sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O funil das palavras

Outrora gostava da noite. Nela encontrava o silêncio de que gosto e o alívio da objectividade diária. Nessas horas perscrutava-me e perscrutava o mundo. Refazia as intenções escondidas pelas palavras evitadas, tomava nota das atitudes, das causas e dos efeitos. Esse silêncio punha-me à mostra as frustrações das fragas, a alegria da inconsciência dos montes, a orgia da mentira.
Agora não preciso dela, tenho tudo isso sobre a secretária, nas milhentas palavras que todos os dias me vêm à retina. É como se a sua simbologia tivesse apenas um significado. É como se me afunilassem a mente, ou a mente as afunilasse, não sei bem. É como se convergissem para um ponto em vez de divergirem. Em vez de ampliarem campos, abrir outras portas, parecem fechar-me, levar-
-me para ideias vãs e frias. Todas têm sabor amargo e um cheiro a desilusão. Deixei de as dominar, agora são elas que me dominam. Levam-me, de onda em onda, para um mar de ignorância, de desilusão e ausências sempre incompletas.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A queda

Hoje caí na rua. Cabisbaixo, alheado das irregularidades do passeio, no fundo a absurdar-me, caí por terra. De nada me valeram os pensamentos que habitavam em mim. Do outro lado da rua foi gargalhada geral. Com cara de pateta, de quem não conhece a outra realidade, limpei as mãos e desandei. Chorei e ri também baixinho. Não pela dor, que foi leve, pela desilusão sentida, por ter acordado inesperadamente para o mundo externo que me faz tédio.
Decididamente, prefiro este quarto escuro recôndito, este castelo de altas ameias. Nele há também quedas, e grandes, nele há cacos e barulhos que me fazem rir, que me incomodam, mas são meus, vivem pacificamente na esquina desta rua deserta, na mesma medida em que sobrevivem os vizinhos da tasca defronte. Acabam por ser tolerantes uns com os outros, suportam-se nas suas ambiguidades. Românticos e neorrealistas, surrealistas e hiperrealistas caminham lado a lado, contradizem-se em todos os minutos mas coabitam sem incomodar ninguém. São como uma roda dentada. Encaixam-se uns nos outros e acabam por dar corda ao relógio do meu tempo.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Vazio

Hoje nada registo em mim. Encarrego-me de não viver, de não possuir emoções, consegui fechar as portas deste ermitério e nada sentir. Nem ódio nem amor, nem alegria nem tristeza. Tudo me é vácuo, nada me interessa. Como consegui chegar até aqui? Não sei. Sei-me apenas deserto. Tudo se esvai no esquecimento de mim, nas memórias de nada, na infinitamente pequenez do mundo, nas algemas da liberdade. Tudo desaparece no fumo do cigarro, nas sombras de mais um dia de névoas sebastiânicas, nas nuvens cinzentas de uma espera infinita pela primavera que teima em não existir.
Nada se me revela nas coisas, nem visíveis me parecem ser. Aboli barreiras, transpus as minhas utopias na esperança de encontrar volume na minha interioridade mas tudo permace dogmaticamente vazio. Hoje, pela primeira vez, nem o vazio sinto, encarrego-me de não o sentir.
Todo o mundo está em mim e eu, miraculosamente, não o sinto.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012