segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Se pelo menos...

Se pelo menos o vento passasse, talvez pudesse escutar;
Se pelo menos o dia chegasse, talvez o medo passasse;

Se pelo menos o sono chegasse, talvez pudesse sonhar;
Se pelo menos o sonho chegasse, talvez pudesse dormir;

Se pelo menos deixasse de pensar, talvez pudesse descansar;
Se pelo menos a loucura chegasse, talvez deixasse de pensar;

Se pelo menos as palavras se calassem, talvez pudesse parar;
Se pelo menos o silêncio falasse, talvez pudesse sentir;

Se pelo menos a Noite chegasse...

domingo, 19 de agosto de 2012

Nada possuo

Nada possuo. Talvez os meus sonhos os possa considerar meus. Mas até esses tenho algumas dúvidas. Até esses são consequências, causas e efeitos, ações e reações de formas de sentir os outros e o mundo.
Nada possuo. Talvez este eriçar de pele, este arrepio provocado pelos pensamentos que me assaltam, seja meu. Não, não é meu! São abalos do comboio em que viajo.
Nada possuo. Talvez os barulhos quotidianos, que hoje me incomodam, sejam meus. Não os barulhos mas o desprezo que sinto por eles. Talvez só este insustentável peso do nada, talvez só esta absurda confissão seja verdadeiramente minha. O resto é o mundo emoldurado por falsos vidrilhos, páginas ilustradas de um livro para crianças, o resto é o universo artificial suspenso no intervalo do tempo.

sábado, 18 de agosto de 2012

Moonspell



(...)

The day now ends and all within
A greater darkness covers everything
Is there no end for such a pain
Is there no hope, no other life, no way to know?

(...)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O funil das palavras

Outrora gostava da noite. Nela encontrava o silêncio de que gosto e o alívio da objectividade diária. Nessas horas perscrutava-me e perscrutava o mundo. Refazia as intenções escondidas pelas palavras evitadas, tomava nota das atitudes, das causas e dos efeitos. Esse silêncio punha-me à mostra as frustrações das fragas, a alegria da inconsciência dos montes, a orgia da mentira.
Agora não preciso dela, tenho tudo isso sobre a secretária, nas milhentas palavras que todos os dias me vêm à retina. É como se a sua simbologia tivesse apenas um significado. É como se me afunilassem a mente, ou a mente as afunilasse, não sei bem. É como se convergissem para um ponto em vez de divergirem. Em vez de ampliarem campos, abrir outras portas, parecem fechar-me, levar-
-me para ideias vãs e frias. Todas têm sabor amargo e um cheiro a desilusão. Deixei de as dominar, agora são elas que me dominam. Levam-me, de onda em onda, para um mar de ignorância, de desilusão e ausências sempre incompletas.