sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Fui


Hoje fui memórias de um futuro e um passado mil vezes revisitado. Fui conversas banais, sempre presentes, da tasca que sobrevive alegre e sociável em frente à janela. Fui sons vibrantes de carros que vivem apressados na rua, onde estive sem estar. Fui palavras soltas de livros que folheei aleatoriamente, e pouco mais fui...
Não me queixo, simplesmente caminho, caminho através do esquecimento de mim, caminho em espaços de separação, conscientes, da inércia subtil de ser e a nada pertencer.
Amanhã serei ou não...

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A culpa dos livros

Os livros são os grandes culpados das infelicidades que vão pelo mundo, pelo menos das minhas, assim o considero.
Despem-nos, tiram-nos a roupa e depois riem-se de nós. Riem-se da nossa figura frágil, das nossas vergonhas, a tal ponto que nos obrigam a tapar os olhos para não as vermos. São uns pretensiosos, julgam-nos, iludem-nos, concluem, pintam-nos o mundo com cores que não existem, fazem-nos crer que aquelas são as reais e depois, apesar de não terem boca nem cordas vocais para articular um único som, apregoam-nas aos sete ventos como se fossem donos do silêncio.
Os livros são despudorados e imorais, constroem-nos e desconstroem-nos vezes sem conta e conduzem-nos a folguedos que nem passam pela alma do Diabo. Alguma vez se viu!, eles, que nem alma têm, matarem verdades que levaram séculos para se construírem.
Abaixo os livros!
São uns vilões, fazem-nos crer em deuses e descrer nos homens.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

CCR



(...)
I hear hurricanes blowing
I know the end is coming soon
I fear rivers over flowing
I hear the voice of rage and ruin
(...)

A luz do candeeiro

A alma é a coisa mais difícil de descrever. Talvez seja mais fácil para os pintores, não tenho esse dom, gostava, mas parece-me que será mais fácil captá-la nas cores da tela, agarrar um instante revelador, dar-lhe cores, formas disformes e deixar que os outros se projetem nela. Não para mim, que uso as palavras na tentativa de a materializar, que passo horas infinitas à procura de símbolos, de oximoros, de metáforas, mas tudo se me revela inapropriado e inconsequente. É tudo tão ténue... é tudo tão presente e tão ausente... é tudo tão irreal e tão incongruente...
Dói-me a incapacidade de não conseguir penetrar na luz solitária deste candeeiro onde descubro o meu muro, o tédio de não conseguir penetrar nela, de não ser capaz de descrever as emoções, minhas e só minhas, que todas as horas me surgem.
Dói-me este candeeiro oblíquo que apenas projeta sombras murmuras mas que me revelam aquilo que sou: uma sombra irreal, uma névoa, uma folha seca que oscila ao sabor das brisas diárias.