sábado, 26 de dezembro de 2009

As cores

Gosta de definir as cores e as suas nuances: gosta de conhecer o negro dos Blues, o amarelo-desfalecido da torreira alentejana, o castanho-ocre das duras rugas dos descampados transmontanos, o verde alegre do Minho, o leal e profundo azul-celeste, até mesmo o desespero da ausência de cores gosta de interpretar.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Sons do vento - 3



I'm a child of South Africa
I'm a child of Vietnam
I'm a child of Northern Ireland
I'm a small boy with blood on his hands
Yes I'm a child of the universe
Yes I'm a child of the universe
You can see me on the TV every night
Always there to join in someone else's fight
I didn't ask to be born and I don't ask to die
I'm an endless dream, a gene machine
That cannot reason why
Yes I'm a child of the universe
Yes I'm a child of the universe
You can see me on the TV every day
I'm the child next door three thousand miles away

sábado, 19 de dezembro de 2009

Vou...

Vou…
Vou, porque viver é ir.
Ir é libertar.
Vou…
Nas asas da imaginação,
Na torrente das palavras,
Mesmo na força muscular.
Vou…
Lá, para onde vou…
O meu irmão vento dá-me respostas.
Sussurra-me saudades,
Segreda-me o que está para vir.
Vou…
Lá, para onde vou…
Não há grades,
Nem perseguições.
Ninguém anula ninguém.
Vou…
Sempre!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

domingo, 13 de dezembro de 2009

A alma das fragas

Sim!, estou aqui, quieta e muda, mas nem por isso estou calma. Inquieta-me a tua noção de tempo. Agora que sobes ao meu dorso, digo-te que, tal como tu, muitos o fizeram antes. Mouros e cristãos, repúblicanos e monárquicos, liberais e não-liberais, todos descansaram à minha sombra, todos se encostaram a mim, mas todos vi desaparecer no final da curva. Eu não sou mera folha caduca. Tu sim!, mal terás tempo para ver o caminho que pensas alcançar aí do alto.
Eu!, não esqueço que venho das entranhas da terra, da gélida escuridão, eu!, não esqueço que nasci no milagroso e caótico inferno do princípio dos tempos.
Depois!, depois fiz-me, tal como tu, mero mortal, ascendi à superfície, lentamente, moldaram-me forças que tu próprio desconheces. Não penses que 100 anos é muito tempo. Foi apenas há dois dias que vi nascer o sol pela primeira vez. Foi ontem que, pela primeira vez, senti este teimoso vento na face. Desde ontem que este musgo, esta vida que me cobre, cria em mim uma energia transbordante que tu teimas em não compreender.
Não!, não sou mero aglomerado de quartzo, feldspato e mica.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Copenhaga - O mundo possível

O mundo possível, aquele que existirá quando eu não existir, será a resultante de quê? Será, ou não, o somatório das minúsculas vontades? Há, neste tempo, um padrão coerente, visível, que nos antecipa o “quadro terrível” que, realisticamente falando, pode vir a acontecer, ou teremos que resolver isto pela via da alegoria?

domingo, 29 de novembro de 2009

O futuro

Construam algo de novo, não me venham com modas, não me acenem com títulos académicos, de yuppies estou farto, cresçam, deixem-se de competências técnicas, humanizem-se,pensem. Abram alas, subam ao cimo dos montes e olhem o futuro distante não o imediato.

domingo, 22 de novembro de 2009

Insónia

Arredado o tempo de mais um nascimento, coloca-se-me novamente a questão. Faz sentido escrever? Uma coisa é certa, não pretendo intervir socialmente. Mas, porque escrevo sobre a sociedade, sobre o passado e o futuro, porque será que não consigo encontrar inspiração em locais fantásticos, personagens bonitas, de outros mundos? Ou então nos futebóis, nas encrencas políticas… Sinceramente!, não acho que o escritor tenha qualquer função, não partilho do conceito de que o escritor deva assumir compromissos sociais, mas há um impulso, se calhar alienante, que me impele a escrever sobre a sociedade em geral, de encontrar no passado as forças do futuro. É estranho. Não o entendo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Lançamento promocional - Convite


Os sentimentos são ambíguos, tal como assinala o J. Rentes de Carvalho. Se não me divulgo passo por lorpa, se me divugo posso ser acusado de vaidoso. Mas antes a segunda.

Título: Na Intuição do Tempo
Autor: António Sá Gué

Dia: 13 de Novembro
Hora: 21H30
Local: Biblioteca Municipal de Valongo

domingo, 1 de novembro de 2009

Irritação

A partir do momento em que o homo pouco sapiens foi possuído pelo senhor Cifrão, todas as relações são baseadas nesse valor. Exemplos não faltam, ainda ontem os jornais noticiavam corrupção, ainda ontem assisti ao enaltecimento desse dignificante valor da natureza humana.
– Vai ter que deixar metade do valor do custo do trabalho. – Informou o empregado da loja. Rapaz novo.
– Porquê?... Está a desconfiar de mim? – Inquiriu o cliente, homem na casa dos 40, nitidamente incomodado por tal exigência.
– Não! Nem pensar. – Asseverou o empregado já um pouco embaraçado para se justificar. São as regras da casa. Está a ver aqueles trabalhos ali – e apontava para um canto da loja –, eram todos clientes de confiança.
– Irrita-me, severamente, quando desconfiam de mim sem me conhecerem de lado nenhum. – Resmungou o cliente – à medida que pegava nas folhas que colocara em cima do balcão e saía, irritado, provavelmente, à procura de outra empresa que lhe fizesse o serviço.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Entre o preto e o branco

O comboio estava apinhado, os dois homens falavam da atualidade. O mais velho, na casa dos sessenta, barbudo, olhar arguto, dizia:
– À medida que avanço na vida cada vez mais me convenço que nada no Homem é absoluto. Entre o preto e branco, que apenas afirma ver, há sempre muitos cinzas de permeio. Ele encerra muitas verdades.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Na Intuição do Tempo

Será possível fazer a síntese de um determinado tempo e percepcionar o futuro? Que movimentos, que ideias nos influenciaram e nos fizeram seguir em determinada direcção? Este é o propósito deste livro, que procura condensar alguns dos movimentos sociais do século XX, materializados em personagens que interagem entre elas dentro do comboio do tempo, um tubo de ensaio onde as personagens ora exteriorizam os seus pensamentos, ora os verbalizam, ora comentam a paisagem que vai surgindo através da vidraça do imperecível comboio, permanentemente fustigado pela força das intempéries da tecnologia e que o engenheiro Norberto acredita dominar.
Nada acontece por acaso.
Que influência teve nas gerações seguintes a revolução geracional dos anos 60, representada pelo Horácio, um estudante influenciado pelo movimento hippie? Que peso teve a queda do muro de Berlim e a Guerra Fria que o mundo viveu, e que morreu com o Gonzaga, um comunista idealista que ainda acredita na luta do proletariado? Aonde nos conduz o homo pouco sapiens que, embalado pelo chouto do comboio da globalização e do consumismo desenfreado, ainda acredita ser o maquinista e dominar a máquina, travar e acelerar sempre que o desejar, mas, em boa verdade, já não tem os freios para poder orientar essa possante besta que a todos arrasta?

Voltar

sábado, 17 de outubro de 2009

O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza

A televisão mostra os cardenhos, os ratos, a insalubridade. Uns vultos humanos saídos das sombras de um outro mundo, que infelizmente todos nós conhecemos, apressam-se a abrir a porta, a mostrar a indignidade em que vivem. Provavelmente amanhã, ou depois, surgirá a notícia de uma alma muito caridosa que ao arrepiar-se com a dureza dessas imagens lhes ofereceu uma casa condigna. Dois dias depois surgirão as mesmas figuras a agradecer a filantropia, a grandeza humana do rosto tal.
E aquele caso aquele que ninguém conhece, que nem quer aparecer na televisão porque se sente culpada dessa indignidade e sente vergonha de ir buscar a sopa que a Câmara, em tempo de eleições, distribui. Sim! Refiro-me àquele caso em que o pai perdeu o emprego e a mãe se esfalfa a limpar escadas dos prédios, mas a magreza do salário não estica até ao fim do mês. Aquele caso, mesmo ao seu lado, a quem o estado não reconhece o direito de lhe atribuir um subsídio para os livros da filha, e cuja mãe agradece muito que na escola lhe dêem de comer sem pagar.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

sábado, 10 de outubro de 2009

Monólitos

Chovia. Alheio a tudo, à chuva e ao sol, ao ruído e ao silêncio, ali se manteve, impávido e sereno, sem alma. A água escorria-lhe pelo cabelo empastado, penetrava-lhe no pescoço descarnado, e ele, apático, continuava de olhar sem ver, indiferente. Aquele seu olhar, distante, continha muito mais que a indiferença do mundo, hoje, o aguilhão era outro, brotava-lhe mais fundo, nascia-lhe no lastro do seu ser, transformava-o. Incomodava-o a indiferença – ou medo, matutava – que o mundo nutria pela diferença e a divergência. Incomodavam-no os monólitos padronizados e vicejantes, incomodavam-no as pedras erguidas em pedestal sem saber por quem nem de que forma.

domingo, 4 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O caminho da escola

O caminho que deves apanhar é aquele que segue pelo centro – e apontava com a mão direita –, não o do facilitismo, o outro, aquele que ladeia aquelas árvores de folha caduca, não sei o nome, e que, lá mais à frente, sobe, sobe muito – …mas está cheio de espinhos e é pedregoso, questionava o filho –, eu sei, responde o pai, mas é nesse que deves seguir. Depois passa junto àquele precipício onde as encostas ora são áridas, ora vistosas, é ambíguo, eu sei, mas é esse o coração da vida. Lá à frente é estreito, parece muito estreito, trepida como uma corda bamba, eu sei, mas é esse o caminho da escola, parece apertado no início mas é amplo no fim.

sábado, 26 de setembro de 2009

Prozac

Agora, que o caminho francês pertence ao passado, é necessário continuar alimentar este devorador de ideias, sempre insatisfeito, sempre a querer mais. Talvez seja sensato fechá-lo. Vou pensar nisso! Apetece-me compará-lo ao consumismo desenfreado deste nosso tempo, a essa insatisfação sem limites que tende para o infinito, a todos nos consome e nos mergulha na angústia de não ter, de não conseguir…

domingo, 20 de setembro de 2009

Chegada

Agora, o caminho é urbano. Faltam apenas dois quilómetros, se tanto, que percorri liberto das dores musculares e do desconforto geral, tudo desapareceu, tudo parece ter voltado ao princípio, até a imperecível chuva deixou de me fustigar a cara e passou a bailar em frente aos cones de luz que os candeeiros da iluminação urbanos, já acesos, jorravam em direcção aos passeios.
Descemos o monte. Desmontámos para vencer as escadas que descem rente a uma das saídas, onde os carros passam acelerados e deixam para trás uma nuvem de água aspergida pelas rodas. Montámos e, de repente, a terra batida deixa de existir e dá lugar ao cimento, ao asfalto, de repente, as formas irregulares dos bosques, do caminho, transformam-se em simetrias, em ângulos rectos, em perfis perfeitamente planos e verticais. Uma ou outra pessoa passava rente aos beirais, a proteger-se, abstraída de tudo, e nós, ufanos por dentro, enlameados por fora, seguíamos as vieiras de bronze incrustadas no passeio, admirando as alindadas e iluminadas montras de vaidades que convidavam a parar, mas nós, simplesmente desprezávamos.
Entrámos nas ruelas graníticas, as faces abrem-se, uma ou outra pessoa atravessa a rua a correr e obriga a uma manobra mais apertada para evitar o choque. A última esquina, e praça Obradoiro (que foi estaleiro para construir a Sé), surge, também ela deserta. Desmontámos mesmo no centro. Olhámos em redor, não havia qualquer dúvida, estávamos no mítico campus stellae, os holofotes iluminavam toda a fachada da Catedral e adquiria, também por isso, verdadeira dimensão de estrela. Por ali vagueava o espírito de S. Tiago, de Pelayo, de Almansor, de Herodes, de S. Bento, dos construtores do caminho. Eu vi-os. Juro! Vi-os no magnífico pórtico da glória. Vi-os no tímpano central, no inigualável mainel da árvore de Jessé. Vi-os lá no alto das torres laterais da fachada. Vi-os…
Um novo sentimento de satisfação percorre as nossas mentes e, logo, uma nova corrente de companheirismo ata-nos num longo e apertado abraço. Com um sorriso de incredulidade estampado na cara, durante longos minutos por ali ficámos, sem nada fazer, a saborear aquele sentido de realização, abstraídos, vagueando o olhar pela praça. Não direi que fosse inconsciente, mas pelo menos era um pouco irracional, e só depois de o corpo começar arrefecer, e uns arrepios nos percorrerem de alto abaixo, tomámos consciência que era necessário procurar guarida.
Não cumprimos a tradição de colocar a mão direita no mainel interior à entrada na catedral, não demos as devidas turrinhas no Santo dos Croques, não demos o abraço ao Santo, assim como não vimos a Igreja de S. Domingos de La Calzada, não subimos ao castelo de Clavijo, não nos abismámos com a majestosa igreja românica de Santa Maria A Branca em Vilalcázar de Sirga, não nos pasmámos com a Igreja Fortaleza de S. Nicolau em Portomarin, não …

ATÉ SEMPRE!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

domingo, 13 de setembro de 2009

ETAPA - 9 (Quasi)

O objectivo final estava próximo, todos sentíamos isso, era necessário saborear os últimos recantos, as últimas dobras do caminho, os magníficos monumentos que continuavam a surgir pela frente, os cerrados bosques como aqueles que acobertam o caminho depois de Melide, até as pequenas lápides que assinalam o local da morte de alguns peregrinos se tornava imperioso admirar, mas a chuva continuava a cair, de todas as formas e feitios e empurrava-nos para a frente, incentivava-nos a chegar naquele dia e, finalmente, saborear o nosso éden, o nosso lugar perfeito: um banho bem quente e lençóis brancos esticados.
E fomos pedalando, pedalando, conscientes que por maiores que sejam as tempestades, por mais pesadas que sejam as dificuldades, é seguindo em frente que se consegue lá chegar. E, pouco a pouco, conscientes de que estávamos no caminho certo, fomos vencendo os lombelos enlameados, as dores musculares, o desconforto geral à medida que íamos contando os quilómetros que faltavam. A ânsia de tal contagem decrescente era tanta que, por vezes, quando passávamos um marco indicador do caminho sem nos apercebermos, ficávamos descrentes se faltariam 20 ou 21, 18 ou 19. Parece ridículo pensar que depois de fazer oitocentos, mais ou menos um não terá significado, mas naquelas condições tinha, e tanto tinha, e não era só para mim, que nos últimos 15 km, as aldeias que se sucederam foram tantas (Ras, Breas, Santa Irene [mártir portuguesa], Rúa, Pedrouzo, San Antón, Amenal, Cimadevilla, San Paio), que ficámos com a impressão que o caminho andava às voltas e não seguia em linha recta. A última dessa sucessão de aldeias é Labacolla. Ao passar sobre a ponte, troçámos, fizemos dichotes com o banho que devíamos tomar, tal como faziam os antigos peregrinos, antes de se apresentarem ao santo, mas nenhum de nós se atreveu a desmontar da bicicleta.
Depois desse desfilar de pequenas aldeias surge o simbólico Monte del Gozo, subimos para cumprir a tradição e abraçámo-nos, instintivamente, de contentamento, de vitória, de fé… Todos nós estávamos emocionados, vi-o no semblante dos meus companheiros, havia um brilho muito especial nos olhos e uma profundidade estranha no vínculo das rugas de expressão de todos eles. Vi bem. Tenho a certeza que, intimamente, todos nós cantámos ULTREIA. Nenhum de nós tem o carácter muito expansivo e, talvez por isso, esses sentimentos não tiveram a correspondente expressão exterior, não houve grandes manifestações exteriores de júbilo mas, tenho a certeza, todos nós estávamos em comunhão com milhares de almas que por ali passaram ao longo de séculos. Todos nós, interiormente, estávamos sentindo algo muito especial, que tudo se consubstanciou nuns sorrisos de cansaço e alegria que se misturaram numas palavras de circunstância, singelas e sentidas que me brotaram da alma.
Nenhum de nós foi proclamado rei, chegámos todos ao mesmo tempo, nenhum de nós se quis adiantar, o companheirismo que se manifestou ao longo de todo o caminho teve ali a sua expressão final, que gravámos numa das poucas fotos desse dia solicitada a um passante num “portunhol” que já todos nos atrevíamos a palrar.
A luz escasseava mas era ainda suficiente para ver as agulhas da catedral apontadas ao céu, esgazeadas numa neblina que as dissolvia a as tornava irreais.
Os sentimentos e as emoções são difíceis de descrever. Para trás ficaram dificuldades, as alegrias, o calor, o frio e ficou a grandeza do caminho que penso ter percorrido muito depressa.

BUEN CAMIÑO!

domingo, 6 de setembro de 2009

ETAPA - 9 (Parte 2)



Acordámos, vestimos a desconfortável roupa húmida, e aconchegámos o estômago também com uns chocolates que a simpática peregrina checa fez questão de deixar em cima da mesa, como forma de agradecer o jantar que partilhámos com ela na tarde anterior.
O centro histórico de Sarria mantém um ar medieval que se completava com a chusma de peregrinos que, a pé, desgrenhados e ainda ensonados subiam a rua principal àquela hora da manhã. O dia nascera cinzento. O caminho, logo que se deixa cidade, embrenha-se em bosques de carvalhos, pinhos, uma vegetação luxuriante que nos isola, que nos faz regressar ao nosso interior, às nossas origens, e é quebrado, de quando em vez, pelas dezenas de aldeias que vão desfilando, isoladas, também elas perdidas no tempo.
O primeiro grande burgo a surgir no caminho é Portomarín, onde não parámos. A ânsia de chegar era muita, o cansaço, sei agora, não tem olhos para as coisas da cultura e muito menos para desvios do caminho, e, mais uma vez, ficou por contemplar a Igreja Fortaleza de S. Nicolau, Séc XII, transferida pedra por pedra para o alto do monte. Metemos pela actual ponte dos peregrinos, já que a antiga se encontra submersa pela água da barragem de Belesar, que nos desvia para a esquerda, e nos embrenha, mais uma vez, em sendas, veredas, córregos, atalhos, canados, corredoiras, tudo laços que atam as dezenas de aldeias que se vão sucedendo.
De todas essas aldeias ficou-me na memória Ligonde e Palas de Rei, onde tive o meu único furo, que remendei debaixo de chuva intensa, já que nas proximidades não havia qualquer abrigo. Em Palas de Rei vi, ao longe, o Castelo de Pambre, envolto em lendas e mistérios, em Ligonde mais uma vez, a minha memória permeável a lendas e encantamentos de outros tempos, associou a toponímica a Lug, deus Celta, padroeiro dos engenhosos, e logo errou pelas labirínticas lendas desses povos que, provavelmente, terão sido os verdadeiros precursores do caminho.



BUEN CAMIÑO!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

ETAPA - 9 (Parte 1)


Para chegar a Santiago de Compostela, nesse dia, seria necessário percorrer cerca de 120 km, o que, à partida, não estava nas nossas contas. O cansaço era muito, e percorrer essa distância depois de 700 Km pedalados, não era fácil. Não havia grandes declives, nos perfis do terreno que nos foram fornecidos em S. Jean-Pied-de-Port, e que íamos visualizando a todo o instante, era um sobe e desce constante, sem haver grandes montanhas a vencer. E foi nessa ânsia de chegar ao topo de mais uma subida, para beneficiar da descida, que se foram percorrendo dezenas de quilómetros debaixo de uma chuva constante. Desde o dia anterior que praticamente não tirava fotografais, fiz uma foto do marco 100, e pouco mais. Quando quis fazer mais uma ao antigo Hospital de Peregrinos de Santo Antão, em Ribadiso de Baixo, e à bonita ponte medieval sobre o rio Iso, no bucólico vale, onde por coincidência fiquei sem alforges da bicicleta, a máquina não funcionou. A chuva foi, sem dúvida, a grande presença neste dia, e ela foi a responsável por decidirmos não pernoitarmos, outra vez, num albergue qualquer do caminho. Estávamos ensopados, no dia seguinte teríamos que vestir roupas molhadas, e isso, foi a causa para que tomássemos a decisão, acertada, de seguir até Santiago, provavelmente reconfortados pelo belo almoço que fizemos em Melide.
Não foi um dia, como foram os primeiros, para refrescarmos a cabeça nas fontes de água fresca, sempre incentivada pelo grupo que se ria com tal comportamento, não foi dia para descansar às sombras das bonitas Igrejas que foram desfilando e que ficaram meias apagadas na minha mente, não foi dia para apreciar os bonitos cruzeiros que se vêem em muitas encruzilhadas, nem tão pouco para fazer montículos de pedras, que nos divertia, e era a forma antiga de marcar o caminho.

BUEN CAMIÑO!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ETAPA - 8 (Parte 2)


O aforismo: depois de uma subida vem sempre uma descida, não é verdadeiro. Descobri isso mesmo depois de deixar “O Cebreiro”. O desconforto da roupa molhada, o frio, fazia-me ansiar pelo fim da etapa, pelo descanso merecido. Estava no topo e, acreditava eu, daí em diante seria sempre a descer. Enganei-me redondamente. O caminho segue pela crista da serra durante 10 km, ou mais, pelo menos eu achei serem muitos, alternando entre descidas e subidas, por caminhos enlameados e estrada escorregadia, e só depois veio a vertiginosa descida até Triacastela ( penso poder traduzir-se por “três castelos”), que percorremos ignorando os perigos da velocidade, travados apenas pelos intensos ventos e rabanadas de chuva que nos feriam a cara. Nesse sobe e desce pela serra, ainda ficaram registados na máquina fotográfica, o Alto de S. Roque e a placa indicativa de 1270 metros de altitude, a aldeia do Hospital de la Condessa, o Alto do Poio, Fonfria e Viduedo. A minha memória absorveu o verde intenso da Galiza, o alcance do olhar, e as aldeias perdidas no meio da serra envoltas numa neblina translúcida, que lhe conferiam um ar surreal e misterioso.
Cá em baixo, no vale, o ar era mais quente, já não chovia, e este foi o primeiro retempero para o corpo, que só ficou completo depois do “café com leche”, bem caliente, deglutido de uma assentada. Triacastela era o fim da sétima etapa, em relação ao inicialmente planeado. Eram três da tarde, pode dizer-se que tínhamos um dia de avanço, e mais uma vez se colocou a questão de seguir ou descansar, venceu o “seguir”, a vontade de chegar ao fim era mais forte. Não visitámos a antiga cadeia de peregrinos, algo estranho ao longo da rota, nem nos deslocámos às pedreiras de calcário para carregar uma pedra e assim ajudar na edificação da catedral, o peso já era muito, os tempos são outros, e a catedral há muito está terminada, outros o fizeram, mas nós seguimos em frente, completamente encharcados.
A beleza do mosteiro beneditino de Samos ficou apenas no olhar. Passámos, olhámos sem ver, fotografámos a fachada e tudo em seu redor. Mas nem por isso fiquei mais pobre. O rio Ouribio, que lhe passa aos pés, e todo vale envolvente transportou-me para o mundo dos sonhos, calmo e sereno, aquele é o meu locus amoenus, habita em mim um arquétipo qualquer que não sei definir, mas que, ao ver paisagens edílicas como aquela, de imediato me transporta para um mundo submerso na escuridão do tempo, o tempo longínquo das sapientes Tágides, as venerandas ninfas das fontes que me apetece evocar. Lá dentro, vi claustros, magnificentes abóbadas, capiteis, esculturas impressionantes, arcos em ogiva, vitrais, pináculos de catedrais e, misteriosamente, ecoaram em mim cânticos gregorianos que me fizeram esquecer o cansaço e me acompanharam até Sarria.
Abrigámo-nos num albergue dos “Oito Maravedis”, que se recomenda, cujo curioso nome tem também a ver com a verdadeira história do caminho.


BUEN CAMIÑO!

sábado, 1 de agosto de 2009

quarta-feira, 29 de julho de 2009

ETAPA - 8 ( Parte 1)


A etapa adivinhava-se maravilhosa, metafísica, mas simultaneamente dura. O dia nascia cinzento, as roupas ainda molhadas da chuva do dia anterior, arrepiava-nos e criava a sensação, nada agradável, de frio, que se misturava com a impaciência de finalmente subir ao “El Cebreiro”. Com a música sibilina de Wagner na cabeça e o misticismo de Parsifal , arrancámos, depois de encontrar a primeira vieira indicativa da direcção: Vilafranca del Bierzo, importante povoação também ela com profundas tradições jacobeias. Hoje, transcorrido um mês, estou com a sensação de que nem gozei a beleza desta vila, nem as primeiras paisagens galegas intensamente verdes do fértil vale do Bierzo, tal era a ânsia de querer subir depressa a 1300 m de altitude. De qualquer forma, afirmo: pela grandeza dos palácios e das casas senhoriais que vi, com estes que a terra há-de comer, terá tido um grande poder económico.
O albergue municipal de Cacabelos é especial. Não por se tratar de um autêntico hotel de cinco estrelas, verdadeiro peregrino aceita o que lhe dão, é especial porque se trata de um renque de pequenos quartos construídos em madeira, como se fossem berlindas de um comboio, dispostas em redor do adro de uma das Igrejas da vila. Cada um dos cubículos dispões de duas camas e apesar de o isolamento auditivo não ser nenhum, dava alguma privacidade. O pequeno-almoço também foi especial. Era domingo, todas as lojas estavam fechadas, tínhamos em nossa posse leite e cereais, que tivemos que comer sem colher, já que o supermercado visitado à chegada, ou seja, na tarde anterior, não tinha tais artefactos.
À saída de Vilafranca del Bierzo, depois de atravessar a ponte sobre o rio, continua-se a direito, segue-se pela antiga estrada Nacional VI, está correcto, também achei estranho, a designação é em numeração romana, e esta é uma importante informação, é que nesse troço o caminho estava mal assinalado, ou então a nossa capacidade de observação e discernimento já estava alterada e levou a que nos perdêssemos. Depois o caminho segue, plano, sobranceiro ao rio Valcarce. Grande parte desse troço é feito sobre alcatrão mas protegido do movimento intenso dos veículos, que cruzam a estrada, por pesados “rails” de cimento. Ao longo desses vinte e tais quilómetros vá saboreando as casas xistosas de Pereje e Trabadelo, a caixilharia das portas e janelas de um azulão que lhe fica bem e fere a vista de Ambasmesa, La Portela e Vega de Valcarce, o delicioso ferro-forjado das varandas onde pingam cuidadas sardinheiras em Ruítelan e Las Herrerias, e esta última aldeia é o sinal de que vai entrar nas fortes subidas de O Cebreiro. Nesse ponto faltam apenas 9 quilómetros, mas a dureza é tanta que mais parecem 29. Descanse um pouco em “La Faba”, espraie o olhar pelas linhas de montes que se sucedem, se as névoas o permitirem, senão, finja estar numa outra época e deixe-se levar pelas asas da imaginação, sinta o silêncio da terra, o ladrar distante de um cão, os irados mas meigos vocábulos bosquímanos de um pastor que se misturam com o chocalhar do gado, acorde, está em altitude elevada, o tempo pode mudar repentinamente, até politicamente,
siga devagar em direcção a Laguna de Castilha, a inclinação do caminho atenua-se, escute o bater do coração e vá gozando a beleza do lendário Monte Salvat.
O Cebreiro, fruto das duras condições climatéricas, foi um dos primeiros locais a acolher peregrinos. É igualmente célebre pelo milagre eucarístico. Diz a lenda que o pão e vinho se transformaram em carne e sangue quando um monge, descrente, repreendeu um camponês que subia até ali, no meio de um temporal medonho, para assistir à Eucaristia. Desde então, em 8 de Setembro, milhares de peregrinos reúnem-se no local par celebrar o milagre.
Tem origem pré-romana, celta, diz a história, o peso do tempo sente-se, de imediato, logo que se vence a última gelha do terreno. É uma povoação de pedra escura, xisto, cabanas redondas, colmadas, ruelas estreitas, de calçadas de largas lajes: um maravilhoso e misterioso lugarejo perdido no meio da serra. Não fora o frio, bem como a chuva que vinha em rabanadas intensas, além da pouca roupa que tinha, ficava ali durante toda a tarde a percorrer os múltiplos recantos das ruelas.

BUEN CAMIÑO!

sexta-feira, 24 de julho de 2009

ETAPA - 7


Esta era uma das etapas que, desde início, ansiava percorrer. Talvez não fosse só esta, talvez possa dizer o mesmo em relação à primeira, aquela em que chegamos a Roncesvalles, à penúltima por desejar alcançar o Cebreiro, e à antepenúltima, ou seja, esta, porque iria passar na “Cruz de Ferro”, local mítico para os peregrinos, onde é tradição deixar uma pedra que se transporta na mochila desde casa, e que também cumpri. Sinceramente, não sei qual o significado de tal tradição embora possa imaginar, talvez seja melhor assim, cada um pode dar-lhe o significado que entender.
Lá, no alto, no ermo da “Cruz de Ferro”, protegidos de uma chuva intensa pelos largos beirais da pequena capela que lhe fica sobranceira, com a vista de uma pequena cruz de ferro sobre um céu cinzento e carregado de nuvens, fixa no cimo de um poste, erguido sobre um monte de pedras, planeámos chegar a Vilafranca del Bierzo, que não conseguimos alcançar por minha causa. As forças já eram poucas, claudiquei, acabámos aquém da meta estabelecida, mais uma vez. Dormimos no curioso albergue municipal, em Cacabelos, 10 Km antes.
No típico albergue onde passámos a noite, refiro-me ao de Hospital de Órbigo, apesar de pequeno era acolhedor, não faltavam óleos dependurados nas paredes alusivos a “D. Mas de Quiñones”, esculturas, referências de toda a espécie ao caminho e a tudo o que o envolve. Esse ambiente, a simpatia das pessoas, e não me canso de o dizer, acabaram por aliviar a carga dos quilómetros que todos os dias se iam acumulando nos músculos doridos.
O caminho logo à saída da aldeia surge com duas possibilidades, optámos pelo da esquerda, que segue paralelo ao traçado da N-120. O primeiro vislumbre do dia é Astorga, vista do alto, no cruzeiro de S. Toribio que parece ter um projéctil no topo e onde, segundo consta, o bispo da mesma cidade, abatido e injuriado, sacudiu o pó das sandálias ao abandonar a diocese. Gesto bonito, este, mais uma vez a minha ignorância se manifesta, não sei o que significa: exorcizar fantasmas, afastar pensamentos, isentar-se de responsabilidades, indiferença por aqueles a quem dedicámos atenção e não nos ouviram, ou será antes um acto de perdoar, de caminhar, de continuar a andar sacudindo, simplesmente, de quando em vez, o pó das sandálias que nos macera os pés, como que a dizer: eu tenho razão, há que dar tempo ao tempo, continua a caminhar, deixa as árvores frutificar, deixa os rios correr.
Nela, em Astorga, capital da Maragatería, entronca a “Caminho da Prata. Asturica Augusta é também um poço de história e cultura. Apesar da sua riqueza cultural, não ficámos muito tempo. Passeámos um pouco nas suas praças, provámos a beleza exterior da Catedral de Santa Maria, olhámos as ruas da antiga judiaria, saboreamos um café com lette e um bolo tradicional, que não fixei o nome, e fiquei com vontade de voltar para provar o apaladado maragato que, por aquilo que percebi, será algo parecido como um cozido à portuguesa, perdoem-me se estiver enganado.
Deixámos Astorga e depois da ermida de Ecce Homo, o caminho mete por montes e vales, e as abandonadas aldeias de Santa Catalina, Somoza e El Ganso, sucedem-se, até chegar a Rabanal del Caminho, que foi paragem obrigatória para os peregrinos se recomporem antes de entrar no Monte Irago, sempre infestado de lobos de todas as espécies, mas que para nós é recordação de mais uma paragem para retemperar foças na doida Méson Cowboy.
De facto, o enigma do palmípede ganso, que para os egípcios podia ser a alma dos faraós, para os celtas mensageiro do outro mundo, mantém-se ao longo do caminho. O caminho do ganso parece, efectivamente, confundir-se com o caminho das estrelas. Os Montes de Oca, que encontrámos no quarto dia, o Rio Oja, que primitivamente era igualmente Oca e se transformou em Rioja, Paso de Oca,… El Ganso, que agora ficou para trás e recordo como uma pequena aldeia isolada de casas colmadas, e onde se crê que o apóstolo Santiago celebrou missa, todos esse nomes parecem fazer parte do misterioso puzzle que desafia os efeitos corrosivos do tempo, e se mistura, mais uma vez, o pagão e o cristão.
Voltaram as paisagens agrestes, voltaram os bonitos e ondulantes Montes de Leão, mas que criam maiores dificuldades. A maior do dia, como já referi, era a dita “Cruz de Ferro” que se ergue sóbria a 1500 metros de altitude. Confesso que até nem foi a mais cansativa, apesar de ser longa, os aclives são pouco acentuados. Sobe-se, sobe-se, sobe-se … passa-se Foncebadón, mais uma bonita aldeia de casas celtas, redondas e colmadas, envolta numa ampla paisagem verde, pintalgada de amarelo intenso pelas vistosas maias, toma-se um café solo na Taberna de Gaia, pedala-se durante mais vinte minutos, mete-se pela estrada da esquerda, aquela que sobe mais e chega-se ao topo. Depois é sempre a descer, até Molinaseca, onde, paradoxalmente, chegámos completamente molhados. A meio das vertiginosas descidas, com cerca de 17 Km, a chuva intensifica-se, fustiga-nos a face e abriga-nos a parar num maravilhoso restaurante, provavelmente único, numa das pitorescas aldeias da serra, El Acebo, onde abandonámos os bocadillos e nos deliciámos com uma maravilhosa sopa de truta e outros petiscos quentes. Três da tarde. O dia mantém-se cinzento mas a chuva amainou. É melhor aproveitar, pensámos todos.
Segundo vislumbre: o castelo Templário de Ponferrada, também ela ligada, desde há séculos, ao caminho, onde chegámos, molhados, arrepiados, cansados e com uma vontade de chegar depressa. E sem tempo, nem vontade para contemplações histórico-culturais metemos por caminhos enlameados, ladeados de frescos vinhedos até Cacabelos.

BUEN CAMIÑO!

domingo, 19 de julho de 2009

ETAPA - 6



Os caminhos compridos e planos, monótonos, as suaves inclinações, as árvores isoladas e um indomável vento que nos fustiga a cara e nos impede de andar, foram as características desta longa etapa que só terminou em Hospital de Órbigo.
As bonitas construções de adobe e nomes como El Burgo Ranero e Mansilha de las Mulas, outrora importante centro pecuário, a crer na onomástica, ficaram-me na memória pelo nome insólito que possuem. Depois desta aldeia que comecei a avistar lá ao longe, como uma miragem, e que parecia ser sempre distante, o caminho, logo à saída, depois de passar a ponte de pedra, mete à esquerda e segue paralelo à estrada. Cruza-se novamente com ela em Puente de Villarente e, enquanto esperávamos pelos elementos do grupo que habitualmente andavam mais à frente, que, paradoxalmente, por essa razão se perderam de nós, já que enquanto nos esperavam acabaram por ser ultrapassados sem se aperceberem, também já me perdi, ah!... dizia eu que, aí, em Puente de Villarente, saboreámos o sol da manhã numa bela esplanada, e matei mais uma vez a interminável fome, com mais um bocadilho, um gelado, umas bolachas,… eu sei lá o que comi: uma fome imorredoura acompanhou-me durante todo o tempo.
Recordo este troço do caminho como perigoso, já que se confunde com a estrada nacional, muito movimentada, e exige muita atenção ao ser percorrido. Mas também aí existem virtudes, como na vida, mesmo nas depressões existe sempre uma vantagem, há que sabê-las aproveitar, neste caso eram de terceira ordem, simplesmente gustativas, aí, comprámos umas maravilhosas cerejas, eu achei maravilhosas, mas já não sei se eram exactamente assim, se era a minha fome permanente que as considerava como tal, é como diz o ditado: quando há fome não há ruim pão. E ao longo dos caminhos poeirentos lá as fomos depenicando, exactamente como os pássaros, até ao “Alto del Portilho” de cuja colina se pode avistar a cidade de Leon, que, na primeira vista, impressiona pelas cores fores quentes dos seus altos prédios.
De Leon, sede da famosa VII Legião Romana, não esqueço as boas-vindas dadas pela bonita Ponte Castro, não esqueço a monumentalidade do gótico na catedral, o espectáculo de cor dos seus vitrais, não esqueço as suas muralhas romanas, as suas ruas, estreitas, de outra época, da época em não havia automóveis, e as necessidades dos homens eram outras: protecção gregária. Não esqueço os leões de ar pensante sentados em pequenos pilares rectangulares, que não metem medo a ninguém apesar de unhados, e ladeiam a capelinha do século XII, lá bem no centro do velho burgo, exibindo orgulhosamente a sua coroa de rei a encimar um vaso de lírios, para não esquecer a ascendência à coroa francesa, em pergaminho desenrolado, cinzelada por esmeradas e nobres mãos de canteiro.
Não olvido o marco indicador do caminho que diz 330 Km.
A partir da catedral seguimos as conchas de bronze cravadas no solo, e antes de entrarmos mais uma vez, no caminho da estrelas, nos enigmáticos córregos da história, antes de passar sem ver a Vigem del Caminho, padroeira de Leon, antes de nos refrescarmos numa maravilhosa fonte de águas cristalinas, tivemos que nos embebedar com a beleza do comprido frontispício do antigo Hospital de S. Marcos, actualmente Parador Nacional, ou seja, hotel de primeira categoria. Perante tamanha harmonia, perante tanta imagem em alto-relevo, nasce a vontade de querer saber mais, de querer saber tudo (quem? como? quando? porquê?), vontade essa frustrada, naturalmente, pelas das circunstâncias da viagem, mas porque as coisas do espírito não entendem as razões da física, um nervoso miudinho, stressante, toma conta de mim, impede-me de raciocinar convenientemente e sinto vontade de sair o mais rápido possível, depois de mais uma foto de grupo.
Mas antes de chegar ao destino, ainda me estava reservado saborear, no pico do calor, o melhor fino alguma vez bebido, não que a cerveja fosse da melhor qualidade, era normal, creio que tinha nome de santo, mas com garganta ressequida como tinha, desidratado como estava, já que me tinha esquecido de encher as vasilhas do quadro da bicicleta na última fonte encontrada, nada melhor que a cerveja e, dificilmente esquecerei a frescura dessa caña, emborcada, quase de uma só vez, num pequeno café em Villadangos del Páramo.
Em Hospital de Órbigo chegámos, já tarde, e uma chuva miudinha parecia anunciar a mudança de tempo.
Quando se desemboca no fim da rua, fica-se impressionado pela singularidade da comprida ponte sobre o rio Órbigo: é curva, inclinada, e de olhais desiguais. É inevitável recordar o famoso cavaleiro “D. Mas de Quiñones” e os seus feitos, porque a pedra granítica erguida logo à sua entrada, num galego medieval, talvez, galaico-português, não sou especialista, faz questão de o descrever. Ali, pela superioridade da sua dama, Leonor Tovar, e o seu amor por ela, este cavaleiro, à luz desta época adjectivado de quixotesco, lutou com trezentas lanças de outros tantos cavaleiros, desafiados ao atravessar da ponte. Quem quisesse evitar o confronto atravessava o rio pelo seu leito sendo, claro! ignominiosamente considerado cobarde. Por este facto, esta ponte é conhecida “Ponte da Passagem Honrosa" e, ainda hoje, esse povo que não esquece a história faz questão de preservar esse acontecimento, promovendo, tanto quanto sei anualmente, justas medievais a jusante da ponte, em pleno leito do rio, que por bem pouco não presenciamos, já que se realizavam no dia seguinte.

BUEN CAMIÑO!

terça-feira, 14 de julho de 2009

ETAPA - 5


Terminamos em Sahagún que, segundo reza história, cresceu à volta do Mosteiro de S. Facundo (daí o seu nome), e dormimos num do albergue espectacular. Trata-se de um edifício antigo, adaptado para aquelas funções, no entanto, porque foi mantida toda a traça, nomeadamente as paredes em adobe e “tijolo burro”, emprestam-lhe um ar especial reforçado pela música ambiente que adocicava a alma e o corpo dorido pelos 104 quilómetros percorridos, cheios de desníveis curtos mas elevados.
Nessa manhã acabámos por sair um pouco mais tarde que o habitual, já que foi necessário recuperar antes da partida um telemóvel, encerrado na área administrativa durante toda a noite, e que nós desconhecíamos o seu fecho.
O caminho segue praticamente em linha recta até Hontanas, recordo as longas linhas de saibro bordejadas por extensas searas onde vermelhavam uma miríade de sedosas papoilas, esvoaçando ao sabor da leve e agradável brisa que se fazia sentir. Depois segue por um longo vale e, antes de surgir Castrojeriz, passa-se pelas enigmáticas ruínas do antigo convento de santo Antão, onde morreram milhares de peregrinos afectados pelo “fogo de Santo Antão”, uma enfermidade causada pela ingestão de um fungo, o ergot, que cresce no centeio e provoca uma espécie de gangrena nas extremidades do corpo. Castrojeriz surpreende pelas ruínas do castelo que continua a olhar lá de cima do cerro, isolado, a famosa Igreja de Nossa Senhora de Manzano, já celebrada por Afonso X nas suas cantigas.
Depois de sair de Castrojeriz torna-se necessário vencer a curta, mas acentuada, arriba até ao “Alto de Mosterales” e, lá no alto do cerro, parar, cerrar os olhos para melhor escutar o vento que nos fala da formação de Portugal, de juramentos, que verseja odes de cavaleiros em denodados combates, que fala de vassalagem e traição, de dor e sofrimento, de moiras encantadas, de casamentos e mistérios, depois, depois abrir os olhos, olhar em redor, e desfrutar, longamente, porque este olhar tem que ser longo, a vista esplendorosa dessa velha e encantadora Castela.
Se se continuar a pedalar durante uma boa hora, já em plena Tierra de Campos, chega-se ermida de S. Nicolau, construída em pedra granítica, creio (material de construção que vai deixar de ver daqui em diante), antigo hospital de peregrinos, erguida mesmo ao lado da ponte medieval sobre o rio Pisuerga, que separa as províncias de Burgos e Palência, mandada construir por Afonso VI, segundo o placard informativo especado ao seu lado, rei de Leão e Castela, pai de D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques.
Lembro-me que o caminho entre Boadilha del Caminho e Frómisté, grande parte dele, percorrido ao lado do canal de irrigação de Castela, mas a riqueza e esplendor histórico que possuem, confesso, que me passaram um pouco ao lado, tal era o cansaço e, simultaneamente, a vontade de chegar ao fim, de fazer quilómetros pelas infinitas planícies que se deparavam à nossa frente.
O caminho depois desta última aldeia é paralelo à estrada nacional, é uma linha recta perfeita e, ao longo das longas horas que passei sentado sobre o incómodo selim, que nem a maravilhosa pomada cicatrizante colocada todas as manhãs conseguia amaciar, distraía-me com os caminhantes que, lá ao longe, no alto da próxima subida, se definiam como formigas e engrandeciam à medida que me aproximava. Distraía-me a olhar a vieira dos quatro marcos brancos da indicação do caminho, gémeos e em forma de quadrado, que definiam as travessias para os grupos populacionais laterais e também, e porque não escrevê-lo, com os tufos de ervas altas que bordejavam a terra batida, e que, delicadamente, roçagavam levemente a minha perna direita.
Dessas longas rectas, e dos núcleos populacionais que ladeiam o caminho, ficou impressa na minha memória, e na minha máquina fotográfica, o exterior da majestosa igreja românica de Santa Maria A Branca em Vilalcázar de Sirga (com origem numa comenda dos templários) que, impressiona pela sua majestosidade, agigantada pelo pequeno núcleo de casas que a circundam e que, sei hoje, é um verdadeiro tesouro histórico.
De Carrión de los Condes, onde já chegámos a entrar pela tarde dentro, onde saboreámos um pollo à sombra de uma velha igreja (que não decorei o nome) em plena hora da siesta, e que, por isso mesmo, nem pudemos visitar.
Depois foi um sem número de quilómetros monotonamente percorridos, debaixo de um sol ardente, monotonia essa quebrantada pelas leves ondulações do terreno, pelas belas igrejas de um tijolo vermelho e a sua bela arcaria em forma de ferradura, pelas casas térreas com paredes de adobe, cor de lama, gravando na minha mente a impressão, mais uma vez, de termos recuado no tempo dezenas de anos, embora agora as razões sejam outras.
Já com Sahagún à vista, a senda prega-nos um pequeno susto, fazendo-nos crer que segue noutra direcção, mas não! não passa de um pequeno desvio que nos obriga a passar na ponte dos peregrinos e na bonita ermida da virgem da Ponte, em tijolo cozido, como todas as construções antigas e, onde à sombra de uns salgueiros fizemos mais um amigo, um idoso, que em quinze de minutos de conversa, e na sua solidão, foi desfiando de forma autêntica, todos os problemas políticos e agrícolas daquela região, e nós, mais mortos que vivos, mais ouvintes que falantes, fomos entremeando com pequenos “sis e “nos” a demonstrar interesse no monólogo.


As forças iam começando a faltar.

BUEN CAMIÑO!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

ETAPA - 4


No início da quarta jornada as extensas planícies riojanas, verdes, muito verdes, continuaram a surgir de ambos os lados do caminho. Dormimos em “Hornilhos del Caminho”, e tal como indica o seu nome, é uma aldeia tipicamente jacobeia: a sua única rua coincide com o caminho. O albergue fica mesmo ao lado da igreja e estava completamente esgotado, valeu o polidesportivo para dormir debaixo de telha. Na previsão de andamento que, invariavelmente, fazíamos à hora do meio-deia, combinámos terminar o dia em “”Rabe de las Calzadas”, a 10 km antes de Hornilhos, mas, também ele estava esgotado, e foi mais um percalço, já que depois de ter percorrido 90 Km, tivemos que, forçosamente, fazer mais 10, o que não foi nada agradável.
Apesar das longas rectas senti que os declives começavam a acentuar-se. Atravessámos ondulantes searas, passamos Grañón e surge Redecilha del Caminho onde nos abismámos com a lindíssima pia baptismal cujo trabalho rendilhado de relevo representa uma cidade, ou melhor, as muralhas de uma cidade, provavelmente Jerusalém. Depois foi sempre a pedalar, durante uma hora, ou mais, até chegar a Belorado, cuja riqueza cultural ficou para outra oportunidade, porque o caminho passa ligeiramente ao lado, e a fome, que era muita, era imperioso saciar no primeiro bar que surgisse que, por sorte, foi o rico albergue de Belorado, que até piscina tinha.
Em San Juan de Ortega, onde almoçámos, quer dizer, onde saciámos a fome com mais um bocadillo de janbon, foi segundo rezam os cânones do caminho, discípulo de San Juan de la Calzada a quem, e aqui fica aqui mais uma curiosidade, se deve a construção da ponte de 24 arcos sobre o rio Oja, mesmo à saída da vila, bem como a calçada, e daí o epíteto de Calzada, que vai de Nájera até Redecilha del Caminho.
San Juan de Ortega, engenheiro, também ele dedicou a sua sabedoria aos peregrinos. O elevado número de assaltos e assassinatos que os romeiros sofriam ao longo dos Montes de Oca, motivou-o a construir uma Igreja e um albergue para os acolher. A abside da igreja é lindíssimo, o seu sepulcro romântico, no interior, a não perder. Mais uma vez se sente o peso pedras, não o da gravidade, claro! o do tempo que as vai encanecendo. Naquele santuário, isolado, fica-se com a sensação de regressar a um outra era, onde as coisas têm outro significado, outra dimensão e que, confesso, gostava de ter vivido. Veja-se o milagre da luz que todos os anos acontece nos equinócios da Primavera e Outono: no interior da igreja, um raio de luz do poente ilumina durante 5 minutos o capitel triplo que representa o ciclo da natividade.
Mas a maior impressão foi a catedral de Burgos, terra de “El Cid”, que se impõe pela imponência e pela harmonia Isabelina de todos os seus outões, janelas, pórticos. Todo aquele rendilhado é filigrana gondomarense. Lá dentro, não deixei de reparar na capela de Santa Ana, onde o escudo das quinas aparece várias vezes, sempre como parte integrante da grande Espanha. E se a construção aconteceu na época filipina, o que presumo, assim era, efectivamente, mas para um português, crente na portugalidade, não deixa de ser estranho.
Despedimo-nos das agulhas da catedral,com a dúvida se não seria melhor terminar por ali a etapa, mas ultrapassada essa indecisão, metemos, mais uma vez, pelos páramos castelhanos. A paisagem é agora mais áspera e mais pobre. Essa aspereza sentia depois de deixar Atapuerca e os seus sagrados menires (levantados há milhões de anos pelo nosso antecessor), ao longo de mais uma pedregosa e barrenta ladeira, que nos havia de aproximar de Hornilhos.

BUEN CAMIÑO!

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ETAPA - 3


Esta etapa foi percorrida sempre sobre um sol abrasador refrescado apenas pelas amplas paisagens matizadas de verde. Ora eram longos campos de trigo, ora longos valados alinhados do afamado vinho de “La Rioja” que provámos na fonte vinícola visitada no dia anterior, implantada à sombra do Mosteiro Beneditino de Santa Maria La Real de Irache, antigo hospital de peregrinos. Além dos declives permanentes que nos fizeram suar as estopinhas para os vencer, e que põem à prova de qualquer um a sua capacidade de resistência, a gravilha dos 76 Km percorridos também nada ajudava na tracção das rodas.
Los Arcos é a fronteira entre Navarra e Castela. Impressionou-me a majestosidade e a quantidade de casas brasonadas que definem as longas e apertadas ruas. O caminho passa em frente à magnífica Igreja de Santa Maria, que visitámos no final da tarde do dia anterior, atravessa a estrada nacional, contorna o cemitério e, depois da primeira subida matinal que, de bom humor, considerámos de boas-vindas ao caminho, prolonga-se ao longo dos imensos campos verdes, afunila-se lá ao fundo, desaparece e volta a reaparecer, logo de seguida, na encosta do monte seguinte, para finalmente surgir Sansol, onde chegámos depois de duas boas horas a pedalar. Passa-se depressa que a senda vai descer e é preciso aproveitar, no outro lado da encosta avista-se Torres del Rio, desce-se por um caminho pedregoso, sobe-se por uma rua cimentada, como tantas outras, e sente-se a necessidade de um empedrado português, que enquadraria melhor a vetustez das ruas. Parámos para estabilizara respiração e pagámos um euro, que não choro, para visitar a belíssima Igreja do Santo Sepulcro.
Os períodos de descanso ao longo do dia foram poucos e, quase sempre, aproveitando os locais onde as lendas se misturam com a actualidade. Em Logroño admirámos, ao longe, o famoso Castelo de Clavijo que, lá do alto, continua a dominar toda a região e a simbolizar, também ele, os tempos da reconquista. Visitámos mais uma Igreja, a Igreja de Santiago, creio que ser assim designada e, logo à entrada, reverenciei-me perante uma simples placa que afirmava com todas as letras, em jeito de advertência: “… povo que esquece a sua história sujeita-se a que tudo se repita”. E logo a seguir continuava: En este lugar asesinaro el 3 de Setiembro de 1936 a 27 personnas entre ellas, BIENVENIDO VELASCO MENDICUTE victimas de la represion franquista, su dellito estar afiliado a la izquierda Republicana de Ábalos”
Depois de passar Navarrete, vinhedos, Ventosa, vinhedos, vinhedos, vinhedos, chegámos a Nájera, que afirma a sua hospitalidade escrevendo que em “Nájera el pelegrino es najerino”. Aqui, em Nájera, que significa “entre pedras” antiga capital de Navarra, voltámos a encontrar o intrépido Rolando, agora a derrubar o gigante Ferragut, um malvado muçulmano, horrível, de turbante e tez escura, que mantinha prisioneiros os pobres cristãos no seu castelo, que não vimos.
Depois de carimbar a caderneta subimos a íngreme rua e entrámos mais uma vez num caminho de terra batida, já o sol começava a declinar. Exaustos passámos Azofra, fotografámos a sua picota, em Ciriñuela rezámos para que Santo Domingo da La Calzada estivesse perto, e onde, segunda a lenda, também o galo cantou depois de morto, tal como em Barcelos.
Dormimos num belíssimo albergue, com alguma privacidade, ressonámos à vontade, já que no quarto disponibilizado estava apenas o nosso grupo, e o Mad Max, figura italiana, surreal, saída do tal filme apocalíptico.

BUEN CAMIÑO!

sábado, 27 de junho de 2009

ETAPA - 2


Foi uma etapa longa, quente, e culturalmente muito rica. Pamplona, onde chegamos ao lusco-fusco do dia anterior, é a primeira grande capital que se encontra no caminho. Dormimos num albergue municipal, instalado num antigo seminário, e acabamos por assistir à festa de permanência na primeira divisão do OSASSUNA, clube dessa cidade, e demos asas à nossa aficcion toureira, nas afamadas festas dos encierros de San Fermin, contracenando com as corpulentas estátuas dos exemplares taurinos que correm ao longo das ruas no centro da cidade.

À saída acabamos por nos perder, e só encontramos a direcção devida, nos frescos jardins da zona universitária que se prolongam numa bonita zona pedonal, onde apetece apreciar a paisagem em redor sentado nos muitos e apetecíveis bancos existentes. Todo esse corredor que bordeja a cidade foi atravessado sem pressas, como disse, acabando por desembocar na bela ponte de Azella. Depois o caminho começa a subir e só pára no “Alto del Perdon”, onde a lendária “Fuente de Reniega” continua a ser objecto de interesse das imensas máquinas fotográficas, bem como a paisagem distante, tão distante que faz perder o olhar. Diz a lenda, que o diabo disfarçado de caminhante, apareceu a um sedento peregrino e prometeu levá-lo a uma fonte se renegasse a sua fé. O peregrino rejeitou a oferta e foi então que se deu o milagre. Santiago surgiu-lhe, à frente dos seus olhos, vestido de peregrino e conduziu-o a esta fonte onde lhe matou a sede com a sua vieira.
Depois o caminho desce rapidamente por sendas pedregosas, como a vida, e depressa se chega a Uterga, Muruzával e Obanos, onde paramos para retemperar forças e apreciar a beleza arquitectónica da Igreja de S. Juan Baptista e onde soubemos, um pouco encantados, a lenda da Santa Felícia de Aquitânia: diz-se que depois de percorrer o caminho como peregrina, decidiu renunciar à vida de nobreza e ficar a viver neste lugar para auxiliar os pobres. O Seu irmão, Duque Guilherme, quis obrigá-la a regressar, como não o conseguiu matou-a à punhalada. Cheio de remorsos, peregrinou até Santiago como penitência e no regresso decidiu ficar também ele em Obanos.
Continua-se por entre campos de cultivo e aparece outra lenda do caminho, que cresceu à sombra dele, encruzilhada do caminho Aragonês e Francês: Puente la Reina. Conta a lenda que na ponte dos peregrinos existia uma imagem da virgem de El Puy e sempre que a aldeia se engalanava para qualquer evento, aparecia um passarinho para lavar a imagem, molhando as asas no rio e transportando água no bico.
Ficou-me na memória a estreita e bonita rua que desemboca na dita ponte dos peregrinos, bem como o primeiro percalço da viajem, já que, nas proximidades desta vila se partiu o parafuso que fixa o selim ao espigão e, sem forma de conseguir esta importantíssima peça da bicicleta, que me apetece apelidar de máquina de regresso ao passado, tive que continuar viajem até à próxima vila, meia dúzia de quilómetros depois, pedalando sempre em pé, sem me poder sentar. Continua-se sempre em frente debaixo de um sol impiedoso, só amenizado por se saber que se pedala nas pedras de mais uma estrada romana. Atravessam-se vinhedos, a estrada nacional, várias vezes, e a seguir aparece Lorca e a sua bojuda igreja. Depois, depois lembro-me de subir, descer, subir, descer… atravessar pontes, vilas, aldeias com robustas e preciosas Igrejas, de grande dimensão, como se fossem desproporcionadas para o tamanho dos lugarejos.
A meio da tarde, depois de ver amendoeiras oliveiras que foi para mim uma novidade, surge Estella, e surgem dúvidas se devíamos continuar, ou dormir ali, tal era o cansaço e o calor sentido. É uma vila de grande riqueza cultural, abundantes monumentos, testemunhos de um passado florescente. Nela assisti a uma lição curiosa. Fui assistente de uma aula ao vivo, dada por uma professora de 1º ciclo, com a turma sentada na escadaria de uma das Igrejas, extremamente atenta, onde explicava de uma forma muito concreta a reconquista cristã, as marcas existentes desse longínquo tempo histórico naquela terra, além das curiosidades sobre o Caminho de Santiago. Uma aula de história ao vivo, muito interessante. Os bons exemplos podem ser copiados.
Decidimos continuar até “Los Arcos”, onde dormimos nas águas-furtadas de um albergue sui generis, com um ambiente pluricultural. As lições dessa tarde ainda não tinham terminado, ainda tivemos que beber na famosa fonte de vinho,… sim!, não é lenda, existe mesmo a fonte que brota vinho por cortesia das adegas Irache.

BUEN CAMIÑO!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

ETAPA - 1


Saímos de S. Jean Pied de Port cerca das 8 horas da manhã, depois de termos dormido num dos muitos albergues existentes na vila, e que, por sinal, nesse dia, segundo a loja dos “Amigos do Caminho”, esgotou a capacidade de camas existentes.
O dia anunciava-se nebuloso, o que podia considerar-se uma bênção, atendendo ao facto dos declives que era necessário vencer. Logo após a saída da “Porta de Espanha”, que corresponde ao fim da rua principal da vila, e o início do próprio caminho, este bifurca, e uma placa avisa para não seguir o da esquerda em caso de mau tempo. Optámos pelo da direita, tendo em consideração o tempo e algum dos receios de difíceis declives que toda a gente referia com muito íngremes. Fiquei sem saber como eram os da esquerda, fiquei sem conhecer a "Passagem de Napoleão", mas uma coisa eu sei, aquele por onde optámos era muito difícil. Veredas estreitas, córregos sombrios mas refrescantes, inclinações de tal forma elevada que durante os períodos de curta paragem, nem dava para descansar correctamente. Um pouco perdidos nos vales e na densidade da vegetação só os sons da terra eram audíveis, só o sussurrar dos ribeiros, o cantar da passarada, só o ramalhar das árvores se misturavam com a respiração ofegante de todos nós. Foi um alívio quando cheguei a Ibañeta e avistei o monumento de homenagem ao bravo Rolando. Daí a Roncesvales que, para mim, era um local a não perder, pelo simbolismo histórico, são cinco minutos, ou menos. Confesso que o idealizava mais como um conceito místico do que propriamente geográfico. Imaginei-a sempre como uma vila com muitos habitantes, mas depressa conclui que Roncesvales se tratava apenas de um marco histórico, onde as construções se resumiam à Igreja e edifícios pertença da Real Colegiada de Nossa Senhora de Roncesvales. Administrativamente pertencente a Burguete/Auriz.
Almoçámos, quer dizer, alguns de nós comeram a merenda sobrante do dia anterior, que as mochilas estavam pesadas e era preciso aliviar, outros optaram por um bocadilho bem aviado de jambom e queso, uma coca-cola que, segundo dizem, ajuda no esforço. Devorei com o olhar as igrejas, os edifícios, os recantos, e abalámos depressa, porque o destino ainda estava longe: Pamplona.
Logo à saída, como que a avisar, uma placa dizia: Santiago de Compostela 790 Km. Ninguém quer desistir, perguntou alguém. A resposta foi unânime, envolta numa gargalhada, que todos sabíamos qual era o seu significado. Seguimos, agora por caminhos gravilhosos debaixo de um sol escaldante, sempre à cata das setas, atravessando pequenos riachos bem como a estrada nacional que se ia cruzando com o caminho milenar.
Nesta tarde foi particularmente difícil chegar ao alto de Erro. No registo das centenas de fotos que fiz ficaram as pontes de Zubiri e Larrasoaña . Sobre a primeira, sei agora, ser chamada da raiva porque, segunda a tradição, os animais que passavam sob os seus arcos ficavam curados dessa doença. Na segunda apelidada de “Los Bandidos” por naquele local os peregrinos sofrerem muitos assaltos.

BUEN CAMIÑO!

domingo, 21 de junho de 2009

ETAPA - 0


Já cá estamos, pensei quando chegamos.
Tal como na vida, o caminho não se descreve, deve ser descoberto por quem o percorre. Essa era a minha posição no início, guardarei para mim aquilo que viver, pensava, mas as sensações foram tantas, as paisagens, os recantos, as Igrejas, as pedras milenares, os enigmas, o gozo de percorrer o caminho das estrelas, o rasto da via láctea, foi tão grande que não podia deixar de escrever algumas passagens. Aqui ficam.

Correu tudo como o planeado. Saímos do Porto pelas 4 horas da manhã chegamos pelas 15 horas a Saint Jean Pied de Port. Trata-se de uma pequena vila no país-basco francês, uma vila fronteiriça, encaixada nas altas montanhas matizadas de verde que constituem os Pirenéus, e que é preciso vencer no primeiro dia de viajem. Hoje sei que esta foi a mais dura das etapas.
As construções são de um basalto róseo, creio que é basalto, que lhe transmite uma aparência diferente do habitual, nomeadamente à sua Igreja, que fica encaixada no casario da principal rua, que corta o rio Nive através de uma pequena mas bela ponte, e é freneticamente povoada de peregrinos, de mochila às costas e bordão na mão, que a percorrem, de alto a baixo, à procura de um albergue que os possa alojar durante a noite, ou em busca de um último artigo que se torna necessário para a longa viajem que se propõem fazer. A Igreja em si é pequena, possui um abside muito simples, sem talha, nele ressaltam 3 figuras bíblicas, e uns resplandecentes vitrais, lá no alto, que representam santos que não consigo identificar, embora um deles diga tratar-se de S. Pedro. Notei uma outra particularidade, as arquivoltas do portal de entrada parecem não terem sido concluídas, ou seja, não acompanham o arco em todo o seu desenvolvimento.
Não inicie a viagem sem visitar a loja dos “Amigos do Caminho de Santiago”, além da simpatia, deram-nos informação que se revelou importante ao longo do caminho. Não é propriamente o Codex Calixtinius, que os tempos são outros (que teve a sua importância e, graças a ele, ainda hoje se percorre o mesmo caminho que os peregrinos da idade média percorreram), mas foi importante porque os perfis do terreno que nos forneceram antecipavam-nos, um pouco, as dificuldade que tínhamos pela frente, bem como da longa lista de albergues existentes ao longo do caminho acabou por nos facilitar na escolha dos locais onde se poderia pernoitar. Além disso, não se pode esquecer que a “Credencial de Peregrino” permite o acesso à rede de albergues.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Da leitura e da escrita

O livro, seja em que tempo for, mesmo na era do virtual, onde o audiovisual assume particular importância, será sempre um factor de desenvolvimento psicológico, e até social, para o ser humano. Ele, o grande acumulador de cultura, há-de ser sempre a fonte do verdadeiro saber e musa inspiradora para outras obras, quer literárias, quer visuais, e até plásticas. Aliás, as grandes obras da sétima arte, que povoam as nossas memórias, têm, quase sempre, origem em grandes obras literárias, onde a palavra se associa em milhentas combinações para criar milhentas imagens, mas que, por mais versátil que o cineasta seja, nunca as há-de conseguir captar na sua totalidade, o filme não será mais que a sua visão da obra, nunca será capaz de captar o entusiasmo e a leitura de um outro qualquer leitor, de um qualquer espaço, de um qualquer tempo. Assim, no meu entender, a palavra escrita, esteja ela num e-book, ou impressa em pasta de celulose, continuará a registar as novas descobertas da ciência, a elencar as listas de compras que é necessário não esquecer no supermercado, a descrever as mais fantásticas viagens siderais, continuará a exaltar consciências e a transportar-nos para outros mundos imaginados, que, muitas vezes, acredito nem serem aqueles que o autor quis descrever, porque as palavras têm mil significados e quem lê também recria.
Diz-se que escrever é ler duas vezes, mas essa simples correspondência matemática de 1 para 2, que esse rifão enuncia, é pequeno para declarar a grandeza da escrita e da leitura. Escrever é muito mais que isso, é deixar que os personagens adquiram vida, é deixá-los percorrer espaços mais ou menos imaginados e, ao fazê-lo, deixar que os vejam, os cheirem e os sintam. Escrever é dar-lhe nome, cara, encher-lhe a alma com sentimentos, paixões, contradições, paradoxos, frustrações e alegrias. Escrever é projectarmo-nos no papel, ultrapassarmo-nos, é ser curioso e corajoso intelectualmente, é ter uma janela que abre em dois sentidos: para nós e para o mundo. Ler é ser verdadeiramente humano, é ser capaz de associar os múltiplos sentidos das palavras, é viajar sentado nas asas da imaginação por sítios mais ou menos conhecidos, é recuar em épocas mais ou menos distantes, é viajar no futuro, é crescer.
Então, se ler é crescer, o postulado atrás enunciado também aqui se aplica. Quem escreve ou lê cresce múltiplas vezes. Cresce porque aprende a conhecer-se e a abrir os olhos para o mundo que o rodeia. Cresce porque aprende a construir-se, a tornar-se homem ou mulher. Desta forma saudável, está a robustecer-se para a vida, está a tomar as vitaminas, o flúor que o hão-de manter saudável e torná-lo-ão cidadão responsável. Quem escreve, sabe que não é na prepotência que se cria, é na humildade do trabalho que tudo nasce. Não tenho artes de adivinho, mas sei que nós somos o reflexo do passado, e porque assim é, iniciativas como esta hão-de dar frutos, acreditem, quem aqui teve a coragem de se dar a conhecer, não mais o esquecerá ao longo da vida. Não mais olvidará que, um dia, teve a audácia de se dar a conhecer sem medos nem receios. Não mais esquecerá que um dia se libertou, quebrou amarras, desbravou a língua, gritou, ou sussurrou palavras aos ouvidos da namorada ou namorado à frente de todos.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Ultreia!


Fiz o “Caminho de Santiago”, mais conhecido por “Caminho Francês”. A ideia já existia na minha mente há muitos anos, mas nunca a tinha concretizado porque nunca tinha encontrado alguém que, tal como eu, estivesse disposto a percorrer de bicicleta 800 km, desde S. Jean-Pied-de-Port a Santiago de Compostela, sem se importar com as dores musculares, as intempéries, os calores, os frios…
Não sabia o que ia encontrar, como é lógico, desconhecia que era percorrido por centenas e centenas de pessoas de todas as nacionalidades, alemães, franceses, americanos, mexicanos, brasileiros, sul-coreanos… não sabia quem eram essas pessoas, quais os impulsos que as levavam a levantar-se cedo, a caminhar debaixo de um sol abrasador e a menosprezar os frios penetrantes da montanha. Depois de o fazer contínuo ignorante, talvez seja a fé a mover montanhas, talvez haja um recolhimento interior, demasiadamente humano, que se encontra quando se caminha sozinho, longe do bulício da vida e que dá forças para continuar, a fazer o percurso do sol, passo após passo, em direcção ao fim, mas que depressa parece transformar-se em princípio.
Por mim, digo apenas que me fascina o misticismo a ele ligado, fascina-me ser capaz de encontrar nos imensos monumentos, nos imensos sinais encontrados ao longo do caminho uma linguagem simbólica, que se perdeu nas brumas do tempo, mas que continua, ali, à espera de ser verdadeiramente encontrada. Fascina-me a ideia de um espiritualismo secreto, que se descobre apenas quando se percorre, quando se tem a noção do conjunto, um caminho capaz de transformar, seja a alma que for. Penso que também me transformou, aliás, como todas as experiências humanas. Nele, em Roncesvales, ouvi a trombeta de socorro de Rolando ecoar ao longo do vale verdejante, compreendi o orgulho e a valentia que o levou a quebrar a sua Durindana ao perceber que estava prestes a morrer. Lá no alto, na Cruz de Ferro, escrito nas pedras que tradicionalmente se colocam a seus pés, e nas lágrimas que vi derramar, fui capaz de perceber a força sobre-humana que os leva a continuarem dia após dia. Em, “El Cebrero”, isolado, cortado por um vento penetrante, envolto em misteriosas nebrinas, uma igreja rústica, mas simultaneamente reconfortante, entrei na mística da lenda que o liga ao Santo Graal. No Monte del Gozo, senti o verdadeiro gozo que é avistar o fim da viajem.

BUEN CAMIÑO!

terça-feira, 26 de maio de 2009

O senhor Novo-Rico

O senhor Novo-Rico é, nem mais nem menos, o produto de andarilhanças desvirtuadas do comboio: valorização excessiva dos valores materiais. O desenfreado desejo de lucro, o desejo desmesurado de abundância, que faz espécie, e aquela insatisfação permanente, só pode conduzir, inevitavelmente, ao aparecimento de tais especímenes. Se fosse só ele! estava o mundo bem! mas não, multiplicam-se como rattus norvegicus que, segundo dizem tudo povoam, desde o Círculo Polar Ártico ao Círculo Polar Antártico. Quando lhe cheira a dinheiro, não olham a meios para atingir fins. De vibrissas erécteis, dentes arreganhados e longas garras aguçadas, a esgadanhar tudo, a subir a qualquer árvore, a entrar a qualquer arquivo, em qualquer negócio, nada lhes escapa, vendem a própria mãe, se der lucro. Alimentam as mais sombrias cavernas, os mais macabros desejos libidinosos, perfuram as mais profundas tocas do inconsciente: tudo se inventa, tudo se compra. Quem não os seguir, arrisca-se a ser apelidado de Neanthertal.

domingo, 17 de maio de 2009

Os velhos.

Ensine-se. Ensine-se história nas escolas. Criem-se centros de lições aprendidas, centros de interpretação, organizem-se congressos de história, não se deixe parecer que o mundo começou agora, não se deixe passar a ideia de que todo o passado não merece crédito. Valorizem-se os velhos. É preciso ouvi-los, escutá-los, entendê-los, é preciso ter a certeza que todos percebem, que tudo aquilo, o já vivido, conta. É preciso valorizá-los. Deixem-nos ser eles a julgar, eles sim, têm a sabedoria do bom-senso e a justeza do meio-termo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Qual verdade?

Qual verdade? a verdade sou eu. Eu! que tenho armas, sou a verdade, estou acima de todas as coisas. Que ninguém me questione, que ninguém me aponte o dedo, eu! sou o verdadeiro salvador zé-ninguém. Eu sou o teu libertador. Entrega-te zé-ninguém. Liberta-te na escravidão.

sábado, 2 de maio de 2009

D. Quixote.

Ficou na dele, o pai descarregou a sua ira, mas nem por isso deixou de procurar a companhia do novo amigo, não o achava nada perigoso conforme lhe fez acreditar o pai, pelo contrário, achava apaixonantes as suas ideias de igualdade, o seu conceito de homem, agradava-lhe aquele acreditar em algo que lhe parecia grandioso, até pode ser considerado utópico, mas não deixava de lhe parecer heróico defender as suas verdades com todo o seu querer, como um Che, ou um D. Quixote, alienado e crente, a combater com afinco as atafonas de vento.

domingo, 26 de abril de 2009

O corpo da Aida.

À noite deitado ao lado da Aida, deitava contas à vida. Todos dormiam, o irmão na quartido da frente, de onde por vezes vinham uns sonidos rangentes, e ele na saleta com o corpo quente da Aida, ali à mão de semear,
pudibundo, sem lhe poder tocar,
o sangue nas veias fremia,
mas ele de mãos postas resistia.

domingo, 19 de abril de 2009

25 de Abril

Terminava a epopeia, era tempo de soltar amarras, esbanjar, libertinar, era tempo de acreditar que “O POVO-UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO”, mil vezes gritado de punho erguido descendo e subindo ruas e avenidas.

Regressavam da Taprobana, vinham de velas enfunadas, agora da respublica, exibindo cravos vermelhos em vez da cruz do Infante. Não as via, mas estavam lá todas, adernadas; a Bérrio, S. Gabriel, até S. Rafael lá está... velejavam num mar agitado, dissolvidas num nevoeiro espesso como a noite, vinham de mastaréus quebrados, enxárcias destruídas, olhos tristes, semblantes desanimados. Dir-se-ia que fustigadas pelas fúrias do Áfrico velejavam de velas rasgadas, ao longo de toda a ocidental praia lusitana, onde o mar se acaba e a terra começa, ou então por vingança do Neptuno – obrigado a vergar-se à vontade do Gama –, de tridente em riste, furibundo, se ergue dos abismos abissais do Oceano, as devolve depois de longos lustres agasalhadas nas costas de África. E não traziam
Canela, cravo, ardente especiaria
Ou droga salutífera e prestante;
Ou se queres luzente pedraria,

eram antes destroços de vida.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Inquietação

Como ele inquietava consciências!Escrevia nas paredes... Acusava-os de comerem tudo e não deixarem nada. Enaltecia o dom Malapeira que nunca se deixou levar pelos francos e se manteve agarrado ao terrunho, enobrecia a necessitada rebusqueira da amêndoa, engrandecia o cantar dos pássaros que no seu chilrear matutino davam conselhos de vida: poupa, … poupa, … tem-te-na-raiz,… tem-te-na-raiz. Cantava gente anónima: a Rita, o Casimiro, a Etelvina e o Barnabé. Escrevia palavras que até um cego via. Louvava a formiga que vinha em sentido contrário. Visionava um comboio descendente onde vinham todos à janela, uns calados e outros a dar-lhe trela. Cantava corações inteligentes, cantava a solidariedade dos homens e mandava trazer mais um amigo, cantava o dia em que o pintor morreu, os ribeiros, as fontes, o vento, cantava a utopia.

sábado, 4 de abril de 2009

The end.

Não era o fim que o filho tantas vezes escutara, seria antes um fim feliz, mas era um fim. O fim das desculpas, o fim da inocência.
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I’ll never look into your eyes... again
Can you Picture what will be
So limits and free
Desperately in need ... of some... stranger’s hand
In a... desperate land?
...

sábado, 28 de março de 2009

Hematite.

Também já não viu aquela cintura de povos da serra, Felgar, Larinho, Açoreira, Urros, Maçores, Mós, Carviçais,... todos eles de casas muito juntinhas, como se a terra fosse demasiado importante para ser ocupada por casebres de pedra solta, ou então a significar protecção gregarista que os lobos sempre foram muitos. Agora esses lugarejos eram fulgurantes dormitórios da grande multitude que todos os dias subia a encosta e entrava nos intestinos da serra, catacumbas para muitos, e pela tardinha, descia ordeiramente de corpo moído como a salada, diziam alguns, eu digo, vergado pelo peso da hematite, percorria de bicicleta os quilómetros que os separavam de casa, e antes de recolher e maltratar a mulher, coitada, submissa pelo peso dos filhos e pela ignorância.

sábado, 21 de março de 2009

O trabalho.

Agora, sabia que em terra ressequida não há ideia que vingue. Descobrira que na alquimia da vida o elixir das ideias é o trabalho. Revolucionar pelo trabalho há-de ser o seu caminho. FAZER É PRECISO.
Que nenhum livro fique por escrever;
nenhuma palavra por dizer;
nada fique por descobrir.
Que nunca se encubra a verdade.

sábado, 14 de março de 2009

As cores do deserto.

A desertificação, agora, é dada pela superficialidade dos valores que a enformam. As cores são as da aparência, do efémero e do superficial. O brilho é de pasmar, o lustro sempre muito puxado, o invólucro sempre alindado mas o seu interior é leviano e enganador. A verdade deixou de ser severa, já não é algo filosófico que exige sempre longas discussões, muitas horas de profundos pensamentos e longos exercícios de meditação, agora, existem muitas verdades, podem até comprar-se, basta ter dinheiro, sem que ninguém note, segredo miraculosamente guardado pelos offshores criados em sua autoprotecção.

sábado, 7 de março de 2009

Superabundância.

Nunca doeu tanto ver os bairros de lata alinhados ao lado de altos e belíssimos prédios. Nunca doeu tanto notar as diferenças entre o litoral e o interior. Nunca a ciência atingiu tamanho conhecimento mas nunca houve tantos ignorantes. Nunca se editaram tantos livros, mas nunca se vendeu tanta literatura de cordel. Nunca houve tanta produção de discos, mas nunca se vendeu tanta música rançosa. Nunca houve tanta auto-estrada, tantos carros, tantas comunicações, mas nunca doeu tanto ver tanta ilha. Nunca a "Barbie" foi tão supérflua, neste mundo de “bem parecer” e de contrastes marcantes.

domingo, 1 de março de 2009

Existência!

O negrume da noite envolvia tudo em redor, era como se nada existisse. As pedras dos canteiros, as flores... tudo desapareceu. Mas existem, eu sei que existem, porque ainda ontem à luz do dia, as vi. “Tudo existe através de mim”, foi o pensamento que lhe surgiu como um relâmpago, como se naquele momento se tivesse descoberto a si próprio. Tudo está em mim. É dentro de mim que tudo nasce. Começava a acreditar que o Homem era de facto o centro de tudo, a medida de todas as coisas. Ele tudo encerra, o bem e o mal, o bonito e o feio, o céu e o inferno, é no seu íntimo que se processa esse discernimento, nem sempre correctamente, pensava.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A morte.

E a morte não será isso? Morrer fisicamente é perder a consciência, é deixar de ter a noção do real, do mundo que nos rodeia e, nesse sentido, ele estava morto. Conscientemente morto, talvez, emparedado naquela quadra, nenhum estímulo lhe feria os sentidos, nenhuma luz lhe penetrava na pupila, nenhum som lhe chegava aos ouvidos, nenhum calor lhe aconchegava a alma. Isso também é morte!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Antes!

Na fábrica, os dias sucediam-se ao ritmo dos turnos, levando e trazendo revoadas de operários, silenciosos, disciplinados, sem manifestar dissenções, militarmente dir-se-ia “calados e virados para a frente”. Ou então, se as havia, eram sempre feitas em surdina, a olhar para o lado, não fossem as paredes ter ouvidos. Aos dias amenos, seguiram-se os quentes, estiolantes, também para a paisagem, por fim, quando chegou o inverno, sucederam-se os pardos e chuvosos. As nortadas apenas trouxeram frio, idéias não se atreviam a transportar, quando muito, agitavam-nas em terras de alta latitude, mas desmontavam na raia. Orgulhosamente sós! Fosse qual fosse o remoinho que tentasse crescer e elevar-se no éter pútrido, era imediatamente abafado.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Os sons da lareira...

Ouviu o raspar do badil na laje de cineração para retirar a cinza acumulada. Acudiu-lhe ao nariz o cheiro acre da cera da pinha a arder antecedido pelo charriscar de um fósforo. Depois, foram as atiçadelas de tenaz, secas e firmes, a esburgar o tição do toro de amendoeira que há vários dias ardia devagarinho à lareira. Ouviu “tric”, quando as dependurou no prego negro que ficava ao lado da fogueira e as hastes se fecharam. Ouviu o soltar da caldeira da vianda das lárias, ideou-a a abanar como sempre acontecia ao ser aliviada do peso, escutou os passos pesados a deslocarem-se escada abaixo, apercebeu-se do despejo na pia dos porcos. Ouviu os roncos de sofreguidão e abocanhamento.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Influências...

Nos dias seguintes, depois de conhecer as suas íntimas necessidades, procurou ganhar-lhe a confiança mostrando-lhe uma filantropia interesseira. Amordaçou-o quando lhe deu conhecimento da próxima entrega de chaves do novo bairro de casas económicas acabado de construir. Novinho em folha - disse-lhe ele -, é lá para os lados da Areosa. Aperreou-o ao dar-lhe o nome de alguém capaz de mover influências lá dentro, bem capaz de o ajudar, em troca de um pequeno pecúnio, claro! A partir desse momento, não teve dívidas que tinha ali um grande amigo. Uns dias depois veio a contrapartida...

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Desconfianças

As conversas não iam além das coisas banais e comezinhas, assentando com grande fulgor na temporada de futebol. O ambiente tornou-se soturno. Todas as palavras eram medidas e pronunciadas num tom de desconfiança, sempre a olhar por cima do ombro, sempre a ver quem estava por perto.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Bibliotecas!

Ensine-se a ler e depois abram-se bibliotecas...

domingo, 18 de janeiro de 2009

Revolução...

Ah! como era tentador navegar na revolução, libertar-se das frustrações, dar morras ao ditador, apaixonar-se pela tempestade, beijar a namorada no banco de jardim e segredar-lhe amor eterno, como era contracorrente convidá-la para dançar um longo e erótico slow, dormir com ela antes do casamento. Como era arrojado cravar um cigarro, andar à chuva, homiziar-se na multidão para ver os Pink Floyd...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O chincalhão

Quando ia à terra – como dizia, quando se referia á terra onde veio ao mundo –, depois de cear, gostava de ir à taberna, jogar a sueca, beber um copo e falar com a gente da sua criação. Em boa verdade já não era na taberna que jogava à bisca, era no café central, mais moderno, com televisão e mobiliário de fórmica, que a taberna da tia Maria Augusta com aquelas duas mesas de pinho toscas onde se jogava forte e feio ao chincalhão e uns bancos corridos encostados às paredes, onde se sentavam os mirones, teimava em manter-se aberta, já não dava guarida a todos. “Quem está fora racha lenha”. Dizia algum jogador que achasse estar a ser espiado.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

A Ilha

A casa era uma das doze minúsculas casas, dispostas em “U” invertido, que podiam ser apelidadas de bonecas, constituíam a “VILA ANTONIETA”, uma aldeia em miniatura, de cujo nome elegante e romântico não transparece a vida de contubérnia a que obrigava. A casa de banho comum, um cubículo encolhido com espaço apenas para uma sanita, camuflava-se como que envergonhado, no interior de um caramanchão de heras, postado a um dos quatro cantos do logradouro comum; pátio de entrada para todos os casinhotos, cortado a meio e a todo comprimento por um estendal, onde aventados andrajos drapejavam como bandeiras, quer fosse verão ou inverno, quer chovesse ou fizesse sol. As paredes, revestidas a plástico e a jornais amarelecidos pelo tempo, não passavam de tabiques grosseiros, cuja opacidade resultava apenas para o olhar.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

No balneário público

O banho semanal era no “Balneário Público” que ficava no outro quarteirão. Aos domingos de manhã, antes da missa, metia toalha ao ombro, chinelos de dedo, e ala, que se faz tarde, e é preciso tirar as cotras da semana. A Dona Hermínia, a vigilante, gorda pela inacção, lá estava, embutida dentro do cubículo onde mal cabia, a espiar quem entrava, enquanto tricotava mais uma camisola para um neto, que já lhe perdeu a conta, sempre prestável, sempre pronta a ajudar. Era como se fosse um cliente habitual, já o conhecia; precisa de alguma coisa senhor José?, inquiria sempre. Não, não preciso. Respondia, já prestes a enfiar-se numa das cabines.