quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Consciência



A consciência do mistério das coisas chega a ofender e horrorizar. Esta ignorância de mim, a minha ignorância e a dos outros leva-me em viagens de pálidas sombras de ser. Apavora-me esta cadeia que liberta e oprime simultaneamente. Peregrino nela longas horas, movimento o tempo, fito-me e fito o olhar dos outros, ando a monte em busca de portas e encontro sempre arquétipos sagrados herdados, esperanças desarrumadas, sombras minhas e dos outros, sombras das sombras, sempre o mesmo sem-fim de razões que mal sei se existem.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Edelweiss



Hoje, o fluxo da mente vem-me da efemeridade dos sons, dos violinos, dos violoncelos... Vem-me das imagens de verde pacífico, da orografia dos montes onde nasce o arco-íris. Clarões de lua mandam-me lembranças de contos esquecidos, de sóis distantes, de sonhos vagabundos aveludados pela luz das montanhas.
Hoje, e sempre, o refluxo da mente vem-me da profundidade das ideias, do oceano de horas interrogativas, do vento frio que nasce nos píncaros da consciência, percorre as dobras do sentir e eleva o mundo a um estado catatónico, insano, repleto de mistérios.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Réplicas



Realidade ou sonho? Dúvida ou certeza? Não interessa! Não vão além de meras aproximações do talvez! Talvez é tudo quando se sonham visões e utopias e se querem vivê-las como verdades. Talvez tudo seja acordar com as ondas de um vulcão e adormecer nas réplicas do torpor do sentir. Talvez nada seja a inconsciência de ser e viver na analgesia da existência exterior. Talvez nada seja o infinito da noite. Talvez tudo seja desconhecer as dimensões da alma humana e querer mensurá-la.
Talvez nada seja ter certezas do nada.
Talvez tudo seja sentir aproximar o sono e não querer dormir.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Águas de um rio



As águas deste rio vazio engrossam com trovoadas da ilusão e metáforas. Volta a encher-se de tédios, enganos e verdades incompreensíveis. Enche-se de interstícios abismais que se adernam alternadamente num tempo que não existe. Que temores, que mal-
-estar é este, que é nada, mas que sufoca e a psicologia não teoriza? Quem se importa? Quem sabe?

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Quebrar os ontens



Hoje não quero olhar para trás, quero deixar as falsas ilusões e, amanhã, quero limpar as lágrimas secas que me encharcaram ontem.
Hoje, sem razão aparente, vejo uma luz no deserto de amanhã. Amanhã quero ser eu a fazer as regras, a quebrar os ontens que todos os dias são misteriosamente hoje. Quero virar a página, iniciar um novo ontem, mesmo na véspera de manhã. Amanhã quero partir, quero partir para longe de mim, não quero conhecer a realidade palpável de ontem nem entrar nas brumas reais do hoje.
Amanhã não quero pensar no ontem de hoje, nem no ontem de amanhã.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

OS ISIDROS – A epopeia de uma família de cristãos-novos de Torre de Moncorvo

A alma é também um abismo temporal e ainda bem. A minha é medieva, sei-o agora. Gosta de viajar nas dimensões do passado, de reconhecer as pessoas que existem nas páginas dos livros e captar-
-lhes a tristeza inenarrável sentida nas acusações mesquinhas e interesseiras feitas em nome de uma verdade insincera.
Gosta de se transformar nas suas vidas quotidianas, de as sentir percorrer as ruas que também percorre, de as olhar nos olhos e descortinar neles a força e a esperança para enfrentar os murmúrios acusatórios dos vizinhos e dos amigos. Gosta de conhecer a realidade prismática que foram obrigados a viver e que transformaram em defesa da sua verdade.
Sente que lhes pertence. Sente que tem dentro dela o verbo das orações, os sonhos inacabados antes de tempo, a calma de quem tem a consciência tranquila e nada tem que temer.
Este não é apenas um livro de pesquiza histórica, de perseguição e de intolerância. Ultrapassa a narrativa fria da ciência e vai-nos dando quadros de um quotidiano que nos ajuda a compreender as emoções, os sentimentos e as posições de quem não se verga e morre na fogueira, de quem não resiste à dor e é obrigado a renegar as crenças do amanhã.

Lançamento: Ver aqui.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Trilogia



Lágrimas secas, duras como a razão, brotam da confusão do pensamento, dos dias nunca vividos, das noites congeladas de infância.
Flores de ilusão vão nascendo entre calhaus arredondados pela aspereza das conclusões, pelos sorrisos incompreendidos, pelas duas faces de Janus.
Mentiras de alegria nascem de dentro para fora, tropeçam em soluços de tristeza, correm em trilhos cruéis só visíveis à luz da noite.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Estalactites




Precipita-se o carbonato de cálcio, o absurdo, substância terrível de todas as horas. Cresce a estalactite da existência, gota a gota, pingo a pingo, cresce a desilusão, cresce a fenda de tudo relacionar.
Não pares, continua a crescer para baixo fórmula primitiva de ter. Não pares, precipita-te até tocares o mundo, até romperes o véu do entendimento.
Cresce, cresce abismo de ser, espuma, perde-te, vence-te, cansa-te, quebra o equilíbrio gravítico de forças que se adensam e se embaraçam num tecto dormente, artificial, sem tempo nem sonho.

domingo, 21 de outubro de 2012

sábado, 20 de outubro de 2012

Arquiteturas




É um condenado à deriva. Gosta de caminhar sozinho e rápido, provavelmente, na tentativa de se encontrar mas, por razões que desconhece, chega sempre atrasado. Verga-se aos medos acumulados, relaciona o passado sempre em silêncio, repisa a lava que dele brota mas as palavras saem-lhe sempre desconexas, maleáveis, sem a razão de ciência. Tudo lhe é estranho. Alegrias de sociabilidade, dispensa-as. Grinaldas de vaidade liberta-as no mar de confiança pelos outros, não nele. Nele, encurrala as nuvens silenciosas, os ventos tempestuosos, o sol de sentires...
Ele é um condenado às galés. Veleja entre o real e o irreal e não sabe distinguir a diferença. Desfralda as velas para escutar os sussurros de estátuas imortais, as cores, as formas, mas tudo são mistérios do horrível.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

O arco-íris



Levantou-se e seguiu o caminho de ontem. Não via alternativas, nem bifurcações por onde caminhar. Tudo lhe surgia claro. O caminho de ontem é aquele que agora trilha. O caminho de hoje será o caminho de amanhã. Foi com esta verdade banal a encharcar-lhe a cabeça que chegou ao rio dos sonhos. Agarrou as estrelas, escutou as ninfas das águas, olhou o céu azul e viu o arco-íris reflectido nas árvores. Decide segui-lo. Andou, correu, subiu e desceu montes... crente que conseguiria tocá-lo. Cansado, descrente, exangue pelo esforço, parou.
Sentou-se no banco do pensamento e esperou que o tédio desaparecesse.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Visão sem alternativa



Descia da montanha. Sentou-se na encosta íngreme e olhou o além-
-de-si sem esperança. Percorreu o vale, perscrutou a encosta fronteira e procurou o sentido do rio. Seguiu-o com o olhar. Sentiu-
-lhe a força do momento e deixou-se ir no silêncio das estações. Navegou em torno da história, andou às voltas na memória e esgotou-se para tocar as extremidades. Tentou voar mas a frialdade que o percorria impedia-o de ascender nas asas das correntes quentes. Desistiu! O vento glacial que agora soprava e as risadas das promessas nunca cumpridas nebulavam-lhe a mente. Tanta gente! Tanta luz suave.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Johnny Cash



I hurt myself today,
To see if I still feel,
I focus on the pain,
The only thing that's real

(...)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Está escrito nos livros


Está escrito nos livros
As verdades são simples

O gelo derrete
As memórias não

Os pássaros voam
O pensamento corrói

O sonho existe
fica entre a madrugada e o nada

Os lobos não fogem
combatem o passado

O silêncio incomoda
E não entendo o porquê

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Não me perguntes

Não me perguntes. Eu já naveguei no mundo, mas nada sei. Eu sou a ilha inabitada, a dobra tectónica de placas inexistentes, a nuvem passageira disforme e inconsequente.
Não me perguntes nada. Não precisas de acreditar em ninguém, está tudo dentro de ti. Sê tu! Segue-te!
Não me sigas. Eu não existo. Eu sou uma sombra de mim, a máscara de carnaval imprudente onde soam razões de uma ciência sem respostas. Não me sigas. Eu sou a esquina sem esquadria de uma tarde longínqua, um momento impresso na distância da noite.
Não digas nada. A vida é uma fantasia: segue-a.
Eu estou perdido... Dá-me a tua mão.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Fechadura

Creio na individualidade...
Nela giro
Nela caio com vertigens
Nela me perco
E recomeço todos os dias

Creio na individualidade...
No volante dos meus sonhos
A risca no céu que me liberta e me assombra

Creio na individualidade...
Nela sintonizo os acordes da música que ouço
Nela pinto as paisagens irreais

Creio na individualidade...
Nela gravo símbolos que não conheço
E pedaços do amanhã

Creio na guardiã do segredo “conhecer”

Neil Young

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Cinzas tétricas

As emoções revelam-lhe tristes restos em agonia. O professor insano, de métodos pouco convencionais, jaz pregado no corredor do tempo. Um silêncio de lua cheia trespassa-lhe o peito. Tédios, em estratégia de aranha, espreitam na sombra do pensamento. Morre! Morre pregado nos sonhos de menino que, num ato de benevolência, ainda lhe seguram o coração.
Já não vê os olhos que foram dele. Quase não escuta os lábios de infância que lhe iluminavam as vésperas de um mundo numinoso. Já não sente a alegria de tardes soalheirosas. As emoções dos encantos esvaecem-se... Nada acontece, nem um sinal de resistência.
Finalmente o congelamento.