sábado, 27 de julho de 2013

Léo Ferré - La solitude (Live)



Je suis d'un autre pays que le vôtre, d'une autre quartier, d'une autre solitude.
Je m'invente aujourd'hui des chemins de traverse. Je ne suis plus de chez vous.
J'attends des mutants. Biologiquement je m'arrange avec l'idée que je me fais de la biologie: je pisse, j'éjacule, je pleure. Il est de toute première instance que nous façonnions nos idées comme s'il s'agissait d'objets manufacturés.
Je suis prêt à vous procurer les moules. Mais...

[...]

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Além da memória



Medos,
sombras que vagueiam
na parede quadrada
de um círculo vivencial.

Genes,
restos memoriais,
de um passado amnésico
em constante orgia geracional.

(...)

terça-feira, 23 de julho de 2013

Sísifo


A neve da manhã ia-se dissipando quando acabou de subir ao monte. Sentia-se exangue, como sempre, o peso que carregava, a inclinação da serra, tudo isso contribuía para o cansaço que o atormentava. Antes de iniciar a subida, que fazia regular e insistentemente, acodia-lhe sempre um pensamento de desistência. Dizia para consigo mesmo que seria a última vez que faria aquela viagem estafante, que nunca mais aceitaria tamanho sacrifício mas, uma após outra, acabava por, ao longo dos anos, concluir aquele rosário de penas que carregava em todas as suas viagens. Acreditava que sabia porque condescendia. Quando chegava ao cimo, as sensibilidades sociais desapareciam e as horas pensativas que ali passava libertavam-no dos pesos que carregava. Os pensamentos em coisas insondáveis, naquele alto de si, liberta-o dos vales profundos, das promessas sempre adiadas, quebravam-lhe as grades de ferro que trazia dentro dele.

domingo, 21 de julho de 2013

Os livros

Caminhou cinquenta anos apenas numa noite. Não teve dias de paz, não cantou nem bailou, não bebeu vinho que lhe anestesiasse o sentir, não provou açúcares, nem as delícias da luz, alimentou-se de gafanhotos como qualquer eremita, absorveu ideias descabidas e grandiosas que os livros lhe serviram de “mão beijada”, gratuitamente.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Sem título

Desceu mais fundo e, mais à frente, já nas encostas de uma paisagem sem memória, chegam-lhe aos ouvidos sons melodiosos. Avenas de um rio que se adivinhava para lá da última linha de montes. Resquícios de um outro mundo paralelo. A olho nu mediu as distâncias. Estava a muitos quilómetros de si e era difícil avaliá-las, mensurar um mundo que, apesar das tentativas de o descobrir, não reconhecia ainda como seu. Um mundo de múltiplas dimensões, sem substância, um mundo centrifugado pelas rotações sobre si mesmo.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Qual realidade?


“A realidade não é tangível”, pensou ao mesmo tempo que pousava o olhar incrédulo na extremidade do dedo, à procura, provavelmente, de algum resquício de viscosidade que escorria pela parede.
(...)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Ressonâncias

(...)
Era difícil percepcionar a sua génese. A caverna era demasiado ampla e a ressonância daquelas memórias chegavam-lhe em sincronia mas, paradoxalmente, projectavam-se-lhe na consciência de forma diacrónica. Era como se a mesma memória se projectasse em tempos espaciais diferentes, como se as diferentes galerias que agora estavam à sua frente fossem o mesmo caminho de diferentes tempos memoriais. Parou novamente.
(...)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Blackbird - Crosby, Stills & Nash



Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise

Blackbird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free

(...)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Passos

Fluir
na inquietude das palavras,
mitificar a matéria,
caminhar no tempo,
tropeçar na morte,
ir em busca da vida:
do amor e do ódio,
de utopias e sincretismos
e,
se possível,
inaugurar o sonho.

terça-feira, 2 de julho de 2013

A entrada

Foram longas horas a caminhar entre a folhagem cultural até descobrir a entrada, muitos livros lidos até descobrir que se escondia entre as dobras dos montes que tantas vezes percorreu, que tantas vezes lhe serviram de inspiração mas, finalmente, descobrira-a. Estava ali mesmo, junto a si, mesmo ao lado do seu respirar. Estranho mas verdadeiro. Mesmo em frente aos seus olhos e nunca a viu. Mesmo ao lado dos seus ouvidos e nunca escutou os seus sussurros. Mesmo ao lodo do seu coração e nunca sentiu a sua presença. Estranho mas verdadeiro!

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A noite do outro dia

– Truz, truz...
Foi ver quem batia. Riu-se quando a viu. Nem queria acreditar: a noite do outro dia. Mais um reflexo do Tempo que lhe espreitava à mente. Mais uma triste figura que deambula pelos abismos insondáveis da escuridão, à procura de fragmentos da idade de ontem.
(...)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A Minha Rua


A minha rua não existe,
é só minha.

Na minha rua não há avenidas,
apenas esquinas
que a maranha das palavras tenta desvendar.

(...)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A Rua da Coerência

(...)
Perdido nos pensares, perguntou pela Rua da Coerência e disseram-
-lhe que não estava aberta a doentes. Quis vê-la. Aproximou-se e, de facto, não se via ninguém fora dos passeios, ninguém atravessava fora das passadeiras para peões, nenhum carro desalinhado. O formigueiro continuava meticulosamente quadrado na ordem inorgânica estabelecida pelos mercados, pelo medo anárquico da Quinta Invisível.
(...)

sábado, 22 de junho de 2013

O Goelas de Pau

– Menoriza a palavra e engrandece o Silêncio – segredou-lhe o Goelas de Pau, filósofo louco, incoerente, pedinte, que, também ele, percorria a cidade em busca do Nada – ninguém te compreenderá, nem os dicionários te salvarão, eles são apenas a superfície do icebergue, o pó das emoções indizíveis.
(...)

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Niilismos

(...)
Nenhum porto de abrigo, nenhuma brisa marítima... Apenas memórias, apenas imaterialidades materiais, inutilidades, niilismos nietzscheianos. Apenas ecos, meros boatos que dão corpo a um vento seco que percorre as dunas, moldando-as em formas semelhantes, amaciando-as no atavismo da segurança e tornando difícil percepcionar a diferença entre elas.
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domingo, 16 de junho de 2013

Já é tarde

(...)

Já é tarde.
As sombras esguias apontam
O oriente da memória
E o relógio parou.

(...)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

terça-feira, 28 de maio de 2013

O princípio do fim

Estava decidido. Nada mais lhe restava senão caminhar nas asas do pensamento, ir em busca da prisão, do submundo das cavernas negras, percorrer o mundo dos medos, emigrar até à terra profunda dos arquétipos, à caverna dos deuses, chegar à compreensão da existência. Irá a Tártaro, se necessário for, libertará Cronos, Hades... todos os ciclopes, todos os titãs emergirão novamente. O mundo antigo regressará das trevas.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Um romance alegórico



Um romance alegórico

Este romance de António Sá Gué conjuga várias linhas de força que o magnificam. Externamente, cada capítulo é precedido de um poema, cuja função emotiva nos dá, em primeira pessoa, um sujeito depois narrado na terceira. Conjunto de vinte e três peças, articula-se, aqui, uma biografia psicológica. Esse direito à palavra ‒ qual didascália no teatro do ser, não só definindo uma voz, mas orientando a leitura ‒ é um traço de personagem tenaz procurando domar o seu destino. Rescende aos heróis antigos, e não seria difícil encontrar concordâncias.
O ponto de partida e chegada é o mesmo: a geografia moncorvense, a pouco e pouco, esclarecendo-se; diferentes os pontos de uma existência, quando se é jovem ou já muito sofrido: vimos dos cumes altivos de pegureiro às fundas gargantas de linfa onde se percebe melhor o vivido.
Desde o início, pressente-se uma indistinção, na silhueta de Manuel, ao longe, que o pai reconhece pela «andadura». É um índice, ou indício, narrativo forte, também porque vai alterar a regularidade das coisas. Numa diegese com poucos incidentes, e gloriosos acidentes da natureza e linguagem transmontanas, inscreve-se vingança, e decide-se futuro, entre Março e Novembro de 1881, quando, acusado de incendiário por Maria das Dores, Manuel António Morgado, de 20 anos, pastor e camponês, declina identidade em seu irónico apelido: embora inocente, perde-se no conceito do povo, de iguais que o juram criminoso. É bem certo que Deus anda com o Diabo às costas, reiterando «antigo ditado».
Essa perda do (bom) nome anuncia outras piores. Afasta-se, assim, dos montes, trocados pela cadeia da Relação do Porto; degredam-no da pátria para Ultramar então na moda, quando conferências internacionais ‒ alude-se à de Berlim ‒ cobiçam as nossas possessões. Se a Justiça lhe acrescenta uma naturalidade, Carviçais, já Manuel perdeu o pé da própria realidade, e tão indiferente lhe e nos parece o silvo da locomotiva na linha do Douro (cujos primeiros troços são de 1875, e, no dealbar de 80, chegam à Régua e ao Pinhão) como a estada africana, onde se vê amputado de uma perna. A figura dissolve-se em corrente de consciência, que o narrador persegue, enquadra na atmosfera da época, deseja interpretar, num universo coetâneo rasgado em cores impressionistas (quase logo, pontilistas) e tentames simbolistas nas artes plásticas e na poesia. À luz destas homologias, é um romance fora do nosso tempo, a requerer demorada exegese ‒ e mais se olhássemos à teoria da vontade em Schopenahuaer, ao desvão do inconsciente freudiano…
Do terroso naturalista passa-se, entretanto, à ideia, a uma conceptualização que, experimentado o Brasil ‒ outro destino nacional, onde amealha dinheiro, mas retorna-viagem, quando a mãe adoece, que já não consegue ver viva ‒, desemboca na concretização de um sonho, tanto mais difícil quanto se quer empresa de indivíduo só, e deficiente, desafiador de homens e de Deus, no esforço derradeiro de transportar as mós, qual anti-Sísifo.
O velho sonho de construir um moinho não visa, somente, alimentar o corpo; busca ‒ talvez, o principal achado ‒ recriar a alegoria da caverna platónica: «Foi além, entrou na caverna da sua existência, entrou no mundo das sombras, no submundo da inconsciência humana. Esteve no mundo do esquecimento.» É mais explícito noutra passagem: «Acordou agitado; sentia-se distante de tudo, longe do mundo dos outros, que sempre o atormentou. A noite não lhe trouxe a calma que procurava. Em boa verdade nada parecia dar-lhe satisfação plena. Durante anos sonhou com o moinho, agora que moinho era uma realidade, sentia-o como se tivesse encontrado o seu desterro, a caverna onde viveria morrendo. Maldição dos insatisfeitos! Ternura dos incompreendidos! Madrugada sem luz! Noite sem regresso!»
Que a satisfação, conquistado o objecto do desejo, vire insatisfação, vai de si, nos heróis e semi-heróis. Estranho é que se transmude em «desterro», como se o degredo africano fosse uma estação inevitável no peregrinar da alma. Há uma condenação superior, já espelhada na sentença de juiz terreno?
Seja como for, essa consciência é a verdadeira realidade, como se ameaçava desde a epígrafe. Negatividade, no prefixo in- e na preposição sem, a par de outras fórmulas? Eterna «dúvida inconsequente», que humedece o último poema? Ou puro desejo de, embora sofridamente, objectivar-se, contra a «verdade» que só os outros dizem possuir?
O gesto vitruviano enfim revertido na horizontal (contra a posição vertical) é um reforço dessa procurada harmonia ‒ reconhecidamente, em falta ‒, que o Renascimento científica e esteticamente alicerçou; o pensamento medieval, contudo, adaptou-
-o à cruz de Cristo, e, agora, humana (ou bicho da terra), num sentido salvífico. Vislumbra-se esta convergência, no cair do pano.
Eis como, de um andamento originariamente rural, localizável, à vista da Serra do Reboredo, se passa à enxovia da dignidade, da amputação familiar, social e pátria, até à morte dos seus e desprezo que lhe votam semelhantes; como um discurso fortemente enraizado, com boa enxertia no léxico regional, se atenua, para recrescer na frase autopsicográfica, em gradual romance-ensaio de propósito alegórico, feição raríssima entre nós.
O incêndio é um incidente, seguido dos trâmites judiciais, que também faltam à literatura nacional: são factos sociais, análogos de sentido, motores narrativos; mais do que um contra todos, perdendo-se quando mais se diz no nome e lugar de nascimento, é um herói psicológico em trânsito de maioridade, até se afastar para fundas terras e magoar no chão «de onde lhe vinha toda a vitalidade». Este inesperado elogio à vida é timbre dos melhores.
Ernesto Rodrigues