quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Escrever (Parte 1)

Escrever sem sentir o mundo é apenas descrever. Não me revejo na escrita meramente descritiva, por muito escorreita que seja do ponto de vista gramatical ou sintático. Escrever sem tentar colocar nas palavras a individualidade do mundo interior que todos nós possuímos, vivido de forma mais ou menos intensa, pouco mais é do que um ato de aprendizagem que se treina na leitura e no próprio ato de escrever.
Se há alguma beleza na literatura, essa beleza passa, no meu modesto critério, pela capacidade de reinventar o mundo que está à nossa volta, que todos nós vemos, mas que todos sentimos de forma diferente. Acredito que essa capacidade de reinventar o mundo não depende apenas do conhecimento científico que se possua. Não rejeito que esse conhecimento nos facilita a tarefa, mas, para além desse conhecimento científico, existe um outro muito mais humano, e que é também conhecimento, sem qualquer sombra de dúvida, e que passa pela tomada de consciência de nós e do mundo que nos rodeia e que, creio, pode existir no mais humilde dos seres humanos, mesmo que não possua vocabulário capaz para expressar o que vai no seu íntimo.

(Continua..)

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Envelhecer


Resolver esta minha inquietação, que mais parece genética, hoje, parece-me impossível. Envelheço nestas cavalgadas, nestas engrenagens de pensamentos imbricados uns nos outros, nestes raciocínios que creio fazerem sentido para tentar encontrar o valor de “x”, como se tudo fosse lógica matemática, sabendo bem que não é.
Envelheço à procura daquilo que fui e não fui, em busca daquilo que não sou e gostava de ter sido, sabendo que é impossível e não importa nada.
Envelheço neste verbalismo metafísico, crente que só ele me conduzirá à placidez do horizonte sem memória e que hoje não me enche de tédio. Envelheço a aproveitar o tempo, a olhar para mim, a esquecer o amanhã, a destapar a tampa que permanece sobre pressão diária, sabendo que esta pressão é, simplesmente, inerência da condição humana.
Envelheço a olhar permanentemente o calendário sem nunca fixar o dia, a olhar o relógio sem nunca querer saber as horas.
Envelheço à procura da razão sem nunca a querer ter, a ruminar ideias, a caminhar no descaminho do absurdo.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Abismo orgânico


Há dias em que tudo me parece alegre, hoje, e desconheço o motivo, a alma entranhou-se no corpo e parece não querer sair. Hoje, o abismo é gigeriano, parece ser muito mais orgânico que existencial. Descarregou no fígado, fixou-se no estômago e parece querer tomar de assalto todos os músculos. Pigmeu, medievo, são adjectivos que me servem neste momento. Hoje não penso nem sinto, desdenho. Desdenho da existência, da criatividade que me parece desconexa, desdenho do relógio que não pára, dos entreténs estéreis...

Patti Smith