domingo, 21 de outubro de 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Arquiteturas




É um condenado à deriva. Gosta de caminhar sozinho e rápido, provavelmente, na tentativa de se encontrar mas, por razões que desconhece, chega sempre atrasado. Verga-se aos medos acumulados, relaciona o passado sempre em silêncio, repisa a lava que dele brota mas as palavras saem-lhe sempre desconexas, maleáveis, sem a razão de ciência. Tudo lhe é estranho. Alegrias de sociabilidade, dispensa-as. Grinaldas de vaidade liberta-as no mar de confiança pelos outros, não nele. Nele, encurrala as nuvens silenciosas, os ventos tempestuosos, o sol de sentires...
Ele é um condenado às galés. Veleja entre o real e o irreal e não sabe distinguir a diferença. Desfralda as velas para escutar os sussurros de estátuas imortais, as cores, as formas, mas tudo são mistérios do horrível.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O arco-íris



Levantou-se e seguiu o caminho de ontem. Não via alternativas, nem bifurcações por onde caminhar. Tudo lhe surgia claro. O caminho de ontem é aquele que agora trilha. O caminho de hoje será o caminho de amanhã. Foi com esta verdade banal a encharcar-lhe a cabeça que chegou ao rio dos sonhos. Agarrou as estrelas, escutou as ninfas das águas, olhou o céu azul e viu o arco-íris reflectido nas árvores. Decide segui-lo. Andou, correu, subiu e desceu montes... crente que conseguiria tocá-lo. Cansado, descrente, exangue pelo esforço, parou.
Sentou-se no banco do pensamento e esperou que o tédio desaparecesse.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Visão sem alternativa



Descia da montanha. Sentou-se na encosta íngreme e olhou o além-
-de-si sem esperança. Percorreu o vale, perscrutou a encosta fronteira e procurou o sentido do rio. Seguiu-o com o olhar. Sentiu-
-lhe a força do momento e deixou-se ir no silêncio das estações. Navegou em torno da história, andou às voltas na memória e esgotou-se para tocar as extremidades. Tentou voar mas a frialdade que o percorria impedia-o de ascender nas asas das correntes quentes. Desistiu! O vento glacial que agora soprava e as risadas das promessas nunca cumpridas nebulavam-lhe a mente. Tanta gente! Tanta luz suave.