terça-feira, 23 de julho de 2013

Sísifo


A neve da manhã ia-se dissipando quando acabou de subir ao monte. Sentia-se exangue, como sempre, o peso que carregava, a inclinação da serra, tudo isso contribuía para o cansaço que o atormentava. Antes de iniciar a subida, que fazia regular e insistentemente, acodia-lhe sempre um pensamento de desistência. Dizia para consigo mesmo que seria a última vez que faria aquela viagem estafante, que nunca mais aceitaria tamanho sacrifício mas, uma após outra, acabava por, ao longo dos anos, concluir aquele rosário de penas que carregava em todas as suas viagens. Acreditava que sabia porque condescendia. Quando chegava ao cimo, as sensibilidades sociais desapareciam e as horas pensativas que ali passava libertavam-no dos pesos que carregava. Os pensamentos em coisas insondáveis, naquele alto de si, liberta-o dos vales profundos, das promessas sempre adiadas, quebravam-lhe as grades de ferro que trazia dentro dele.

domingo, 21 de julho de 2013

Os livros

Caminhou cinquenta anos apenas numa noite. Não teve dias de paz, não cantou nem bailou, não bebeu vinho que lhe anestesiasse o sentir, não provou açúcares, nem as delícias da luz, alimentou-se de gafanhotos como qualquer eremita, absorveu ideias descabidas e grandiosas que os livros lhe serviram de “mão beijada”, gratuitamente.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sem título

Desceu mais fundo e, mais à frente, já nas encostas de uma paisagem sem memória, chegam-lhe aos ouvidos sons melodiosos. Avenas de um rio que se adivinhava para lá da última linha de montes. Resquícios de um outro mundo paralelo. A olho nu mediu as distâncias. Estava a muitos quilómetros de si e era difícil avaliá-las, mensurar um mundo que, apesar das tentativas de o descobrir, não reconhecia ainda como seu. Um mundo de múltiplas dimensões, sem substância, um mundo centrifugado pelas rotações sobre si mesmo.