, de o libertar num dia de vento e que o arraste para terras que fiquem para lá do sentir.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Transmutações


Toc, toc
posso entrar
pensamento tumular?
- Não! O Sol
estou a chamar.

Toc, toc
posso entrar
tempo de trovejar?
- Não! As nuvens
vou afastar.

Toc, toc
posso entrar
angústias de encapelar?
- Não! O mar
vou amainar.

quarta-feira, 4 de julho de 2012